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    Invasão dos EUA ao Iraque para derrubar Saddam completa 20 anos e “sucesso” da operação ainda é debate entre americanos

    Duas décadas atrás o então presidente George W. Bush ordenou a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, culminando na derrubada da ditadura de um dos piores tiranos do século 20

    Moradores protestam na Zona Verde em Bagdá, Iraque
    Moradores protestam na Zona Verde em Bagdá, Iraque Thaier Al-Sudani/Reuters (29.ago.2022)

    Peter Bergenda CNN*

    Sulaymaniyah, Iraque

    Duas décadas atrás, em 19 de março de 2003, o então presidente George W. Bush ordenou a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Uma semana depois, perto de Najaf, cidade no sul do Iraque, o então major-general americano David Petraeus dirigiu-se ao jornalista americano Rick Atkinson e fez uma pergunta simples: “Diga-me como isso termina”. Essa continua sendo uma pergunta excelente.

    O Museu Amna Suraka, que já foi uma prisão e local de tortura usado pelos agentes de inteligência do ditador Saddam Hussein, em Sulaymaniyah, no Iraque, é um bom lugar para tentar contemplar o legado da invasão dos EUA e, talvez, fazer uma outra pergunta auxliar: Isso tudo valeu a pena?

    Visitei a antiga prisão no início desta semana, que fica localizada em um agradável bairro residencial em Sulaymaniyah, na região curda do norte do Iraque. A localização da prisão no centro da cidade não foi por acaso: Saddam queria que a população local soubesse o que esperava quem se opusesse a ele, ou quem pensasse em se opor ao seu regime.

    O museu é uma câmara de horrores que mostra as celas onde os prisioneiros foram torturados por choques elétricos e tiveram as solas dos pés espancadas para que não pudessem andar. Os menores foram levados para o centro de detenção e suas idades foram alteradas para mais de 18 anos para que pudessem ser executados “legalmente”, de acordo com um funcionário do museu com quem conversei.

    As celas da prisão são bem pequenas, quase sem luz. Durante a era de Saddam, elas estavam lotadas de prisioneiros que compartilhavam banheiros igualmente lotados.

    No museu, há um longo corredor – conhecido como “Salão dos Espelhos” – composto por fragmentos de vidro que representam cada uma das 182 mil pessoas mortas pelos homens de Saddam durante sua campanha “Anfal” de 1988 (que é o número total estimado de mortes feitas por funcionários curdos). Pequenas luzes cintilantes no teto representam as 4.500 aldeias da região que as forças de Saddam também destruíram.

    Um dos piores tiranos do século 20

    Três décadas e meia atrás esta semana, em 16 de março de 1988, Saddam cometeu um dos crimes mais notórios de sua ditadura assassina, matando milhares de curdos usando gás venenoso e agentes nervosos.

    Há poucas dúvidas de que Saddam foi um dos piores tiranos do século 20. Ele matou até 290 mil pessoas de seu próprio povo, de acordo com a Human Rights Watch. Ele também lançou guerras contra dois de seus vizinhos – o Irã durante a década de 1980 e o Kuwait em 1990. Estimativas conservadoras sugerem que pelo menos meio milhão de pessoas foram mortas durante essas guerras.

    Então, quando Saddam Hussein foi derrubado pelos americanos há duas décadas, pelo menos alguns iraquianos ficaram felizes. E o Iraque de hoje deu alguns passos para um sistema político mais responsável em comparação com seus vizinhos do Oriente Médio. O Iraque realizou várias eleições desde a invasão americana em 2003, seguidas de transferências pacíficas de poder.

    E, no entanto, depois que Saddam foi derrubado pelos EUA, a incompetente ocupação americana do Iraque contribuiu para uma guerra civil que dividiu o país, matando centenas de milhares de iraquianos. Mais de 4.500 soldados americanos também morreram.

    A guerra também deu à Al Qaeda uma nova vida. O grupo conhecido como Al Qaeda no Iraque, mais tarde se transformou no Estados Islâmico, que tomou grandes quantidades de território iraquiano em 2014 e instituiu um reinado de terror.

    Mulher iraquiana chora olhando para cena de uma explosão no oeste de Bagdá / 29/12/2004 REUTERS/Ali Jasim/File Photo

    Semelhanças desconfortáveis com a invasão da Rússia

    A guerra do Iraque também estabeleceu um precedente para guerras não provocadas que vemos acontecendo na Ucrânia hoje, que os russos já estão usando com bons resultados.

    Em uma conferência na Índia no início deste mês, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, chamou o que ele nomeou de “duplo padrão” dos EUA, dizendo: “[Você] acredita que os Estados Unidos têm o direito de declarar uma ameaça ao seu interesse nacional, em qualquer lugar na terra, como fizeram… no Iraque?”.

    Esta mensagem pode não ressoar muito no Ocidente, mas no sul global sim, onde a guerra EUA-Iraque e a guerra russa na Ucrânia são vistas por muitos como guerras de escolha e não de necessidade.

    É claro que a condução da guerra na Ucrânia pelo presidente russo Vladimir Putin é muito mais brutal do que a guerra americana no Iraque. Além disso, as forças de Putin estão atacando um estado democrático, enquanto, no Iraque, Bush ordenou uma invasão que derrubou uma ditadura.

    Dito isso, vale a pena sublinhar algumas das semelhanças das guerras: ambas as guerras foram iniciadas por causa de falsas alegações – a guerra dos EUA no Iraque foi lançada com base no fato de que Saddam tinha armas de destruição em massa e ligações com a Al Qaeda.

    A mídia americana em sua maioria repetiu essas afirmações. Como resultado, meses antes de os EUA invadirem o Iraque, a maioria dos americanos acreditava que Saddam estava envolvido nos ataques de 11 de setembro, embora não houvesse nenhuma evidência disso.

    Putin justifica sua guerra na Ucrânia alegando que não é um país “real” e deveria ser anexado a Rússia. Enquanto isso, a mídia russa afirma que seus soldados estão lutando contra “neonazistas” na Ucrânia. Apesar dessas falsas alegações, a maioria dos russos apoia a guerra, de acordo com pesquisas independentes.

    Além disso, nem a guerra do Iraque nem a guerra na Ucrânia tiveram muito apoio internacional. Ao contrário do caso da guerra liderada pelos EUA no Afeganistão após os ataques de 11 de setembro, que teve um mandato do Conselho de Segurança da ONU. Enquanto isso, nem a invasão americana do Iraque nem a invasão russa da Ucrânia tiveram o apoio do Conselho de Segurança da ONU.

    Qual é o próximo passo para o Iraque?

    No museu dedicado aos crimes de Saddam contra seu próprio povo, você sente o peso de sua brutalidade. A eliminação de Saddam pelos EUA foi para muitos iraquianos algo a ser comemorado, mas o que se seguiu, desde a guerra civil até a ascensão e queda do Estados Islâmico, infligiu grande sofrimento adicional ao povo iraquiano.

    Para aqueles que dizem: “Valeu a pena derrubar Saddam, dado o que sabemos sobre como as duas últimas décadas se desenrolaram?”, isso pode estar perdendo o foco hoje. O Iraque tem um novo governo e possui a terceira maior reserva de petróleo do mundo.

    Deveria ser um dos países mais ricos do Oriente Médio, mas, em vez disso, o câncer da corrupção endêmica corroeu as intuições do governo e as empresas internacionais muitas vezes hesitam em investir no Iraque.

    Se a classe política iraquiana puder encontrar uma maneira de criar instituições que não sejam corrompidas, o Iraque terá uma chance de seguir em frente.

    Os 2.500 soldados dos EUA que permanecem no Iraque hoje fornecem não apenas ajuda aos militares iraquianos, mas também fazem uma declaração política de que os Estados Unidos planejam permanecer engajados no Iraque no futuro previsível – em vez de abandonar o país como fez no Afeganistão em no verão de 2021, quando todas as tropas americanas restantes foram retiradas. E nós vimos o quão bem isso acabou.

    *Nota do editor: Peter Bergen é analista de segurança nacional da CNN, vice-presidente da New America e professor de prática na Arizona State University. Ele é o autor de “The Cost of Chaos: The Trump Administration and the World”. As opiniões expressas neste artigo são dele. Veja mais opiniões na CNN.

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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