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    Neandertais caçavam elefantes imensos no norte da Europa

    Descoberta está mudando o que se sabe como hominíneos, que existiam há mais de 300 mil anos e desapareceram há cerca de 40 mil anos, organizavam suas vidas

    A autora do estudo, Sabine Gaudzinski-Windheuser, examina o fêmur de um grande elefante macho adulto
    A autora do estudo, Sabine Gaudzinski-Windheuser, examina o fêmur de um grande elefante macho adulto Lutz Kindler/MONREPOS

    Katie Huntda CNN

    Há cerca de 125 mil anos, enormes elefantes que pesavam o equivalente a oito carros cada um vagavam no que agora é o norte da Europa.

    Cientificamente batizados de Paleoloxodon antiquus, os animais imponentes eram os maiores mamíferos terrestres do Pleistoceno, com mais de quatro metros de altura.

    Apesar do tamanho imponente, os agora extintos elefantes gigantes com presas retas foram rotineiramente caçados e sistematicamente abatidos pelos neandertais, de acordo com um novo estudo dos restos de 70 animais encontrados em um local na Alemanha central conhecida como Neumark-Nord, perto da cidade de Halle.

    A descoberta está mudando o que sabemos sobre como esses hominíneos, que existiam há mais de 300 mil anos e desapareceram há cerca de 40 mil anos, organizaram suas vidas. Segundo a pesquisa, os neandertais eram caçadores extremamente qualificados, sabiam preservar a carne e viviam em grupos maiores do que muitos estudiosos tinham previsto.

    Um padrão distinto de marcas de corte repetitivas na superfície dos ossos bem preservados – verificado em ambos os lados dos esqueletos em diferentes animais – revelou que os elefantes gigantes eram desmembrados após a morte, por meio de um procedimento mais ou menos padrão que perdurou por cerca de 2 mil anos.

    Dado que um único animal adulto masculino pesava 13 toneladas (duas vezes mais do que um elefante africano atual), o processo de abate provavelmente envolvia um grande número de pessoas e levava dias para ser concluído.

    Ferramentas de pedra foram encontradas no norte da Europa com outros restos de elefantes com algumas marcas de corte.

    No entanto, os cientistas nunca tiveram clareza sobre se os primeiros humanos caçaram ativamente elefantes ou pegavam a carne daqueles que morriam de causas naturais. O grande número de ossos de elefantes com o padrão sistemático de marcas de corte deixou esse debate de lado, segundo os autores do estudo publicado na quarta-feira (1) na revista “Science Advances”.

    Os neandertais provavelmente usavam lanças de arremesso – que foram encontradas em outro local na Alemanha – para atingir elefantes machos por causa de seu tamanho maior e comportamento solitário, de acordo com o coautor do estudo Wil Roebroeks, professor de arqueologia paleolítica na Universidade de Leiden, na Alemanha.

    A demografia do local sugere elefantes mais velhos e machos do que seria esperado se os animais morressem naturalmente, de acordo com o estudo.

    “É tudo uma questão de imobilizar esses animais ou levá-los para as margens lamacentas para que seu peso funcione contra eles”, explicou. “Se alguém consegue imobilizar um elefante com ajuda de um grupo de pessoas e encurralá-lo em uma área, é mais fácil matá-lo”.

    Preparação da carne de caça

    O mais surpreendente para os pesquisadores não foi que os neandertais conseguiam caçar animais tão grandes, mas que eles sabiam o que fazer com a carne, disse Britt M. Starkovich, do Centro Senckenberg de Evolução Humana e Paleoambiente da Universidade de Tübingen, na Alemanha.

    “O rendimento é impressionante: mais de 2,5 mil porções diárias com 4 mil calorias por porção. Um grupo de 25 neandertais poderia assim comer um elefante durante três meses; 100 deles poderiam comer por um mês, e 350 pessoas poderiam comer por uma semana”, escreveu Starkovich, que não estava envolvida na pesquisa.

    “Os neandertais sabiam o que estavam fazendo. Eles sabiam quais indivíduos caçar, onde encontrá-los e como executar o ataque. Tinham consciência, sobretudo, do que esperar com um enorme esforço de abate e um retorno de carne ainda maior”.

    Os neandertais provavelmente também sabiam como preservar e armazenar carne, talvez por meio de fogo e fumaça, disse Roebroeks. Também é possível que essa bonança de proteína tenha sido uma oportunidade para encontros temporários de pessoas de uma rede social maior, observou a coautora do estudo Sabine Gaudzinski-
    Windheuser, professora de arqueologia pré-histórica e protohistórica da Universidade Johannes Gutenberg em Mainz, na Alemanha.

    Ela explicou que a ocasião poderia talvez servir como um tipo de mercado de casamento. Um estudo de outubro de 2022, baseado no DNA antigo de um pequeno grupo de neandertais que viveram na atual Sibéria, sugeriu que as mulheres casavam fora de sua comunidade, segundo Gaudzinski- Windheuser, que também é diretor do Centro de Pesquisa Arqueológica de Monrepos e do Museu de Evolução Comportamental Humana em Neuwied.

    “Não vemos isso no registro arqueológico, mas acho que o verdadeiro benefício desse estudo é que agora temos vários elementos na mesa”, afirmou.

    Mudança de percepção

    Os cientistas há muito tempo pensavam que os neandertais eram altamente nômades e viviam em pequenos grupos de no máximo 20 membros.

    No entanto, a última descoberta sugere que eles podem ter vivido em grupos muito maiores e sido mais sedentários nesse lugar e tempo em particular, quando a comida era abundante e o clima, benigno.

    O clima na época – antes que os lençóis de gelo avançassem na última idade do gelo, entre 100 mil e 25 mil anos atrás – teria sido semelhante às condições atuais.

    Matar um elefante desse porte não era um acontecimento diário, segundo o estudo, que estima ter havido um abate a cada cinco ou seis anos, com base no número encontrado no local da pesquisa.

    É possível, no entanto, que outros restos de elefantes tenham sido destruídos, pois o local faz parte de uma mina aberta, de acordo com os pesquisadores.

    Outros achados no local sugeriram que os neandertais caçavam uma grande variedade de animais em uma paisagem de lago povoada por cavalos selvagens, gamos e veados-vermelhos.

    De uma forma mais ampla, o estudo destaca o fato de os neandertais não serem habitantes de cavernas brutais tão frequentemente representados na cultura popular. Na verdade, o oposto é verdadeiro: eles eram caçadores qualificados, entendiam como processar e preservar alimentos, e prosperavam em uma variedade de diferentes
    ecossistemas e climas. Os neandertais também fizeram ferramentas sofisticadas, fios e arte, e enterraram seus mortos com cuidado.

    “Aos traços mais reconhecidamente humanos que sabemos que os neandertais tinham – como cuidar dos doentes, enterrar seus mortos e manter representações simbólicas ocasionais – agora também precisamos considerar que eles tinham tecnologias de preservação para armazenar alimentos e eram ocasionalmente sedentários e operavam em grupos maiores do que jamais imaginávamos”, listou Starkovich.

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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