Mulheres se arriscam e protestam contra governo do Talibã no Afeganistão

'Há 20 anos, fui forçada a ficar em casa pelo crime de ser estudante. Hoje, 20 anos depois, por ser mulher e professora', disse uma manifestante em Cabul

Manifestação em Cabul acontece um dia depois que mulheres fizeram um protesto semelhante na cidade de Herat, no oeste do Afeganistão. No protesto de quinta-feira (2), as manifestantes seguravam um grande cartaz com reinvidicações.
Manifestação em Cabul acontece um dia depois que mulheres fizeram um protesto semelhante na cidade de Herat, no oeste do Afeganistão. No protesto de quinta-feira (2), as manifestantes seguravam um grande cartaz com reinvidicações. NurPhoto via Getty Images

Nathan HodgeMia AlbertiCeline Alkhadida CNN*

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Um grupo de mulheres afegãs realizou um protesto em Cabul, capital do Afeganistão, nesta sexta-feira (3), contra o governo do Talibã. As manifestantes pediram direitos iguais e plena participação na vida política, segundo confirmou a CNN Internacional.

Apesar do risco do protesto devido ao controle do Talibã, um grupo chamado Rede de Participação Política das Mulheres marchou na rua em frente ao Ministério das Finanças do Afeganistão, com cartazes exigindo envolvimento no governo afegão, clamando por lei constitucional e gritando palavras de ordem.

Vídeos do protesto mostram um confronto entre um guarda do Talibã e algumas das mulheres. É possível ouvir a voz de um homem dizendo para as mulheres irem embora antes das manifestantes começarem as palavras de ordem.

O protesto foi relativamente pequeno — o vídeo da cena transmitido ao vivo pelo grupo mostrou apenas algumas dezenas de manifestantes —, mas representou um desafio incomum ao governo do Talibã.

Publicamente, os líderes do Talibã insistem que as mulheres vão desempenhar um papel importante na sociedade e que “terão acesso à educação“.

No entanto, as recentes declarações públicas do grupo sobre aderir à sua interpretação dos valores islâmicos aumentaram o temor de que haverá um retorno às políticas severas do governo instalado há quase duas décadas — na primeira vez que o Talibã assumiu o controle do país do Oriente Médio — quando as mulheres praticamente desapareceram da vida pública.

 

O Talibã anunciou que está realizando discussões internas sobre a formação de um governo no Afeganistão. No entanto, o grupo já sinalizou  que as mulheres que trabalham devem ficar em casa e, em alguns casos, o novo governo ordenou que as mulheres deixassem suas ocupações.

Algumas mulheres afegãs já aderiram às ordens do novo governo, ficando em casa por medo de represálias. Também há relatos de famílias que passaram a comprar burcas que cobrem todo o corpo das mulheres.

A manifestação em Cabul acontece um dia depois que mulheres fizeram um protesto semelhante na cidade de Herat, no oeste do Afeganistão. No protesto de quinta-feira (2), as manifestantes seguravam um grande cartaz com reivindicações.

“Nenhum governo pode durar muito tempo sem o apoio das mulheres. Nossas reivindicações: o direito à educação e o direito ao trabalho em todas as áreas”, dizia.

Lina Haidari, uma manifestante da cidade de Herat, disse que “os direitos e conquistas das mulheres, que trabalhamos e lutamos por mais de 20 anos, não devem ser ignorados” no governo do Talibã, de acordo com o vídeo do evento da Getty Images.

Há 20 anos, fui forçada a ficar em casa pelo crime de ser estudante. Hoje, 20 anos depois, por ser mulher e professora

Professora Lina Haidari, em uma manifestação da cidade de Herat, no Afeganistão

Os protestos ocorrem em meio a temores aumentados sobre a segurança sob o regime do Talibã. Uma ativista afegã disse que não participou da manifestação de Herat devido a uma ameaça direta. Ela falou à CNN Internacional sob condição de anonimato, temendo que até mesmo expressar interesse na manifestação pudesse gerar represálias.

Futuro incerto

Nos primeiros meses do ressurgimento do Talibã no Afeganistão, as mulheres ficaram cada vez mais isoladas da sociedade e se tornaram alvos de perseguições e ataques — incluindo o assassinato de três jornalistas em março.

No início de julho, os insurgentes entraram nos escritórios do Banco Azizi, no sul da cidade de Kandahar, e ordenaram que nove mulheres que trabalhavam lá saíssem, informou a Reuters. As bancárias foram informadas de que homens, parentes do grupo que assumiu o poder, tomariam seus lugares.

Pashtana Durrani, fundadora e diretora executiva da Learn, uma ONG focada em educação e direitos das mulheres, disse no mês passado que não chorou mais por seu país.

“Estamos lamentando a queda do Afeganistão por enquanto, há algum tempo, portanto, não estou me sentindo muito bem. Pelo contrário, estou me sentindo muito desesperada”, disse.

As preocupações com o destino das mulheres levaram o Banco Mundial a anunciar estar suspendendo a ajuda financeira ao país sem dinheiro

No mês passado, o porta-voz do Talibã, Zabiullah Mujahid, anunciou que as mulheres não deveriam trabalhar para sua própria segurança. A declaração foi considerada um prejuízo aos esforços do grupo para convencer a comunidade internacional de que o grupo seria mais tolerante com as mulheres do que quando estiveram no poder há 20 anos.

Mujahid disse que a orientação para ficar em casa seria temporária e permitiria ao grupo encontrar maneiras de garantir que as mulheres não sejam “tratadas de maneira desrespeitosa”. Ele admitiu que a medida era necessária porque os soldados do Talibã “sempre mudam e não são treinados“.

(*Esse texto foi traduzido, para ler o original clique neste link)

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