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    Irã executa manifestantes e afasta força jovem das ruas

    Penas de morte são o ápice de uma punição cada vez mais violenta, incluindo prisões em massa, agressão física e violência sexual, o que afastou a maioria das pessoas com mais de 25 anos das ruas, enfraquecendo movimento necessário para derrubar o regime comandado pelo Aiatolá Ali Khamenei

    Protestos em Teerã, capital do Irã, após a morte de Mahsa Amini
    Protestos em Teerã, capital do Irã, após a morte de Mahsa Amini West Asia News Agency/Reuters

    Jomana KaradshehTamara QiblawiArtemis Moshtaghianda CNN

    Os gritos das mulheres do lado de fora de um tribunal de Teerã se somam a um choro coletivo. A reunião de pessoas lembra uma vigília, e é um dos últimos sinais de uma revolta nacional após as sentenças de morte dadas pelo poder judiciário iraniano nas últimas semanas.

    São crianças e jovens na linha de frente do protesto no tribunal, gritando “não à execução”, no vídeo de 14 de janeiro compartilhado pela Human Rights Activists News Agency (HRANA). Mesmo com o borrão sobre os rostos no vídeo, dá para ver uma menina limpando suas lágrimas. Ela não parece ter mais de 10 anos.

    A revolta nacional que começou em meados de setembro convulsionou o Irã e representa a maior ameaça interna para a classe clerical dominante em mais de uma década.

    O movimento penetrou na base de apoio conservador do regime e produziu inúmeros atos de provocação – e, às vezes, violência – contra o fortíssimo Basij, um grupo paramilitar voluntário que é o sustentáculo do aparato de segurança da República Islâmica do Irã.

    Os manifestantes eram em sua grande maioria jovens e estavam irritados, e a barreira de medo parecia ter sido derrubada.

    Durante quatro meses, os protestos se desenrolaram em meio a uma crescente onda de repressão do governo. Quatro manifestantes foram executados pelo regime; muitos outros temem o mesmo destino.

    As penas de morte são o ápice de uma punição cada vez mais violenta, incluindo a expulsão de manifestantes, prisões em massa, agressão física e violência sexual.

    O regime também aumentou a repressão a dissidentes, minorias étnicas e mulheres. O líder supremo do Irã, o Aiatolá Ali Khamenei, descreveu os protestos como uma conspiração estrangeira e chamou-os de “ato de traição”.

    Outro fator trabalha contra os manifestantes: segundo analistas e ativistas, a maioria das pessoas com mais de 25 anos se afastou das ruas.

    Com isso, o movimento careceu da dinâmica necessária para derrubar um regime fortemente sancionado sobre o qual a comunidade internacional tem pouca ou nenhuma influência.

    Ainda assim, os analistas do Irã concordam que o regime evitou lidar com o problema de forma adequada e os protestos provavelmente irão ressurgir.

    A liderança religiosa do Irã não está disposta ou é incapaz de resolver seus imensos problemas econômicos, exacerbados por um regime de sanções dos Estados Unidos e pela corrupção generalizada.

    “A raiva das pessoas aumentou, não diminuiu”, afirmou um ativista de 25 anos do sudeste do país que pediu para não ser identificado. “Se não houvesse armas nas mãos das forças de segurança, grandes massas de pessoas iriam realizar uma insurreição amanhã”.

    De acordo com ativistas, quase 20 mil pessoas foram presas. Mais de 500, incluindo dezenas de crianças e adolescentes, foram mortos, de acordo com a HRANA.

    Os métodos repressivos deixaram os manifestantes do Irã em um dilema. O descontentamento com o regime parece estar se espalhando, mas o uso da força bruta impediu as manifestações de crescer até o nível necessário para forçar o governo a recuar.

    A ausência de uma massa crítica criou um “problema matemático” para o movimento de protesto, segundo Ali Vaez, diretor do Projeto Irã do International Crisis Group.

    “A maioria só se unirá ao movimento quando o regime perder sua vontade de suprimi-lo”, disse o especialista à CNN. “E é improvável que a vontade do regime de reprimir desapareça a menos que haja uma massa crítica nas ruas”.

    Vaez compara o cenário atual do Irã com a União Soviética no início dos anos 1980, um período de frustração pública e condições econômicas terríveis que anos depois levaram à série de reformas, conhecidas como perestroika, que precederam o colapso da URSS.

    “A República Islâmica está onde a União Soviética estava no início dos anos 80. É ideologicamente falida, está economicamente em apuros e é simplesmente incapaz de se reformar”, listou. “Mas, ao contrário da União Soviética no final da década de 1980, o Irã ainda tem vontade de lutar.”

    “Pode-se concluir que os protestos irão ressurgir mais cedo do que mais tarde de uma forma mais feroz”, acrescentou.

    O efeito arrepiante das execuções

    Ecos da revolta continuam a reverberar no país. Todas as noites, em Teerã, gritos de “morte ao ditador” surgem pelos telhados e por atrás das cortinas fechadas, fora da visão das forças de segurança. Os protestos antirregime continuam pipocando em regiões fronteiriças dominadas por minorias do país, que vêm sofrendo com a mão pesada da repressão.

    No último dia 20, milhares de pessoas tomaram as ruas da cidade de Zahedan, local de maioria étnica baloch, após as orações do meio-dia, exigindo a queda do regime.

    A maioria curda a oeste do país continua organizando encontros que marcam o fim do luto de 40 dias para manifestantes mortos.

    “Curdistão, Curdistão, o cemitério dos fascistas”, gritam os curdos em vídeo de 16 de janeiro compartilhado pelo grupo iraniano-curdo de direitos humanos Hengaw. Os enlutados seguravam rosas no alto de suas cabeças para homenagear Hooman Abdullahi, manifestante baleado e morto por forças de segurança.

    Para os ativistas, a resistência dos protestos entre as minorias étnicas é um sinal do que está por vir. As execuções, dizem, acabarão criando um incêndio.

    Pelo menos 18 manifestantes foram condenados até agora, e apenas cinco ganharam o direito de recorrer da sentença, de acordo com a HRANA. Mais de 100 manifestantes foram acusados de crimes puníveis com a pena de morte.

    Quatro pessoas já foram executadas, incluindo prisioneiros conhecidos como um campeão de karatê e treinador de crianças.

    “As pessoas estão mais zangadas depois de percebermos a velocidade e a pressa com a qual eles enforcaram esses homens”, contou um ativista no Irã que não quer ser identificado e se chama de Sr. Z. “Acho que eles geraram ainda mais raiva. Da próxima vez, as pessoas nem terão medo de serem enforcadas”, opinou.

    As execuções causaram uma forte condenação da comunidade internacional. Relatos e reportagens, incluindo as da CNN, sugerem que a maioria dos manifestantes não está passando pelo devido processo legal, com julgamentos rápidos e acesso apenas a advogados nomeados pelo Estado.

    Mas as sentenças de morte também tiveram um efeito arrepiante, principalmente sobre a geração mais velha de iranianos que em grande parte ficou fora da ruas e que agora tenta manter seus filhos em casa, dizem ativistas.

    “Ninguém quer segurar uma foto de seu filho”, disse um ativista que saiu do Irã, referindo-se a mães que carregam fotos de seus filhos e filhas mortos. As imagens têm sido onipresentes desde o início dos protestos.

    “Mesmo assim, as crianças querem construir seu futuro”, continuou o ativista, conhecido como Mamlekate, que desempenhou um papel fundamental na distribuição de fotos e vídeos dos protestos e na conexão de jornalistas com fontes no país.

    “Se os jovens não fazem isso, quem vai fazer por eles?”, questionou. “Isso está longe de acabar.”

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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