Análise: Milei usa Lula como "escada" para elevar seu perfil regional
Embaixador argentino deixa o Brasil após rebaixamento diplomático; analista aponta estratégia política de Milei na América Latina
A crise diplomática entre Brasil e Argentina ganhou novos desdobramentos com a confirmação de que o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, deixará o país no próximo domingo (9).
A saída ocorre após o Itamaraty decidir rebaixar o nível das relações diplomáticas entre os dois países para o patamar de encarregados de negócios.
Segundo fontes diplomáticas argentinas, Raimondi partirá do território brasileiro na manhã de domingo. A partir desse momento, a representação diplomática da Argentina em Brasília passará a ser comandada pela ministra Maria Emília Cortes, atualmente chefe de chancelaria da embaixada.
Milei projeta perfil usando Lula como antagonista
Para o analista de Internacional da CNN Lourival Sant'Anna, a dinâmica da crise revela uma estratégia deliberada de Milei. "É evidente que quem está com a iniciativa é o Javier Milei. Foi ele que puxou o Lula para a briga", afirmou Sant'Anna.
Segundo o analista, Milei estaria usando Lula como uma espécie de "escada" para elevar seu próprio perfil político regional, projetando-se como o principal antagonista da esquerda na América Latina.
"O Brasil é um país muito maior em todos os sentidos do que a Argentina. Então, ele tenta se nivelar ao presidente Lula e, consequentemente, elevar o perfil da própria Argentina também", explicou.
Sant'Anna também fez uma distinção entre os responsáveis por cada etapa da escalada. "No campo da agressão pessoal, a iniciativa foi do Milei. No campo da contaminação da diplomacia pela disputa, a iniciativa foi do Brasil", analisou.
Para o analista, a atitude mais inteligente do ponto de vista do interesse nacional brasileiro teria sido não envolver a diplomacia na contenda. "A questão não é uma questão diplomática, é uma questão pessoal do Milei", concluiu.
Sobre uma eventual normalização das relações, Sant'Anna avalia que isso só deve ocorrer após as eleições argentinas de outubro do ano que vem, nas quais Milei poderá concorrer à reeleição.
Como a crise foi deflagrada
A ruptura teve início após Javier Milei participar da Convenção Nacional do Partido Liberal — evento que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência —, ocasião em que chamou Lula de "presidiário" e Alexandre de Moraes de "lixo careca".
No dia seguinte, o Itamaraty convocou o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Júlio Bitelli, para consultas e pediu explicações ao embaixador argentino em Brasília.
Mesmo diante das medidas adotadas pelo governo brasileiro, Milei continuou concedendo entrevistas na Argentina e intensificando os ataques.
Nos dias seguintes, chamou Lula de "ladrão" e "corrupto", voltou a classificá-lo como ex-presidiário e ainda acusou o petista de ter financiado a campanha do ex-ministro Sérgio Massa contra ele nas eleições presidenciais de 2023.
Foi esse conjunto de insultos e acusações que levou o Itamaraty à decisão de rebaixar o nível das relações diplomáticas e de não reenviar o embaixador brasileiro a Buenos Aires.
Cooperação bilateral segue apesar da crise
Apesar do rebaixamento diplomático, a cooperação entre os dois países não foi interrompida. Dois dias após a decisão do Itamaraty, Milei assinou um decreto autorizando a entrada de militares da Marinha Brasileira na Argentina para a realização de um exercício bilateral conjunto — tradição que se repete desde 1978.
O decreto também autorizou o ingresso de embarcações como fragatas e submarinos nas águas territoriais argentinas.


