México vai às urnas em eleições marcadas pela violência contra candidatos

Mais de 93 milhões de eleitores escolherão candidatos para mais de 21 mil cargos em todos os níveis de governo; votação é vista como referendo presidencial

Mesária desinfecta estação de votação em Atzacoaloya, no estado mexicano de Guerrero
Mesária desinfecta estação de votação em Atzacoaloya, no estado mexicano de Guerrero Foto: Hector Vivas - 6.jun.2021/Getty Images

Análise de Rafael Romo, da CNN

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Um candidato é ex-boxeador e promete lutar pelas pessoas tanto quanto lutou no ringue. Outro lançou sua campanha saindo de um caixão, dizendo às pessoas que deveria ser enterrado vivo se não cumprir suas promessas.

E há também a influenciadora de redes sociais que busca se tornar membro do Congresso prometendo, entre outras coisas, “seios para todas as mulheres”. Em sua plataforma, ela propõe que sistema público de saúde cubra implante de próteses mamárias.

E isso é apenas uma pequena parte do “espetáculo”, enquanto o México realiza eleições legislativas neste domingo (6), as maiores da história do país. Mais de 93 milhões de eleitores registrados escolherão candidatos para mais de 21.000 cargos em todos os três níveis de governo.

Eles votarão para governadores em quase todos os estados e em todos os 500 membros da Câmara dos Deputados. Também vão eleger os membros de 30 legislaturas estaduais e 1.928 governos municipais de um total de 2.446 (78%).

Mas, apesar de seu tamanho, essas eleições são, em muitos aspectos, sobre um único homem: o atual presidente Andrés Manuel López Obrador.

O nome de López Obrador não está na cédula, mas analistas mexicanos, especialistas, um ex-presidente e um ex-candidato presidencial consultados pela CNN dizem que as eleições equivalem a um referendo sobre o presidente de 67 anos, um político populista veterano de esquerda e ex-prefeito da Cidade do México que conquistou a presidência em 2018 em sua terceira tentativa.

Luis Carlos Ugalde, ex-presidente do Instituto Eleitoral Federal, diz que esta eleição é sobre uma coisa: “os eleitores estão basicamente divididos entre aqueles que amam [o presidente] López Obrador e aqueles que não confiam nele”.

Violência descontrolada antes da votação

Lopez Obrador chegou ao poder prometendo “abraços, não tiros”, mas até agora não conseguiu conter a violência armada no México. 

Uma onda de assassinatos políticos abalou a atual temporada de campanha que antecedeu as eleições em um país já devastado pelas guerras territoriais do crime organizado nas últimas duas décadas.

“O país está em paz. Está sendo governado. Não há riscos de instabilidade”, disse López Obrador na terça-feira (1º). Mas ele também reconheceu o que se tornou dolorosamente óbvio para milhões de mexicanos. “Enfrentamos o flagelo da violência todos os dias”, disse o presidente.

Entre setembro do ano passado (quando teve início o processo eleitoral) e o final de maio, 89 políticos foram assassinados no México e 782 crimes foram cometidos contra eles, segundo a Etellekt, uma empresa de gestão de risco. Ao menos 35 dos assassinados eram candidatos a cargos nesta votação.

Oposição mexicana criou aliança contra partido de Andrés Manuel López Obrador
Oposição criou aliança para evitar que partido do presidente Andrés Manuel López Obrador saia fortalecido de votação
Foto: Ismael Rosas – 2.jun.2021/Eyepix Group/Barcroft Media via Getty Images

As vítimas incluem Alma Rosa Barragán, candidata a prefeita em uma cidade no estado de Guanajuato, que foi baleada no meio de um comício 12 dias antes da eleição.

No dia seguinte, José Alberto Alonso Gutiérrez, candidato a prefeito da cidade balneária de Acapulco, quase não sobreviveu a um ataque armado.

Abel Murrieta, candidato a prefeito da cidade de Cajeme (no estado de Sonora) e ex-procurador do estado, foi baleado e morto em plena luz do dia em 13 de maio enquanto distribuía panfletos de campanha. 

Murrieta também era advogado da família LeBaron, que perdeu nove de seus membros com dupla nacionalidade mexicana-americana no final de 2019 em uma região do norte do México conhecida pela presença generalizada do crime organizado.

No dia seguinte, o presidente López Obrador reconheceu que “este é realmente um momento difícil por causa da campanha e dos interesses conflitantes sendo gerados em diferentes regiões”. “Temos que proteger os candidatos.”

Temor de um presidente muito poderoso

Os eleitores não devem permitir que a violência política extrema obscureça várias outras questões importantes, diz Luis Rubio, presidente do México Evalúa, um think-thank da Cidade do México. 

A votação ocorre em um momento em que o país ainda está se recuperando dos efeitos da pandemia de Covid-19, que não apenas colocou seu sistema de saúde à prova, mas também encolheu sua economia em 8,5% em 2020, segundo dados do governo.

Antes mesmo de López Obrador assumir o cargo, o México já sofria de outra “pandemia”, conforme descrito pelo ex-secretário de saúde do país, Juan Ramón de la Fuente. Ele se referia à violência armada, um desafio que só piorou durante o atual governo. 

Para se ter uma ideia, houve 10.579 homicídios nos primeiros quatro meses de 2018 (antes da posse de López Obrador). O número subiu para 11.307 no mesmo período de 2019 e aumentou para 11.736 entre janeiro e abril de 2020, segundo dados do governo.

Rubio, também ex-assessor do Secretário do Tesouro do México, diz que esta eleição trata de nada menos do que a sobrevivência da democracia mexicana. Ele e outros analistas criticam o que consideram uma tendência autoritária demonstrada por López Obrador.

Em diferentes momentos, o presidente protestou contra o judiciário, funcionários eleitorais independentes, o banco central e a imprensa livre, sem falar dos partidos de oposição que formaram uma aliança, apesar das grandes divergências, em um esforço desesperado para impedir que o presidente aumente seu poder no Legislativo.

López Obrador há muito rejeita as críticas de sua atitude em relação aos freios e contrapesos governamentais. “Dissemos antes de assumir o cargo que uma transformação era necessária para reverter o colapso do México”, disse ele durante uma de suas entrevistas coletivas matinais diárias, onde frequentemente zomba de seus rivais políticos.

Rubio avisa que se o partido de López Obrador, o Morena, ganhar maioria absoluta na Câmara neste domingo, o presidente “terá um caminho claro para fortalecer seu projeto [político], ou seja, recriando os anos 70, que é uma forma de governar que ele está muito confortável”.

Desde o final dos anos 1930 e especialmente durante os anos 1970, os presidentes mexicanos que chegaram ao poder pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI) controlaram tudo no país através de um partido todo-poderoso, mantendo a aparência externa de uma democracia.

O ex-presidente mexicano Vicente Fox, um conservador que em 2000 se tornou o primeiro presidente em mais de 70 anos que não pertencia ao PRI, diz que está encorajando que uma coalizão incluindo o PRI, seu próprio Partido de Ação Nacional (PAN) e o Partido da Revolução Democrática (PRD) possa impedir López Obrador de consolidar seu poder.

“O objetivo é fazer com que López Obrador pense antes de fazer propostas como as piadas diárias que ele faz”, disse Fox.

Uma ex-primeira-dama do México vai ainda mais longe. Margarita Zavala, esposa do ex-presidente mexicano Felipe Calderón (2006-12), e que concorreu em uma campanha presidencial malsucedida como candidata independente em 2017, critica duramente López Obrador, que, em sua opinião, tem uma tendência ditatorial.

“Não estou exagerando quando digo que estamos na encruzilhada entre a democracia e a ditadura. Temos falado nos últimos dois anos sobre más decisões, mortes, infecções [Covid-19], orçamentos terríveis, mais milhões de pessoas que ficaram pobres, uma crise econômica, falta de progresso na infraestrutura e dois anos de mentiras”, disse Zavala em entrevista à CNN.

Mesmo assim, o presidente e seu partido continuam extremamente populares. O índice de aprovação de López Obrador continua alto, chegando a 61%, de acordo com uma pesquisa.

Parte de seu apelo tem a ver com o fato de que muitos mexicanos de classe média e baixa (especialmente sua base e os que votaram nele) sentem que, pela primeira vez em décadas, têm um presidente do povo e para o povo que realmente os ouve e os compreende. 

Suas coletivas de imprensa diárias geralmente servem como um canal para reforçar seus pontos de vista e plataforma política, em vez de responder a perguntas políticas da imprensa.

Luis Antonio Espino, consultor de comunicação mexicano e autor de um livro sobre o presidente, afirma que a estratégia de comunicação de López Obrador tem funcionado efetivamente para mudar a seu favor a percepção da realidade para que as pessoas avaliem seu desempenho com base em suas intenções e não em resultados.

“A complexidade do nosso país e da sociedade mexicana se reduz à mesma narrativa que ele usa no dia a dia. Ele substitui a comunicação pela propaganda com o propósito de manipular a percepção das pessoas, criando uma realidade paralela que está sempre favorável a ele”, disse Espino ao site de notícias mexicano MVS Noticias.

Durante um vídeo recente que o presidente publicou no YouTube, onde aparece jantando peixes com vista para uma barragem no estado de Chiapas, ele promete às pessoas que “as taxas de energia não vão aumentar”. Depois de dizer a eles o que eles querem ouvir, ele acrescenta, “além da inflação”.

(Texto traduzido; leia o original em inglês)

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