Islândia rejeita plano de adesão à UE, informa emissora pública

Governo pressionava para reabrir as negociações de adesão, enquanto alguns funcionários consideravam que a nação poderia fortalecer estrategicamente o bloco

Johan Ahlander e Tom Little, da Reuters
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Os islandeses votaram para permanecer fora da União Europeia, informou a emissora RUV neste domingo (30), rejeitando a pressão do governo para reabrir as negociações de adesão e alinhando-se com aqueles que disseram que as águas pesqueiras da Islândia eram importantes demais para serem colocadas em risco.

Alguns votos ainda estão pendentes, mas não se espera que isso altere o resultado, afirmou a RUV.

Um voto "não" decepcionará Bruxelas, já que alguns funcionários consideravam a nação insular de 40.000 habitantes um caso de baixo risco que poderia ajudar a diminuir o ceticismo em relação ao alargamento da UE e fortalecer estrategicamente o bloco num momento em que a segurança do Ártico está em foco.

O governo apresentou seu plano de adesão como um momento de "agora ou nunca", e a primeira-ministra Kristrún Frostadóttir disse aos eleitores em agosto que um "não" colocaria de lado todas as especulações sobre a UE.

Décadas de debate sobre a adesão

A Islândia solicitou pela primeira vez a adesão à UE em 2009, quando uma crise financeira atingiu a pequena e vulnerável economia do país. Um governo eurocético encerrou as negociações em 2013.

A turbulência geopolítica, incluindo a guerra no Oriente Médio e as tarifas de importação dos EUA, trouxe urgência a uma questão que os islandeses debatem intermitentemente há décadas.

Os defensores do "sim" afirmaram que a adesão ao bloco poderia ajudar a reduzir as taxas de juros e oferecer mais segurança em um mundo instável devido à guerra na Ucrânia e à retórica do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a anexação de outra ilha do Ártico, a Groenlândia.

Os defensores do "Não" afirmaram que a adesão à UE ameaçaria a soberania da ilha e suas águas de pesca.

A campanha do referendo alimentou o debate sobre o lugar da Islândia no mundo, disse Frostadóttir a repórteres após votar na capital no sábado.

“Este é um grande dia. Estávamos esperando por isso há anos, para podermos ter uma votação”, disse Frostadóttir, acrescentando que seu governo continuaria seu trabalho independentemente do resultado.

Taxas de juros e custo de vida

Os debates dentro da Islândia têm se concentrado nas taxas de juros, nos direitos de pesca e no custo de vida, em vez de na segurança.

A Islândia tem enfrentado uma inflação alta e taxas de juros elevadas que encareceram os financiamentos imobiliários. Os defensores do "sim" afirmam que a adesão à União Europeia, e possivelmente a adoção do euro, poderia trazer alívio.

A taxa de juros do banco central da Islândia é de 8%, em comparação com os 2,25% do Banco Central Europeu.

“Não resolveria as falhas estruturais da Islândia, mas poderia se tornar um catalisador para uma economia mais saudável”, disse o economista-chefe Vilhjalmur Hilmarsson da Viska, uma das maiores centrais sindicais da Islândia.

A líder da oposição, Gudrun Hafsteinsdottir, que liderou a campanha do "não", afirmou que os argumentos econômicos são exagerados. "Esses não são problemas que Bruxelas resolverá para nós. São problemas que os políticos islandeses devem resolver", disse ela.

A eleitora Ragnhildur Skarphedinsdottir, de 70 anos, disse que a Islândia estava se administrando bem sozinha e que votaria "não".

“Ao permanecermos independentes como somos, vislumbramos um futuro promissor”, disse ela antes de votar em Reykjavik.

Segundo as regras da UE, as quotas de pesca baseiam-se em padrões históricos de pesca, entre outros fatores. Alguns funcionários islandeses afirmaram que, portanto, a Islândia manteria o controle de suas águas, uma vez que nenhum país da UE pesca ali há décadas.

Hafsteinsdottir contesta essa afirmação. "Sei que a União Europeia fará algumas promessas de flexibilidade, especialmente no início, mas sabemos que isso não será definitivo", disse ela.