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    Novo surto em Pequim lembra ao mundo que a pandemia pode voltar

    Durante 55 dias, a capital chinesa não registrou nenhuma infecção transmitida localmente. A volta a normalidade, porém, foi interrompida após novos casos

    Policiais paramilitares usam máscaras e óculos de proteção enquanto ficam de guarda em uma entrada do mercado fechado de Xinfadi, em Pequim, em 13 de junho.
    Policiais paramilitares usam máscaras e óculos de proteção enquanto ficam de guarda em uma entrada do mercado fechado de Xinfadi, em Pequim, em 13 de junho. Foto: Greg Baker/AFP/Getty Images

    Nectar Gan,

    da CNN

    Até a semana passada, Pequim parecia ter deixado para trás a pandemia de coronavírus. Durante 55 dias, a capital chinesa não registrou nenhuma infecção transmitida localmente e a vida voltou ao normal. Empresas e escolas reabriram, as pessoas voltaram ao trabalho e os transportes e parques públicos da cidade ficaram novamente lotados.

    No entanto, essa fachada de normalidade foi destruída na semana passada, quando um novo conjunto de casos de coronavírus emergiu a partir de um mercado atacadista de alimentos na cidade, infectando mais de 180 pessoas na sexta-feira (19).

    Em questão de dias, a metrópole de mais de 20 milhões de pessoas foi colocada sob um lockdown parcial. As autoridades reintroduziram medidas restritivas usadas anteriormente para combater a onda inicial de infecções, isolando bairros residenciais, fechando escolas e impedindo que centenas de milhares de pessoas consideradas em risco de contrair o vírus deixassem a cidade. Aproximadamente 356 mil pessoas foram testadas em apenas cinco dias.

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    O surto de infecções em Pequim, sede do poder do Partido Comunista e considerado anteriormente entre as cidades mais seguras do país, é um lembrete de como o vírus pode facilmente voltar a assombrar lugares onde ele parecia ter sido domado.

    Cinco dias antes do início do atual surto, as autoridades de Pequim haviam acabado de rebaixar de 2 para 3 o nível de alerta de emergências em saúde pública – são quatro os níveis de alerta adotados na cidade. Na terça (16), Pequim voltou ao nível 2.

    Relatos de advertência semelhantes ocorreram várias vezes nos últimos meses, com os governos se apressando em conter novos surtos depois de terem aparentemente controlado o número inicial de infecções.

    A Coreia do Sul, muito elogiada por seu sucesso em conter o vírus, vem combatendo um aumento nas infecções desde o final de maio, após a flexibilização das regras de distanciamento social e a reabertura de escolas. Singapura era considerada um caso de sucesso no combate ao coronavírus até que uma onda de infecções eclodiu em abril entre trabalhadores migrantes que viviam em dormitórios lotados.

    Segunda onda de infecções

    Na China, a onda inicial de infecções foi amplamente contida no final de março, graças às ações de isolamento que fizeram grande parte do país parar. À medida que os surtos pioravam em outros países, a China fechou suas fronteiras para a maioria dos estrangeiros, impôs uma triagem rigorosa nos aeroportos e colocou em quarentena todos os cidadãos chineses que retornavam ao país. Apesar desses cuidados, grupos de infecções locais aumentaram no nordeste do país em abril e maio, todos ligados a casos importados.

    Mas o atual surto em Pequim é o pior ressurgimento do coronavírus já registrado, e as autoridades ainda estão tentando rastrear sua fonte.

    Anteriormente, relatos haviam ligado o surto a frutos do mar ou carne, quando vestígios do vírus foram detectados em uma tábua usada por um vendedor de salmão importado no mercado. Suspeita-se agora que o vírus tenha se espalhado silenciosamente por semanas antes de ser detectado pela primeira vez.

    “O novo surto em Pequim provavelmente não começou no final de maio ou no início de junho, mas um mês antes”, afirmou Gao Fu, diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças da China (CDC), em uma reunião em Xangai na terça-feira (16).

    “Muitos casos assintomáticos ou leves devem ter ocorrido (no mercado), e é por isso que o vírus foi tão detectado no ambiente”, explicou.

    Evidências dos Estados Unidos sugerem que entre 25% e 45% das pessoas infectadas provavelmente não apresentam sintomas, mas podem transmitir o vírus a alguém que não está infectado, de acordo com estudos epidemiológicos.

    Zhang Yong, outro funcionário chinês do CDC, concordou com a avaliação de Gao. Em um artigo publicado pelo governo na sexta-feira (19), ele revelou que grande quantidade de amostras ambientais coletadas no mercado de Xinfadi foram positivas para o coronavírus, o que demonstra que “o vírus havia entrado no mercado fazia tempo”.

    “De acordo com os resultados preliminares dos estudos genômicos e epidemiológicos, a cepa do vírus é da Europa, mas é diferente daquela que está se espalhando por lá. É mais antiga que a outra”, detalhou.

    Segundo Zhang, o vírus pode ter viajado em alimentos congelados importados ou perdurado em algum ambiente escuro e úmido, como é o mercado de Xinfadi, antes de ser exposto a pessoas e causar infecção.

    Nos últimos meses, alguns especialistas em saúde chineses haviam alertado contra uma potencial segunda onda de infecções, mesmo quando a mídia estatal chinesa divulgava repetidamente o sucesso do governo em conter o surto e contrastá-lo com os fracassos dos governos ocidentais.

    Em uma entrevista exclusiva à CNN em maio, o principal especialista em doenças respiratórias da China, o médico Zhong Nanshan, alertou que a China ainda enfrenta o “grande desafio” de um possível retorno do vírus, e que as autoridades não devem ser complacentes.

    “A maioria dos chineses ainda é suscetível à infecção pela Covid-19 devido à falta de imunidade”, disse Zhong. “Estamos enfrentando um grande desafio, sem superioridade em relação aos outros países”.

    Surto “sob controle”

    O surto em Pequim será o mais recente teste da estratégia de contenção de coronavírus da China.

    Na quinta-feira (18), Wu Zunyou, epidemiologista chefe do CDC da China, chegou a fazer uma declaração em tom vitorioso, dizendo que o surto em Pequim já está “sob controle”.

    Wu disse que ainda é provável que haja novos casos confirmados vinculados ao mercado nos próximos dias, mas não que isso ocorra devido a novas transmissões.

    “Os casos recém-diagnosticados, relatados todos os dias, não equivalem a novas infecções, assim como o surto sob controle não significa que não haverá novos casos amanhã”, comparou.

    “Haverá casos relatados amanhã e depois de amanhã, pois fazem parte do processo de detecção de infecções anteriores. Não são novas infecções. As novas infecções são apenas esporádicas”, afirmou Wu.

    O epidemiologista-chefe disse que era esperado ver um novo surto em Pequim, dado o grande número de novos casos globais.

    “Enquanto houver risco de casos importados, poderão ocorrer infecções importadas e grupos de pequena escala causados por infecções importadas em qualquer lugar da China. Deste ponto de vista, o surto de Pequim é normal”, garantiu.

    Steven Jiang, da CNN, contribuiu para a reportagem.