Jovens buscam formas atípicas para se sustentar em Nova York
De morar com freiras a dividir casa com idosos, pessoas recorrem a moradias não convencionais para reduzir gastos

Charles Jones III precisava de um lugar acessível para morar em Nova York — e precisava disso com urgência.
A moradia oferecida pelo estágio que ele fazia em Manhattan estava chegando ao fim, e a maioria dos imóveis para alugar na região estava muito acima de suas possibilidades financeiras.
Havia ainda os depósitos de segurança e as taxas extras, que poderiam elevar em milhares de dólares os custos iniciais da mudança.
Foi então que Jones, aos 25 anos, recorreu a uma opção que jamais imaginara: mudar-se para a casa de uma mulher cerca de 50 anos mais velha que ele.
Os jovens continuam a afluir a Nova York atraídos pelo vasto mercado de trabalho e pelas oportunidades, mas conseguir pagar a moradia é um desafio cada vez maior.
O valor mediano do aluguel anunciado na cidade chegou a US$ 4.200 (mais de 21 mil reais) em julho de 2026 — um aumento de 30% em relação a julho de 2019 —, segundo o StreetEasy, site de anúncios imobiliários de Nova York.
Em Manhattan, o bairro mais caro da cidade, o valor mediano do aluguel anunciado era de US$ 4.995.
Enquanto isso, a mediana nacional dos aluguéis era de US$ 1.388 (cerca de seis mil e seiscentos reais) por mês em julho de 2026, de acordo com um relatório separado da Apartment List, plataforma de busca de imóveis.
Nova York sempre foi uma cidade cara para se viver, mas, ultimamente, tem ficado ainda mais difícil para os inquilinos fecharem as contas.
O crescimento dos salários não acompanhou a inflação, e a cidade enfrenta a mais grave escassez de moradias de toda uma geração.
Alguns jovens moradores, ainda no início de suas carreiras, estão recorrendo a arranjos de moradia não convencionais, incluindo dividir a casa com colegas mais velhos, para reduzir os custos de habitação.
Jones, natural de Boise, Idaho, soube por meio de seu supervisor de estágio sobre um programa que conecta pessoas que têm quartos livres em casa a outros adultos em busca de moradia.
Os custos mensais costumam ser mais baixos do que os aluguéis tradicionais na cidade, mas há uma condição: um dos moradores deve ter pelo menos 60 anos de idade.
Jones inscreveu-se por meio da organização sem fins lucrativos NYFSC (New York Foundation for Senior Citizens) e foi selecionado para morar com uma idosa proprietária de uma casa no bairro de Jamaica, no Queens.
Ele concordou com algumas regras básicas: deve manter a limpeza dos espaços que utiliza, não pode receber visitas para pernoitar e não pode levar seus próprios móveis.
No entanto, não há horário de recolher — ele pode entrar e sair quando quiser, desde que ajude a limpar a neve da entrada da garagem quando nevar.
Ele se mudou neste mês e tem o segundo andar da casa só para si por apenas US$ 800 (cerca de quatro mil reais) mensais.
“Nos demos bem de imediato”, disse Jones sobre o encontro inicial com sua nova colega de casa. Ele contou que ela ficou impressionada com sua ambição de trabalhar com políticas públicas. “Ela me lembrou a minha avó.”
Mais jovens querem morar com idosos
Linda Hoffman, presidente e CEO da NYFSC, disse que a fundação inicialmente facilitava acordos de compartilhamento de moradia apenas entre idosos. No entanto, acabou estendendo o programa a pessoas mais jovens.
“Percebemos que há jovens que também precisam de moradia acessível”, disse ela. “Temos pessoas que acabaram de sair da escola, estão procurando emprego ou conseguiram novos empregos aqui e não conhecem ninguém.”
Em comparação com os aluguéis tradicionais em Nova York, o programa da NYFSC é mais acessível: o valor mensal médio que os anfitriões cobram de seus colegas de casa é de US$ 1.108, segundo dados da NYFSC fornecidos à CNN.
A maioria dos nova-iorquinos é considerada sobrecarregada com os custos de moradia — ou seja, gasta mais de 30% da renda bruta com aluguel e serviços públicos —, de acordo com um relatório de 2024 do Gabinete do Controlador da Cidade de Nova York.
Em Manhattan, uma família precisaria ter uma renda anual de cerca de US$ 199.800 (mais de um milhão de reais) para não ser considerada sobrecarregada com os custos de aluguel, com base nos valores de aluguel mediano da StreetEasy para julho de 2026.
O interesse de nova-iorquinos mais jovens pelo programa NYFSC tem aumentado de forma constante, disse Hoffman.
No ano fiscal de 2023-24, 16,1% das combinações de compartilhamento de moradia envolveram pessoas de 30 anos ou menos.
Essa proporção subiu para 18% no ano fiscal de 2024-25 e para 20,4% no ano fiscal encerrado em junho, afirmou ela.
Situações de moradia não convencionais viralizam
Com os aluguéis mais caros do que nunca, postagens em redes sociais sobre como economizar dinheiro em Nova York frequentemente acumulam milhares de curtidas.
William Swanson, um jovem de 22 anos de Massachusetts que se mudou para a cidade nesta primavera, viralizou no TikTok ao compartilhar sua experiência de morar — e criar laços — com seu colega de quarto idoso.
O trabalho de Swanson começou em 1º de junho, antes do início dos empregos da maioria de seus amigos. Ele precisava de um lugar para morar por cerca de um mês enquanto aguardava a chegada deles à cidade, para que pudessem procurar um apartamento juntos.
Foi uma busca difícil – a maioria dos imóveis para aluguel de curta duração perto do trabalho dele custava pelo menos US$ 2.500, disse Swanson. Isso até ele encontrar a casa de Aleyda em um site de anúncios de aluguel.
Aleyda, uma mulher de 70 anos que falava principalmente espanhol, estava oferecendo um quarto no bairro de Midtown East, em Manhattan, por US$ 1.900 mensais.
“Era caro, mas a outra opção era basicamente viver em um lugar onde eu não me sentisse necessariamente seguro, ou que não fosse limpo, ou que ficasse muito longe”, disse Swanson. “Eu estava conversando com ela e pensei: ‘Essa é uma opção incrível. Prefiro morar com uma senhora simpática e adorável’.”
Dois dias depois de se mudar para lá, Swanson publicou um vídeo no TikTok compartilhando mensagens de Aleyda, nas quais ela se oferecia para preparar frango, arroz e salada para ele. “Se você não gostar, tudo bem, mas estou fazendo com muito amor”, dizia a mensagem.
O vídeo já soma mais de 3 milhões de visualizações.
Swanson disse que, se os aluguéis fossem mais baratos ou houvesse mais opções de moradia, provavelmente não teria ido morar com Aleyda.
“Sou grato por ter vivido essa experiência e, sinceramente, não a teria trocado por uma opção de moradia mais convencional”, acrescentou.
Uma maneira de economizar
Para os nova-iorquinos mais jovens, esses arranjos de moradia não convencionais podem lhes dar tempo para economizar e, eventualmente, ter condições de comprar ou alugar um imóvel próprio.
Os dois primeiros lugares onde Katie Rettig morou em Nova York foram tudo, menos convencionais.
Quando precisou encontrar um lugar rapidamente antes de começar um novo emprego, ela recorreu ao Google — e acabou encontrando um convento.
Ela se mudou para o Sacred Heart, no bairro de Chelsea, em Manhattan, pagando US$ 1.500 por mês.
As freiras preparavam o jantar todas as noites e, muitas vezes, deixavam sobras para que as moradoras as levassem para o trabalho no almoço do dia seguinte.
Havia regras — como o toque de recolher às 22h e a proibição da entrada de homens —, mas ela tinha seu próprio quarto mobiliado, com banheiro compartilhado com várias outras moradoras.
Rettig ficou apenas dois meses. Mas gostou tanto da experiência que, quando chegou a hora de se mudar novamente, escolheu outro convento: o Saint Mary’s Residence, no Upper East Side.
Ela morou lá por quase um ano, pagando US$ 1.100 mensais, e fez amizade com as outras moradoras.
"Adorei viver com as freiras; no fim das contas, elas são pessoas incríveis. Acho que conviver com quem leva uma vida diferente da sua só traz benefícios", disse Rettig.
Rettig, de 32 anos, também compartilhou sua experiência nas redes sociais no início deste ano, acumulando milhares de visualizações em suas postagens sobre a vida nos conventos.
“Ficar lá me proporcionou uma folga no orçamento, economias com viagens, alimentação e itens básicos do dia a dia que, para muitos, se tornaram luxos”, disse ela à CNN.
Isso também proporcionou a Rettig uma situação confortável, permitindo que ela dedicasse todo o tempo necessário para encontrar um lugar só dela, dentro de sua faixa de preço.
Jones ainda está se adaptando à sua nova moradia em Jamaica, no Queens, mas disse esperar que as despesas mensais mais baixas lhe permitam economizar dinheiro.
Ele não tinha condições de pagar o depósito de segurança à vista, mas o anfitrião concordou em permitir que ele parcelasse o pagamento ao longo dos meses seguintes.
A nova casa de Jones é movimentada, com familiares do anfitrião entrando e saindo — alguns deles moram nos andares superiores.
De certa forma, disse Jones, eles o lembram de sua própria família em Boise.
“Posso ficar aqui por dois ou três anos e, no final, terei economizado bastante”, disse Jones. “Isso pode ajudar a pagar meus empréstimos estudantis e, então, poderei conseguir meu próprio lugar.”



