Na semana em que guerra na Síria faz 10 anos, refugiada lembra da vida no país

Brasil tem 3,8 mil sírios reconhecidos, segundo dados consolidados do Comitê Nacional para os Refugiados

Stela Jordy e Lourival Sant’Anna, da CNN, em São Paulo
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Desde que a Revolução Síria estourou, há exatamente uma década, em março de 2011, a imprensa mundial tem registrado violações diárias dos direitos humanos no país do Oriente Médio. 

Uma manifestação pacífica por reformas democráticas culminou na maior crise migratória da história recente da humanidade. Segundo o ACNUR, a agência da Organização das Nações Unidas para refugiados, o número de sírios espalhados pelo mundo passa dos 6,6 milhões. 

No Brasil desde 2015, Joanna Ibrahim faz parte do grupo de 3.800 refugiados sírios, reconhecidos pelo governo brasileiro. A síria, de 34 anos, chegou aqui sozinha. Deixou o país e boa parte da família para trás. Ela contou à CNN o que viveu na guerra e como conseguiu deixar o país. 

"Minha vida em Damasco antes da guerra era muito legal. Eu tinha um trabalho numa empresa internacional e lá eu tive uma vida muito boa. Eu estava morando muito bem, ganhava muito bem. Nunca imaginei que passaria pela guerra. Inclusive uma guerra carregada pela religião e pela política. Foi um choque", afirma Joanna. 

Com a escalada da violência, o país se transformou em um palco de demonstração de forças estrangeiras. 

"Eu lembro que no início de 2012 teve um ataque que matou bastante gente, até mesmo alguns políticos conhecidos. Os rebeldes atacaram a delegacia que fica a uns 100 metros da minha casa. Eu lembro que naquele dia eu tive que me esconder debaixo da mesa. Não sabíamos o que estava acontecendo lá fora.

À esquerda Joanna Ibrahim, refugiada síria, à direita Lourival Sant´Anna, aprese
À esquerda Joanna Ibrahim, refugiada síria, à direita Lourival Sant´Anna, apresentador da CNN
Foto: Da CNN

Eram três horas da manhã. De repente ouvimos os gritos das pessoas morrendo. De manhã acordamos. 'E aí,  o que aconteceu?' Vimos a delegacia toda derrubada. Depois entrou o exército em batalha. Tudo aconteceu na nossa frente basicamente; Escutamos tudo, ouvimos tudo, vimos tudo".

A vida de normalidade e com demonstrações de que seria cada vez mais próspera foi substituída, sem prenúncio, pela tragédia e a violência diária. Segundo Joana, a brutalidade da guerra não fazia distinção entre civis, insurgentes, rebeldes e o exército. Todos estavam passíveis de serem vítimas. 

"Havia aqueles snipers, atiradores, muitas vezes tentaram atacar não apenas nossos carros, mas os carros que estavam passando. Não estávamos entendendo. Você está contra o governo mas o que tem a ver comigo?"

Joanna entrou em depressão. Ficou três meses trancada no quarto, pensando numa saída. Até que um primo falou sobre o Brasil. Depois de pesquisar sobre o país, a jovem comprou as passagens com a ajuda de um tio e veio pra cá .

Ao chegar, foi acolhida por uma ONG que garantiu abrigo para jovem na casa de uma família em Prudentópolis, no Paraná. Com poucos meses instalada no Brasil ela conseguiu reencontrar a avó e uma tia que já estavam aqui. Depois, morou em Juiz de Fora, em Minas Gerais, e, em 2017, veio para São Paulo. 

Joanna fez vários cursos e abriu um restaurante focado no atendimento por entrega, na zona oeste de São Paulo. Atualmente a síria emprega e capacita outros refugiados. Sete imigrantes trabalham na empresa.

"Eu trabalho em um negócio social, que se chama Open Taste, o intuito dele é dar a oportunidade para as pessoas mostrarem suas experiências, suas histórias, sua cultura, através da culinária. Hoje nós estamos fazendo aqui uma operação delivery de comida do mundo basicamente, então temos comida da Síria, da Colômbia, do México, da Venezuela, para as pessoas terem um pouco mais de contato com a cultura desses países", explica Joanna.  

Em 2013, o Brasil facilitou o reconhecimento de sírios ao adotar uma espécie de visto humanitário. O porta-voz do ACNUR no país destaca a contribuição dos sírios para a economia brasileira. 

" A contribuição das pessoas refugiadas em qualquer sociedade, seja no Brasil ou em qualquer país, é muito rica. Essa contribuição vem desde o conhecimento que eles trazem até a contribuição econômica com o país. São pessoas que uma vez integradas passam a pagar impostos, a contribuir com o sistema de previdência, muitos deles passam a contratar brasileiros e também tem a contribuição cultural que é fenomenal. A gente tem hoje no brasil muitos refugiados com negócio de comida, que colocam na mesa dos brasileiros comidas que a gente nunca teria acesso estando aqui no Brasil.", explica Luiz Fernando Godinho

"Hoje existem 6,7 milhões de sírios deslocados do território de origem. São pessoas que sofrem as mesmas consequências da guerra, que não tiveram a oportunidade de buscar uma proteção em outro país. Nós estamos falando de 13 milhões de pessoas, sejam refugiados ou não, que sofrem com uma das maiores crises humanitárias da história da humanidade",  complementa Luiz.

Joanna cozinha em seu restaurante especializado em culinária internacional
Joanna cozinha em seu restaurante especializado em culinária internacional
Foto: Da CNN

Joana diz ter encontrado no Brasil uma oportunidade de reconstruir a vida. A felicidade encontrada em solo brasileiro não diminuiu o amor da refugiada pela Síria. Ela conta que voltaria a viver em seu local de origem, se o país não estivesse destruído. 

"Hoje não tem o perigo de morte por explosão, mas tem fome. Tem fome em Damasco. Hoje não tem recursos para esquentar a casa. Não tem recursos para comprar, não tem pão. O pessoal fica na fila da comida por horas e horas. Na guerra você sabe que tem uma batalha e que vai morrer, mas se você não consegue ganhar dinheiro, você vai contando seus dias", lamenta Joanna.