Manifestações da Geração Z estão levando milhares de jovens às ruas

A crescente desigualdade e marginalização desencadearam protestos do Nepal ao Peru, reivindicando responsabilização, mudança e, em alguns casos, derrubando governos

Kara Fox, da CNN
Manifestantes da Geração Z protestam contra a corrupção do governo em Katmandu, Nepal, em 8 de setembro
Manifestantes da Geração Z protestam contra a corrupção do governo em Katmandu, Nepal, em 8 de setembro  • Ambir Tolang/NurPhoto/Getty Images via CNN Newsource
Compartilhar matéria

Do Nepal ao Peru, revoltas lideradas pela geração Z estão levando milhares de jovens das telas às ruas, reivindicando responsabilização, mudança e, em alguns casos, derrubando governos.

Esses manifestantes vêm de diferentes origens e têm demandas distintas, mas a linha comum é clara: a crescente desigualdade e marginalização estão destruindo as esperanças dos jovens no futuro e a única maneira de avançar é enfrentar de frente um contrato social quebrado.

Um movimento global

Nas noites desta semana, cidades e vilarejos pelo Marrocos vivenciaram com a raiva dos jovens mobilizados sob o nome “GenZ 212”, o código de discagem internacional do país.

Liderados principalmente por estudantes e graduados desempregados, os manifestantes exigem reformas abrangentes na saúde, educação e justiça social – questões que dizem ter sido deixadas de lado enquanto o governo investe bilhões na infraestrutura da Copa do Mundo de 2030.

Enquanto estádios e hotéis de luxo são erguidos, hospitais permanecem superlotados e áreas rurais desatendidas.

O sistema de educação do Marrocos, há muito subfinanciado, está formando graduados com poucas perspectivas de emprego: o desemprego juvenil está em 36% – e quase 1 em cada 5 universitários está sem trabalho.

Os protestos recentes foram desencadeados pelas mortes de várias gestantes após cesarianas de rotina na cidade costeira de Agadir, ressaltando o colapso do sistema de saúde.

A resposta do governo foi rápida e brutal: três pessoas foram mortas e centenas feridas, disseram as autoridades.

Forças policiais de choque foram enviadas às principais cidades, usando força e prendendo dezenas de pessoas. O primeiro-ministro de Marrocos, Aziz Akhannouch, afirmou na quinta-feira (3) que seu governo “se engajou” com as demandas dos manifestantes e estava preparado para “diálogo e discussão”.

Na sexta, o GenZ 212 exigiu que o governo renunciasse.

Milhares de quilômetros ao sul, a agitação liderada por jovens está abalando Madagascar. Por vários dias desta semana, cidades por todo o país, um dos mais pobres da África, ficaram inundadas de jovens protestando contra a escassez de água e blackout constantes.

Eles rapidamente se transformaram em chamadas por reformas sistêmicas, com os manifestantes exigindo a renúncia do presidente Andry Rajoelina, que chegou ao poder em um golpe em 2009, e de seu governo.

Rajoelina respondeu dissolvendo o governo nesta semana, dizendo: “Ouvi o chamado, senti o sofrimento”, mas as autoridades continuam reprimindo a dissidência.

Na segunda-feira (29), a ONU informou que pelo menos 22 pessoas foram mortas e mais de 100 feridas. O governo discorda desses números.

Enquanto isso, no país sul-americano do Peru, manifestações começaram em 20 de setembro após o governo anunciar reformas na lei previdenciária.

Os protestos então se ampliaram para reivindicações mais amplas contra corrupção, repressão e crescimento no crime sob o mandato da presidente peruana Dina Boluarte.

As avaliações de popularidade da líder peruana recentemente caíram para 2,5%, enquanto a de seu governo ficou em 3%, segundo o relatório de julho do Instituto de Estudos Peruanos, refletindo ansiedade econômica generalizada, raiva por escândalos de corrupção e indignação contínua pelo assassinato de dezenas de manifestantes após ela assumir o cargo no final de 2022.

A conexão com o Nepal

A agitação acontece após a derrubada extraordinária e sem precedentes do governo nepalês pela geração Z em setembro.

O que começou como um protesto contra uma proibição de redes sociais do governo rapidamente se transformou em uma revolta mais ampla contra corrupção e estagnação econômica.

Em menos de 48 horas, pelo menos 22 pessoas foram mortas e centenas feridas enquanto manifestantes incendiavam edifícios do governo na capital Kathmandu e derrubavam o primeiro-ministro.

Isso espelha outros movimentos recentes liderados por jovens na Ásia do Sul: em 2024, bangladeshianos depuseram Sheikh Hasina, que governou o país por mais de 15 anos; em 2022, jovens do Sri Lanka encerraram a dinastia da família Rajapaksa, que dominou a política do país por duas décadas.

E se soma às manifestações lideradas por jovens na Indonésia, Filipinas e Quênia neste ano.

Subir Sinha, diretor do SOAS South Asian Institute, destacou a ligação entre os vários protestos liderados pela Geração Z em todo o Sul Global.

As prioridades das elites no poder, “parecem muito distantes da vida cotidiana, dos medos e das ansiedades que a Geração Z enfrenta”, disse.