Joe Biden: A longa trajetória do ex-vice de Obama no caminho até a Casa Branca

O novo presidente dos Estados Unidos será um democrata, político de carreira com décadas de atuação em cargos eletivos

Por Guilherme Venaglia, da CNN, em São Paulo

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Os Estados Unidos elegeram Joseph Robinette Biden Jr., ou simplesmente Joe Biden, como o novo presidente do país, de acordo com as projeções divulgadas pela CNN neste sábado (7).

A vitória de Biden vai no sentido oposto ao da eleição de Trump em 2016. O novo presidente será um democrata, político de carreira com décadas de atuação em cargos eletivos contrastando com um republicano que, quatro anos, atrás ganhou para a Casa Branca na sua primeira candidatura.

O que não muda é a idade. Se Trump foi o presidente mais velho a tomar posse em 2014, aos 74 anos, Joe Biden completa neste mês os 78 anos que carregará em janeiro, quando assumirá o Salão Oval.

Apesar de todo esse contorno de tradição, a trajetória de Biden foi marcada por surpresas, tragédias familiares e a sua ascensão ao posto de presidente da nação mais poderosa do mundo dependeu de estar nos lugares certos nas horas certas.

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Biden nasceu em Scranton, na Pensilvânia, mas fez sua carreira política pelo pequeno estado de Delaware. É o segundo menor estado americano, onde moram menos de 1 milhão dos 330 milhões de habitantes dos Estados Unidos.

Para efeito de comparação, Delaware deu ao ex-vice-presidente apenas três dos 270 votos que ele necessitou para se eleger para a Casa Branca. 

Entre 1973 e 2009, exerceu seis mandatos como senador pelo estado, sendo um importante líder no Congresso americano, mas ainda faltando muito para que ele chegasse ao comando da nação.

Joe Biden chegou a ser pré-candidato a presidente em 1988 e em 2008, mas da segunda vez desistiu e embarcou na barca vencedora das prévias democratas, a de Barack Obama, o que mudaria para sempre o seu destino.

Sete meses depois de apoiar o jovem senador por Ilinóis, Biden foi alçado a condição de candidato a vice-presidente. 

O seu nome conferia à candidatura de Obama contornos que ela necessitava para vencer o republicano John McCain, com o reforço de um nome visto como experiente pela atuação no Senado.

Biden é cercado por apoiadores em sua cidade natal, Scranton, na Pensilvânia
Biden é cercado por apoiadores em sua cidade natal, Scranton, na Pensilvânia
Foto: Kevin Lamarque – 3.nov.2020/Reuters

Quando menos se espera…

Eleito e reeleito como vice ao lado de Obama, Joe Biden era visto como um possível candidato democrata às eleições de 2016. Aos 74 anos, ele parecia estar diante da última oportunidade de ser presidente dos Estados Unidos.

Mesmo assim, anunciou a desistência ao lado do próprio Barack Obama, falando aos jornalistas nos jardins da Casa Branca. Foi a conclusão de um ano de 2015 em que o então vice-presidente sofreu uma tragédia familiar, com a morte do seu filho Beau Biden.

Beau morreu em maio daquele ano, vítima de um tumor cerebral. Ele era visto como o herdeiro político do vice-presidente, sendo o procurador-geral de Delaware e um possível concorrente ao governo daquele estado pouco antes de ficar doente.

Uma curiosidade é que Beau Biden foi muito amigo de Kamala Harris, então procuradora-geral da Califórnia e hoje candidata a vice na chapa de Joe Biden a presidente. Kamala e Joe se conheceram na época e o futuro presidente criou relação de gratidão com a sua agora companheira de chapa.

Joe Biden não avançou em detalhes, disse que sua janela para aquela eleição já havia “se fechado” e se retirou da disputa. A saída dele abriu caminho para a candidatura de Hillary Clinton, que ganhou no voto popular, mas perdeu a eleição para Donald Trump no Colégio Eleitoral.

Para o pleito de 2020, o nome de Biden naturalmente frequentava as bolsas de apostas, mas sem a grife de ser o então vice-presidente despontando para a disputa. A corrida democrata estava mais fragmentada e a intenção de Obama de aguardar o vencedor para se posicionar, tirava um dos principais trunfos de Joe Biden para ser o escolhido.

No entanto, ter um presidente como Donald Trump talvez tenha sido a largada para uma plataforma que um político tradicional como Joe Biden precisava para se diferenciar. 

Quando se lançou candidato em abril de 2019, Biden disse que estava entrando em uma “batalha pela alma desta nação”. Ele citou o episódio de Charlottesville, quando marchas de supremacistas brancos resultaram em conflito e Trump pontuou que havia “pessoas muito boas” dos dois lados. 

De certa forma, deu certo. Ao longo da campanha, diversas pesquisas apontavam eleitores declarando seus votos no democrata como mais “anti-Trump”, rejeitando o atual presidente, do que propriamente “pró-Biden”. Lembrando que nos Estados Unidos o voto não é obrigatório e buscam-se discursos adicionais para engajar o comparecimento.

Família

A morte de Beau Biden não foi a única tragédia familiar da vida de Joe. O democrata sofreu, em 1972, um acidente de carro que resultou na morte da sua mulher, Neilia Hunter, e da sua filha. Beau e o irmão, Hunter Biden, ficaram gravemente feridos, mas sobreviveram.

Joe Biden casou-se pela segunda vez em 1977 com a professora Jill Jacobs, que adotou o sobrenome dele. Nas redes sociais, a futura primeira-dama Jill Biden se define como “educadora a vida toda, mãe de militar, avó, irmã e esposa de Joe Biden”.

O filho Hunter provocou algumas dores de cabeça para o pai. Em 2019, o nome dele esteve no centro de uma polêmica que provocou um processo de impeachment contra o presidente Donald Trump.

Uma ligação telefônica entre Trump e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, foi apontada como uma tentativa por parte do republicano de usar o poder econômico dos Estados Unidos para levar o país a investigar os negócios locais de Hunter Biden.

Na visão da Câmara, de maioria democrata, havia nos diálogos entre Trump e Zelensky os elementos para atestar que o presidente se aproveitou do cargo para tentar angariar elementos que fossem prejudiciais a uma candidatura de Joe Biden contra ele. O Senado, de maioria republicana, reverteu a decisão e arquivou o impeachment.

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Ideias

A campanha de Joe Biden foi desde o início construída em torno da ideia de ser o “anti-Trump”. O que o atual presidente seria verborrágico e conflituoso, ele tentaria ser pacífico e agregador. Fala em ser o presidente de todos os americanos e em diálogo.

A experiência de Biden como vice de Obama foi muito falada ao longo da campanha por ambos os candidatos. O democrata buscando se associar a um presidente que, apesar de não ter feito a sucessora Hillary Clinton, seria um símbolo de boas lembranças, sobretudo para eleitores negros, imigrantes e mulheres.

Do lado de Donald Trump, em todos os debates o republicano trazia o argumento de que Joe Biden não seria novidade e que as promessas dele não eram dignas de confiança porque ele já teria tido a sua oportunidade de concretizá-las.

Fato é que Joe Biden retoma bandeiras de Barack Obama que ficaram em segundo plano nos últimos quatro anos. Uma delas, que importa bastante para o Brasil, é a questão ambiental. O ex-vice-presidente fala em um “Green New Deal”, um amplo programa voltado para o desenvolvimento sustentável, e já disse que vai endurecer com o governo brasileiro em nome da preservação das florestas.

Ele também pretende reverter uma das medidas mais simbólicas de Trump nessa seara, que é a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, pacto global pela redução na emissão de poluentes. Ao comentar a saída do acordo, Biden garantiu que devolverá os EUA ao grupo de países que dele participam.

Em uma eleição marcada pela pandemia do novo coronavírus, Joe Biden defende a retomada completa do chamado “Obamacare”, o programa de facilitação de acesso à saúde, com a expansão do papel do estado nesse segmento. 

Já o racismo, outro tema marcante em 2020 diante dos protestos com o discurso Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”), vem personificado em sua candidata a vice-presidente. Desde a morte de George Floyd e as ruas tomadas nos EUA, Biden se encaminhou para escolher uma mulher negra como parceira de chapa.

A vice-presidente eleita dos EUA, Kamala Harris (07.nov.2020)
A vice-presidente eleita dos EUA, Kamala Harris 
Foto: Reprodução/CNN

Kamala Harris

Kamala Harris, senadora pela Califórnia, será a primeira mulher e a primeira pessoa negra a ser vice-presidente dos Estados Unidos. Na função, ela também acumulará a posição de presidente do Senado  americano.

A futura vice já criticou Joe Biden no passado. Em 2019, durante a pré-campanha, insinuou que o hoje colega de chapa não teria tido uma vida totalmente correta no que diz respeito à promoção da igualdade racial. Foi um golpe duro, explorado por Trump, principalmente pela já citada proximidade dela com a família de Biden.

Kamala vem ao governo também para acrescentar uma pitada que Biden necessitava em um tema caro aos americanos, a segurança pública. O presidente já vinha construindo um discurso de que seu adversário seria “fraco” no assunto. Mais um ponto em torno da escolha de Kamala Harris, que era considerada muito rígida como procuradora e posteriormente nas sabatinas de que participou como senadora.

 

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