Mais de cem grupos humanitários e de ajuda cobram ações contra fome em Gaza

Declaração ocorre após 28 países acusarem Israel de “injetar auxílio aos poucos”

Kathleen Magramo, Abeer Salman, Mohammed Tawfeeq e Kareem Khadder, da CNN
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Dezenas de organizações humanitárias internacionais alertaram que o bloqueio israelense à ajuda humanitária em Gaza está colocando em risco a vida de médicos e trabalhadores humanitários, enquanto uma grande agência de notícias afirma tentar retirar seus jornalistas freelancers restantes porque a situação se tornou “insustentável”.

Em uma declaração conjunta, 111 organizações humanitárias internacionais pediram a Israel que ponha fim ao bloqueio, restaure o fluxo total de alimentos, água potável e suprimentos médicos para Gaza e concorde com um cessar-fogo.

A coalizão alertou nesta quarta-feira (23) que os suprimentos no território estão “totalmente esgotados” e que grupos humanitários estão “testemunhando seus próprios colegas e parceiros se esvaindo diante de seus olhos”.

“Enquanto o cerco do governo israelense mata de fome a população de Gaza, os trabalhadores humanitários agora se juntam às mesmas filas de alimentos, arriscando serem baleados apenas para alimentar suas famílias”, afirma a declaração, cujos signatários incluem Médicos Sem Fronteiras, Anistia Internacional e o Conselho Norueguês para Refugiados.

A declaração ocorreu após uma dura acusação contra Israel por 28 países ocidentais, de que o país “injeta ajuda aos poucos” na Faixa de Gaza.

O Ministério das Relações Exteriores de Israel rejeitou a declaração conjunta — que não foi assinada pelos EUA — por considerá-la “desconectada da realidade”.

O exército israelense “precisa parar de matar pessoas” que buscam ajuda em Gaza, declarou o principal diplomata da União Europeia na terça-feira (22).

“O assassinato de civis que buscam ajuda em Gaza é indefensável”, disse Kaja Kallas, alta representante da UE para Relações Exteriores, em uma publicação no X.

Nas últimas 24 horas, 15 pessoas, incluindo quatro crianças, morreram de fome em Gaza, segundo o Ministério da Saúde palestino, ligado ao Hamas.

“Casos de desnutrição e fome estão chegando aos hospitais de Gaza a todo momento”, expressou o Dr. Mohammad Abu Salmiya, diretor do Complexo Médico Al-Shifa, à CNN na terça-feira.

Médicos e agentes humanitários “desmaiam” de fome, diz ONU

Gaza já era fortemente dependente de ajuda e remessas comerciais de alimentos antes de Israel lançar sua guerra contra o Hamas, após o ataque de outubro de 2023.

Israel já havia culpado o Hamas por sua decisão de interromper os envios de ajuda, alegando que o grupo militante estava roubando suprimentos e lucrando com isso. O grupo negou essa alegação.

Autoridades israelenses também culparam agências das Nações Unidas, acusando-as de não receberem ajuda pronta para entrar em Gaza.

Mas a ONU afirma que as forças israelenses frequentemente negam permissão para transportar ajuda e que muito mais está esperando para ser liberado.

No comunicado desta quarta-feira (23), a coalizão de agências humanitárias também criticou a controversa GHF (Fundação Humanitária de Gaza), apoiada por Israel e pelos EUA, que começou a operar em 27 de maio.

As organizações afirmaram que ataques a tiros ocorriam quase diariamente em locais de distribuição de alimentos.

Juliette Touma, Diretora de Comunicações da agência da ONU para refugiados palestinos, a UNRWA, afirmou em um comunicado separado que a busca por alimentos “se tornou tão mortal quanto os bombardeios”.

Ela criticou o esquema de distribuição da GHF como “uma armadilha mortal sádica”, afirmando que “atiradores abrem fogo aleatoriamente contra multidões, como se tivessem permissão para matar”.

E acrescentou que os cuidadores não conseguiam desempenhar as próprias funções devido à falta de alimentos.

“Médicos, enfermeiros, jornalistas, humanitários” estão entre os funcionários que estão “com fome… desmaiando devido à fome e à exaustão enquanto desempenham suas funções”, relatou ela.

Israel há muito tempo busca desmantelar a UNRWA, argumentando que alguns de seus funcionários são afiliados ao Hamas e que suas escolas ensinam o ódio contra Israel. A UNRWA negou repetidamente as acusações.

Até 21 de julho, 1.054 pessoas haviam sido mortas enquanto tentavam obter alimentos em Gaza — 766 perto de instalações do GHF e 288 perto de comboios de ajuda humanitária da ONU e de outras organizações humanitárias, segundo o porta-voz do escritório de direitos humanos da ONU, Thameen Al-Kheetan.

O exército israelense reconheceu ter disparado tiros de advertência contra multidões em alguns casos e negou responsabilidade por outros incidentes.

No final de junho, os militares declararam ter “reorganizado” as rotas de acesso aos locais de assistência para minimizar o “atrito com a população”, mas os assassinatos continuaram.

Na quarta-feira passada (16), o GHF informou que 19 pessoas foram pisoteadas até a morte e outra foi esfaqueada fatalmente em uma multidão em um de seus locais de assistência. Foi a primeira vez que o grupo reconheceu mortes em um de seus locais.

Ameaça à jornalistas em Gaza

Duas grandes organizações de mídia alertaram sobre os próprios jornalistas em Gaza.

A Al Jazeera, que opera canais de notícias em inglês e árabe, afirmou em um comunicado nesta quarta-feira (23) que os jornalistas no território agora "se encontram lutando pela própria sobrevivência".

"Se não agirmos agora, corremos o risco de um futuro em que pode não haver mais ninguém para contar nossas histórias", falou o Dr. Mostefa Souag, diretor-geral da rede.

"Estou me afogando em fome, tremendo de exaustão e resistindo ao desmaio que me persegue a cada momento", relatou o correspondente em árabe da Al Jazeera, Anas Al-Sharif, em uma publicação nas redes sociais.

"Gaza está morrendo. E nós morremos com ela", acrescentou.

Israel proibiu a Al Jazeera de operar no território em maio de 2024 e a chamou de porta-voz do Hamas. A Al Jazeera rejeitou as alegações como "infundadas".

A agência de notícias internacional Agence France-Presse (AFP) informou na terça-feira (22) que está tentando retirar seus funcionários freelancers restantes de Gaza porque a situação se tornou "insustentável".

Ao lado da Reuters e da Associated Press, a AFP, com sede em Paris, é uma das três principais agências de notícias globais que fornecem a outros veículos de comunicação textos, fotos e vídeos de todo o mundo.

Jornalistas independentes não podem operar em Gaza devido às restrições israelenses e egípcias à entrada na Faixa de Gaza.

Repórteres palestinos se tornaram os olhos e ouvidos daqueles que sofrem em Gaza durante o conflito de 21 meses e vivem nas mesmas condições árduas que o restante da população.

O principal sindicato de jornalistas da AFP, a SDJ (Société de Journalistes), alertou na segunda-feira (21) que alguns dos repórteres freelancers restantes da agência em Gaza estavam famintos e fracos demais para trabalhar.

A SDJ afirmou que a AFP estava trabalhando com um repórter freelancer, três fotógrafos e seis videojornalistas freelancers na Faixa de Gaza.

O sindicato compartilhou uma publicação nas redes sociais do funcionário da AFP, Bashar Taleb, que trabalha para a agência como fotógrafo, descrevendo as graves condições no território sitiado.

“Não tenho mais o poder de cobrir a mídia. Meu corpo está magro e não consigo mais andar”, escreveu Taleb, de 30 anos, em uma publicação no aplicativo Facebook no sábado (19), segundo o comunicado do SDJ.

Bashar vive nas ruínas da sua casa na Cidade de Gaza com a mãe, quatro irmãos, irmãs e a família de um dos irmãos desde fevereiro, segundo o comunicado.

Na manhã de domingo (20), ele relatou que um de seus irmãos havia “caído de fome”.

Outro funcionário da AFP, identificado apenas pelo nome, Ahlam, foi citado dizendo: “Toda vez que saio da tenda para cobrir um evento, dar uma entrevista ou documentar uma história, não sei se voltarei vivo.”

O maior problema é a falta de comida e água, disse ela ao sindicato.

O ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Noël Barrot, falou na terça-feira (22) que a França espera retirar alguns colegas jornalistas "nas próximas semanas", após os apelos da SDJ.

"Estamos dedicando muita energia" para retirá-los, afirmou Barrot em entrevista à rádio francesa FranceInter.

Ele acrescentou que a situação humanitária em Gaza é "desumana", descrevendo-a como um "escândalo que deve parar imediatamente".

A AFP afirmou ter tirado com sucesso oito de seus funcionários de Gaza e as famílias entre janeiro e abril de 2024, e a agência agora está "tomando as mesmas medidas para seus funcionários freelancers, apesar da extrema dificuldade de deixar um território sujeito a um bloqueio rigoroso".

"As vidas deles estão em perigo, por isso apelamos urgentemente às autoridades israelenses para autorizarem a saída imediata deles e de suas famílias", acrescentou.

A CNN entrou em contato com o Ministério das Relações Exteriores de Israel e o gabinete do primeiro-ministro para obter comentários.

A guerra entre Israel e Gaza matou mais jornalistas ao longo de um ano do que em qualquer outro conflito desde que o Comitê para o Projeto Jornalistas começou a coletar dados, há três décadas.

Pelo menos 186 jornalistas e profissionais da mídia foram mortos e 89 foram presos desde o início da guerra.

Enquanto os alimentos lutam para chegar às pessoas deslocadas e aos repórteres entre elas em Gaza, o SDJ afirmou em um comunicado: "Desde a fundação da AFP em 1944, perdemos jornalistas em conflitos, alguns ficaram feridos, outros foram feitos prisioneiros. Mas nenhum de nós se lembra de ter visto colegas morrerem de fome."

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