Israel diz que matou jornalista da Al Jazeera e o acusa de integrar o Hamas
Exército alegou que Anas Al Sharif foi responsável por lançar ataques com foguetes; canal disse que ato é tentativa de silenciar vozes

O Exército de Israel anunciou que matou Anas Al Sharif, jornalista da Al Jazeera, em um ataque à Cidade de Gaza neste domingo (10), acusando-o de liderar uma célula do Hamas.
"Anas Al Sharif serviu como chefe de uma célula terrorista na organização terrorista Hamas e foi responsável por lançar ataques com foguetes contra civis israelenses e tropas das FDI (Forças de Defesa de Israel)", afirmou o Exército em um comunicado.
Os militares já haviam mostrado documentos que, segundo elas, eram "provas inequívocas" dos laços de Al-Sharif com o Hamas.
Segundo o hospital Al-Shifa e a Al Jazeera, o ataque matou sete pessoas ao todo, sendo seis jornalistas.
"A ordem para matar Anas Al-Sharif, um dos jornalistas mais corajosos de Gaza, juntamente com seus colegas, é uma tentativa desesperada de silenciar vozes antes da ocupação de Gaza", disse a Al Jazeera em um comunicado após o ataque.
Ele estava em uma tenda com outros jornalistas perto da entrada do Hospital Al-Shifa quando foi morto, de acordo com o diretor da unidade, o doutor Mohammad Abu Salmiya.
No mês passado, depois que as Forças de Defesa de Israel acusaram Al-Sharif de ser integrante do Hamas, ele respondeu com uma mensagem nas redes sociais.
“Reafirmo: eu, Anas Al-Sharif, sou um jornalista sem afiliações políticas. Minha única missão é relatar a verdade de onde se encontra — como ela é, sem preconceitos”, escreveu ele.
“Num momento em que uma fome mortal assola Gaza, falar a verdade tornou-se, aos olhos da ocupação, uma ameaça", adicionou.
ONU e comitê defenderam jornalista morto
O CPJ (Comitê para a Proteção dos Jornalistas) afirmou em julho que estava “profundamente preocupado” com a segurança de Al-Sharif e que o jornalista temia por sua vida após ter sido alvo de “uma campanha de difamação militar israelense, que ele acredita ser um precursor de seu assassinato”.
Desde o início da guerra, há quase dois anos, o CPJ afirma que 186 jornalistas foram mortos em ataques israelenses.
A ONU também classificou as acusações de Israel contra Al-Sharif como “ataques online e acusações infundadas”.
“Estou profundamente alarmada com as repetidas ameaças e acusações do Exército israelense contra Anas Al-Sharif, o último jornalista sobrevivente da Al Jazeera no norte de Gaza”, pontuou Irene Khan, relatora especial da ONU sobre liberdade de expressão, há duas semanas.
Entenda a guerra na Faixa de Gaza
A guerra na Faixa de Gaza começou em 7 outubro de 2023, depois que o Hamas lançou um ataque terrorista contra Israel.Combatentes do grupo radical palestino mataram 1.200 pessoas e sequestraram 251 reféns naquele dia.
Então, tropas israelenses deram início a uma grande ofensiva com bombardeios e por terra para tentar recuperar os reféns e acabar com o comando do Hamas.
Os combates resultaram na devastação do território palestino e no deslocamento de cerca de 1,9 milhão de pessoas, o equivalente a mais de 80% da população total da Faixa de Gaza, segundo a UNRWA (Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinos).
Desde o início da guerra, pelo menos 61 mil palestinos foram mortos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.
O ministério, controlado pelo Hamas, não distingue entre civis e combatentes do grupo na contagem, mas afirma que mais da metade dos mortos são mulheres e crianças. Israel afirma que pelo menos 20 mil são combatentes do grupo radical.
Parte dos reféns foi recuperada por meio de dois acordos de cessar-fogo, enquanto uma minoria foi recuperada por meio das ações militares.
Autoridades acreditam que cerca de 50 reféns ainda estejam em Gaza, sendo que cerca de 20 deles estariam vivos.
Enquanto a guerra avança, a situação humanitária se agrava a cada dia no território palestino. De acordo com a ONU, passa de mil o número de pessoas que foram mortas tentando conseguir alimentos, desde o mês de maio, quando Israel mudou o sistema de distribuição de suprimentos na Faixa de Gaza.
Com a fome generalizada pela falta da entrada de assistência na Faixa de Gaza, os relatos de pessoas morrendo por inanição são diários.
Israel afirma que a guerra pode parar assim que o Hamas se render, e o grupo radical demanda melhora na situação em Gaza para que o diálogo seja retomado.
*com informações da Reuters


