Judeu abriga refugiados em homenagem aos que salvaram sua família do Holocausto

Jan Gerber é descendente dos poucos sobreviventes da comunidade judaica de Varsóvia, destruída por Hitler; hoje ele entrega seu apartamento aos ucranianos

Jan Geber diz que está feliz em oferecer sua própria cama aos ucranianos que chegam a Varsóvia.
Jan Geber diz que está feliz em oferecer sua própria cama aos ucranianos que chegam a Varsóvia. CNN

Kyung LahSarah BoxerRachel Clarkeda CNN

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Jan Gerber entregou as chaves do seu apartamento à uma família que acabara de conhecer. A mãe ucraniana queria pagar. Não, insistiu Gerber, isso é grátis.

Isso foi dias após a Rússia invadir a Ucrânia e um dos inúmeros atos de bondade mostrados àqueles que fugiam do perigo em busca de segurança na Polônia. Mas para Gerber, de 42 anos, esse ato foi muito, muito pessoal.

“Minha família sobreviveu à guerra porque alguém os ajudou. Eles eram refugiados. É por isso que estou aqui”, disse ele. “Graças a aquele tempo, posso ajudar outras pessoas”.

Gerber é descendente de sobreviventes do Holocausto, alguns dos poucos que sobreviveram à destruição da comunidade judaica de Varsóvia por Hitler, que era então a maior comunidade da Europa.

Não ajudar os outros agora é impensável no caso dele, então ele e a namorada convidam repetidamente os refugiados para ficarem até que tenham um lugar mais permanente. Quando uma terceira família chegou, Gerber e sua namorada encheram um colchão para eles mesmos e disponibilizam o próprio quarto de seu apartamento de 37 metros quadrados, em Varsóvia, para seus novos hóspedes.

“Não é um apartamento grande”, ele fala para os hóspedes, se desculpando, embora os refugiados respondam que esse era o abrigo que eles precisavam da guerra.

Gerber disse que espera que a mulher que veio de Kiev com o filho pequeno possam finalmente descansar.

“Tudo o que possuo e tenho na minha vida está neste apartamento”, disse Gerber à CNN. “Eu não sei se é fé ou tradição. Mas eu preciso”.

História se repetindo e mudando

A poucos quarteirões da casa de Gerber fica o local onde foi o Gueto de Varsóvia, onde os nazistas prenderam os judeus atrás de um muro alto coberto com arame farpado e depois os deportaram para campos de extermínio durante a Segunda Guerra Mundial.

Quase diariamente, ele passa pelo prédio onde sua bisavó, Zofia Poznańska, morava antes da guerra. Ele tem algumas fotos dela – quando criança com um grande laço segurando para trás o cabelo encaracolado, com olhos bem abertos; quando menina já um pouco maior; uma outra quando adolescente e, finalmente, quando já era mãe ao lado da filha pequena, que mais tarde se tornaria a avó de Gerber.

Esta fotografia de 1943, de um relatório oficial da SS, mostra civis judeus sob a mira de uma arma por tropas nazistas da SS depois de serem forçados a sair de um bunker onde estavam abrigados durante a Revolta do Gueto de Varsóvia. / Mondadori via Getty Images

Com os nazistas no comando da cidade, Zofia se separou de seu marido, Julian Poznański, e de Krystyna, sua filha. Krystyna foi evacuada para a Sibéria, disse Gerber. Seu bisavô foi levado e escondido por não-judeus na Polônia. Mas Zofia foi falsamente informada de que ambos estavam mortos e, tomada pela dor e acreditando que a vida não tinha mais sentido, ela se entregou aos nazistas, de acordo com a história da família Gerber.

Essa foi a última vez que eles ouviram falar dela com certeza, disse Gerber. Eles acreditam que ela foi levada para o campo de extermínio nazista de Treblinka, a nordeste de Varsóvia, onde ela morreu, embora os detalhes exatos, como o destino de muitos dos mais de seis milhões de judeus assassinados na guerra, nunca tenham sido descobertos pelas gerações seguintes.

Um bisavô foi abrigado e sobreviveu. O outro não teve ajuda e morreu.

Julian Poznański, bisavô de Jan Gerber, sobreviveu ao Holocausto quando foi escondido pelos poloneses. / Cortesia de Jan Gerber

Essa realidade sempre esteve na mente de Gerber quando os refugiados do país vizinho, Ucrânia, começaram a chegar à Polônia.

“Minha família inteira está envolvida em ajudar os refugiados”, explicou Gerber. Seu pai entregou o seu apartamento. Suas irmãs transportaram ucranianos da fronteira polonesa para Varsóvia. “Estamos vivos porque meus ancestrais estavam escondidos na Polônia”, disse Gerber.

E desta vez, ao contrário da década de 1940, há muitos na Polônia dispostos a ajudar quando a necessidade é tão clara, embora o país tenha enfrentado ondas recentes de exilados de países do Oriente Médio, como a Síria.

‘É a nossa hora’

O rabino-chefe da Polônia, Michael Schudrich, disse à CNN que não há comparação entre a bravura daqueles que abrigaram judeus contra os nazistas e os civis apoiados pelo governo para abrir suas portas para ajudar os ucranianos. Mas ainda assim eles estão fazendo o que precisa ser feito.

O rabino Michael Schudrich disse que a memória do Holocausto estimulou os judeus a ajudar os ucranianos. / CNN

“Nós estamos fazendo nada se comparado ao que aquelas pessoas verdadeiramente justas fizeram durante a guerra”, disse ele.

“É a nossa hora de fazer o que precisávamos que fosse feito por nós 80 anos atrás […] Se ainda tivermos, em algum lugar em nossos corações, uma tristeza pelas pessoas não terem nos ajudado, isso precisa nos levar a fazer mais para ajudar agora, em vez de ficar com raiva ou se fechar, isso precisa nos motivar a fazer ainda mais”.

A maioria dos judeus poloneses que sobreviveram ao Holocausto deixou o país após a guerra. Hoje, há menos de 10 mil judeus na Polônia, de acordo com o Congresso Judaico Mundial. Schudrich disse que a crise dos refugiados ucranianos atingiu de forma diferente os membros da diáspora judaica, incluindo os de origem polonesa, por causa dessa história, além do princípio judaico de ajudar os necessitados a qualquer custo. Ele disse que filantropias judaicas globais, principalmente nos Estados Unidos, arrecadaram cerca de US$ 100 milhões para ajudar os refugiados ucranianos.

A bisavó de Gerber, Zofia Poznańska, fotografada aqui com sua filha Krystyna, provavelmente morreu no campo de extermínio de Treblinka, acredita a família. / Cortesia de Jan Gerber

Apesar de estar cercado pela história dolorosa de sua família, Gerber diz que tenta não se prender ao passado. Mas perguntado como poderia ter sido a vida se mais de seus parentes tivessem sido salvos dos nazistas, ele parece quase melancólico.

“Se alguém tivesse os ajudado, meus ancestrais, meus primos, durante o Holocausto, eu teria uma família muito maior ao meu lado”, disse ele.

“Isso seria maravilhoso – ter uma grande família em Varsóvia, uma família judia que sobreviveu à guerra, seria a coisa mais linda”.

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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