Kamala: quem é primeira negra a concorrer por um dos grandes partidos dos EUA

Acostumada a ser a primeira de sua origem em diversos espaços, senadora agrega à campanha democrata o discurso da segurança pública e da desigualdade

Guilherme Venaglia, da CNN, em São Paulo

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Homem, branco, idoso e heterossexual, Joe Biden escolheu a senadora pela Califórnia Kamala Harris, de 55 anos, para ser a sua candidata a vice-presidente. A parlamentar é a primeira mulher negra a compor uma chapa à Casa Branca, entre democratas e republicanos. Como se sabe, homens negros chegaram lá em 2009, com a posse de Barack Obama, de quem Biden foi vice por dois mandatos.

Kamala Harris é a terceira mulher a compor uma chapa de um dos dois grandes partidos. Antes, Geraldine Ferraro concorreu na chapa democrata em 1984 e Sarah Palin foi a vice do republicano John McCain em 2008. O nome dela, “Kamala”, vem da palavra em sânscrito que significa flor de lótus.

O pioneirismo não é novidade para ela. Filha de imigrantes da Jamaica e da Índia, ela foi a primeira mulher, primeira pessoa negra e primeira descendente de asiáticos a ser procuradora-geral da Califórnia.

Depois, foi a primeira mulher negra eleita senadora pela Califórnia e a primeira descendente de indianos de todo o Senado americano.

A pauta racial não está presente na vida de Harris apenas pela cor da pele. A senadora é conhecida como uma defensora dos direitos dos negros e foi com base nessa militância que enfrentou Biden em junho do ano passado, quando ambos eram pré-candidatos à indicação democrata.

Joe Biden Kamala Harris
Joe Biden e Kamala Harris discutem durante debate democrata, em 2019
Foto: Reprodução/NBC

Naquele momento, Kamala Harris disse que não considerava que o ex-vice-presidente fosse racista, “mas foi doloroso ouvi-lo falar sobre dois senadores dos Estados Unidos que construíram sua reputação e carreira na segregação racial”, evocando menções de Biden a parlamentares que eram contrários ao fim da segregação racial nas escolas americanas, na década de 70.

Os conflitos ficaram para trás. Com a dificuldade de engatar como candidata presidencial, Kamala Harris desistiu da pré-candidatura em dezembro de 2019. O apoio a Biden ainda demorou um pouco mais, chegando em março deste ano.

Durante o anúncio, Kamala Harris disse que Joe Biden seria “um presidente que luta por aqueles cujas vozes são diminuidas ou ignoradas”.

Mesmo assim, os ataques de Kamala a Biden pesaram até a última hora, mas ambos viam dando sinais públicos de que as rusgas tinham sido superadas. Pesava a favor da pacificação o fato de que a senadora foi muito amiga de Beau Biden, filho do ex-presidente que morreu em 2015.

Segurança

Além do aceno à questão racial, há outro aspecto que diferia Kamala Harris das demais políticas negras cotadas para ocupar a posição. A senadora é oriunda do sistema de Justiça, tendo sido procuradora-geral na Califórnia considerada dura com a criminalidade, o que confronta o discurso de Donald Trump de que o candidato democrata não teria “pulso” contra a insegurança.

A chapa Biden-Harris agora tem pela frente a disputa contra o ticket formado pelo presidente Trump e pelo vice-presidente Mike Pompeo, que estarão juntos na disputa à reeleição.

Joe Biden, candidato democrata à presidência, ao lado da senadora Kamala Harris
Joe Biden, candidato democrata à presidência dos EUA, ao lado da senadora Kamala Harris
Foto: Lucas Jackson/Reuters (31.jul.2019)

Apesar de Trump dizer que não se vota em vice, Joe Biden deu grande destaque a esse processo em sua campanha. Além da disparada que lhe permitiu ver adversários se retirarem precocemente um a um, ele também não ignora o fato de que tem 77 anos – 78 na posse, se for eleito.

Entre as contrapartidas de ser candidato nessa idade, estão a necessidade de uma vice capaz de ser uma “ponte” para os eleitores mais jovens e que se coloque como disposta a assumir o comando do país caso seja necessário.

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Desigualdade

Nos Estados Unidos, há análises que apontam que a crise atual derivada da pandemia do novo coronavírus afeta mais as pessoas negras e as mais pobres. Não só a Covid-19, mas também os impactos econômicos da pandemia, como o desemprego crescente.

Joe Biden não é a figura mais à esquerda entre os democratas, sendo menos conhecido pela ênfase em programas sociais. Kamala Harris, por outro lado, agrega essa pauta em um aceno a possibilidade de um apoio estatal forte, balanceando com o pragmatismo de Biden.

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