Talibã assume o Afeganistão. O que isso significa para mulheres e meninas?

Liderança feminina teme o que acontecerá com o tom aparentemente moderado do Talibã

Mulher afegãs
Mulher afegãs REUTERS/Omar Sobhan

Sheena McKenzie,da CNN

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Uma jornalista recebe uma ligação avisando que eles “chegarão em breve”. Uma deputada espera por seus assassinos. Uma garotinha se pergunta por quanto tempo mais os portões da escola ficarão abertos.

Para as mulheres e meninas do Afeganistão, essa é a terrível incerteza em que se encontram agora.

Enquanto os líderes do Talibã dizem à mídia internacional que “não querem que as mulheres sejam vítimas”, uma realidade mais sinistra está se desenrolando no local.

Meninas são forçadas a se casar, funcionárias de banco deixam seus empregos e casas de ativistas são invadidas, em uma mensagem clara de que as liberdades dos últimos 20 anos estão chegando ao fim.

“Será que devemos acreditar na palavra deles e dizer: ‘Ah, vai ficar tudo bem, isso é o Talibã 2.0, eles evoluíram’? Ou devemos julgá-los por suas ações?” questionou Sanam Naraghi Anderlini, fundadora e CEO da Rede Internacional de Ação da Sociedade Civil (ICAN) e diretora do Centro para Mulheres, Paz e Segurança da London School of Economics.

Anderlini, que lidera a Aliança Feminina para Liderança de Segurança (WASL) da ICAN, disse que uma grande preocupação é o que acontecerá com o tom aparentemente moderado do Talibã assim que a maioria da comunidade internacional deixar o Afeganistão.

“Depois que os diplomatas forem embora, os jornalistas, as ONGs internacionais, eles vão basicamente fechar as portas… sabe Deus o que vai acontecer”, lamentou.

As meninas irão frequentar a escola?

O porta-voz do Talibã, Suhail Shaheen, disse na segunda-feira (16) que, sob seu governo, as meninas poderão estudar. “As escolas serão abertas e as meninas e as mulheres irão para as escolas, como professoras, como alunas”, afirmou.

Mas as histórias dos moradores descrevem um cenário diferente. Existe uma profunda desconfiança em relação aos militantes que causaram tanta miséria durante seu tempo no poder – de 1996 a 2001 – quando meninas e mulheres jovens eram proibidas de frequentar a escola.

As meninas que ainda frequentam as aulas “estão preocupadas com o fechamento dos portões”, contou à CNN por telefone Homeira Qadeiri, uma ativista dos direitos das mulheres e escritora em Cabul.

A educação se tornou muito mais difundida nos últimos 20 anos, e alguns especialistas duvidam que o Talibã imponha uma proibição nacional à educação de meninas, como fez nos anos 1990.

Um grande ponto de interrogação paira sobre as restrições à educação de meninas após a puberdade, afirmou Torunn Wimpelmann, etnógrafa política com foco na política de gênero e reforma legal no Afeganistão, no Chr. Michelsen Institute na Noruega.

Ela alertou que pode haver um cenário em que o Talibã anuncie: “Vamos fechar todas as universidades até conseguirmos professoras mulheres”. O resultado seria “uma espécie de exclusão de fato das mulheres do ensino superior”, explicou Wimpelmann.

“As repercussões do fechamento da educação feminina nos níveis superiores, ou de sua segregação, ainda são muito graves”, acrescentou.

Outra maneira de o Talibã restringir o acesso de meninas à educação é multando as famílias por deixarem suas filhas sair, disse Anderlini. “É outra maneira de eles imporem sua versão de escolaridade sem necessariamente serem violentos”, complementou.

As mulheres terão permissão para trabalhar?

No último governo do Talibã, as mulheres eram proibidas de trabalhar. Depois que os militantes islâmicos foram tirados do poder em 2001, as mulheres podiam ir à universidade e ao trabalho. No início de 2021, 27% das cadeiras no Parlamento nacional eram ocupadas por mulheres.

Mas enquanto o Talibã e o governo afegão apoiado pelos EUA mantiveram negociações de paz no ano passado, mulheres trabalhadoras foram mortas em uma onda de ataques – incluindo o assassinato de três jornalistas em março.

No início de julho, os insurgentes entraram nos escritórios do Banco Azizi, no sul da cidade de Kandahar, e ordenaram que nove mulheres que trabalhavam lá saíssem, informou a Reuters. As bancárias foram informadas de que parentes do sexo masculino assumiriam seus lugares.

Agora, com o Talibã assumindo o controle do país, muitas mulheres com carreiras temem ser punidas ou até mortas em retaliação.

Entre elas está a primeira prefeita do Afeganistão, Zarifa Ghafari. “Estou sentada aqui esperando eles chegarem”, contou a prefeita de Maidan Shahr, de 27 anos, ao site britânico inews na semana passada.

“Não tem ninguém que possa ajudar a mim ou minha família. Estou aqui sentada com minha família e meu marido. E eles vão vir atrás de pessoas como eu e me matarão. Não posso deixar minha família. Mas, para onde eu iria?”, perguntou.

Em nível nacional, o Talibã disse que as mulheres podem trabalhar contanto que o façam dentro de uma estrutura islâmica – mas como isso vai acontecer nas províncias é outra questão, comentou Wimpelmann.

“É provável que eles tenham todos esses tipos de estrutura – que homens e mulheres não devem ficar juntos ou sozinhos numa mesma sala”, explicou, acrescentando que isso “exclui as mulheres de muitos posições”.

As jornalistas mulheres aparecerão na TV?

Jornalistas ainda poderão praticar sua profissão, desde que sigam regras como usar o niqab e não se envolver com homens fora de sua família, afirmou um combatente do Talibã à CNN na segunda-feira (16).

Impedir que mulheres repórteres falem com homens, ou até que fiquem na mesma sala que eles, restringiria severamente sua capacidade de fazer seu trabalho com eficácia. Por enquanto, algumas jornalistas continuam trabalhando.

Duas repórteres da agência de notícias afegã TOLO voltaram a trabalhar nas ruas de Cabul na manhã de terça-feira (17), segundo um tuíte do diretor da agência, Saad Mohseni.

“Retomamos nossa transmissão com âncoras hoje”, disse outro tuíte do chefe de notícias da TOLO, Miraqa Popal, que compartilhou a foto de uma âncora no ar.

Mas várias jornalistas contaram a uma fonte da CNN que haviam recebido ameaças do Talibã, com o número de ligações aumentando nos últimos dias.

Em uma indicação assustadora de como a vida pode ser para as repórteres no Afeganistão, uma importante jornalista em Cabul disse que recebeu um telefonema dizendo que eles “chegarão em breve”.

Que roupas as mulheres terão de usar?

Nos últimos anos, as mulheres afegãs “têm conseguido sair apenas com um lenço na cabeça e cabelos à mostra”, principalmente nas cidades, disse Anderlini.

É um grande contraste com a época em que o Talibã estava no poder.

Naquela época, as mulheres enfrentavam penalidades bárbaras por violarem as chamadas regras da modéstia: açoitadas por “mostrar um ou dois centímetros de pele sob sua burca de corpo inteiro, espancadas por tentarem estudar, apedrejadas até a morte se fossem consideradas culpadas de adultério”, afirmou a Anistia Internacional.

Em resumo, a ONG de direitos humanos relatou: “As mulheres eram essencialmente invisíveis na vida pública e estavam presas em suas casas”.

Na quinta-feira, a CNN falou com uma mulher formada e na casa dos 20 anos que está abrigada em Cabul com sua família desde que um foguete atingiu sua casa na cidade de Kunduz, no norte do país. Por segurança, a CNN não vai usar seu nome.

“Kunduz não é um lugar bom neste momento. Ninguém deveria estar lá “, comentou.

“Estou em contato com muitas das minhas ex-colegas que ainda estão presas em Kunduz. As mulheres não estão saindo de casa; todo mundo está só em casa”, acrescentou.

“Quem tinha emprego tem medo de sair. Todo mundo tem medo da probabilidade de que o Talibã os parem do lado de fora ou coloque suas vidas em perigo”.

Ainda não está claro como serão as restrições a respeito de vestimentas sob a nova liderança do Talibã.

O Talibã disse que “as mulheres podem fazer isso e aquilo se estiverem cobertas pelo hijab”, comentou Anderlini. “Agora, o que eles querem dizer com hijab? Eles se referem à burca? Ou a uma espécie de vestimenta pesada como um chador? Ou existe alguma liberdade?”

Em meio à tomada do poder pelo Talibã, houve uma corrida para comprar burcas. Um lojista em Cabul contou à CNN que seus clientes – em sua maioria homens – estão com medo e comprando burcas para suas esposas, filhas e outras mulheres em suas vidas porque sentem que, de agora em diante, pode ser a única maneira de ficarem seguras na rua.

As mulheres terão liberdade de circulação?

Anteriormente, as mulheres que viviam sob o domínio do Talibã eram proibidas de viajar sem um acompanhante masculino. Já houve relatos de militantes impedindo as mulheres de saírem de casa sem um mahram – ou seja, um membro da família do sexo masculino.

Mesmo que o Talibã não imponha tal política em nível nacional, “há muitas outras maneiras de restringir o movimento das mulheres”, disse Wimpelmann.

Ela observou que, mesmo desde que o Talibã saiu do poder em 2001, o estado afegão processou mulheres pelo que chamou de ‘crimes morais’ – muitas vezes abordando casos de viagens sem um acompanhante masculino.

“Portanto, é possível que esse tipo de processo agora aumente muito”, acrescentou Wimpelmann.

Isso pode ter um grande impacto na capacidade das mulheres de escapar de abusos.

“Podemos ter um cenário em que mulheres são presas por estarem sozinhas com um homem em um táxi, ou em um restaurante, ou em uma casa, ou viajando de uma cidade para outra por conta própria”, explicou.

As mulheres e meninas serão forçadas a se casar?

Já há relatos de militantes “tirando as meninas de suas famílias ou exigindo que entreguem suas filhas”, disse Anderlini. Ela acrescentou que se tratava de “meninas pré-púberes ou adolescentes, basicamente para casamento forçado ou estupro”.

Ela explicou que esses incidentes aconteceram quando o Talibã tomou as cidades de Badakshan e Kandahar, conforme relatado pela mídia internacional e pelos parceiros locais de sua organização.

Não está claro de onde vêm as ordens, se é que há algo do gênero. Pode ser que esses incidentes estejam acontecendo por elementos “desorganizados” do Talibã que “não estão necessariamente ligados à liderança”, comentou Anderlini.

Ela disse ainda que a liderança pode até estar “enviando mensagens diferentes” a seus combatentes, enquanto a mensagem oficial para jornalistas internacionais é: “Não, não, nós vamos respeitar os direitos das mulheres”.

Enquanto isso, in loco, “algo a mais está acontecendo”, finalizou Anderlini.

Clarissa Ward, Brent Swails, Vasco Cotovio e Sarah Dean da CNN contribuíram para esta reportagem.

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