Líbano desenvolve plano para desarmar o Hezbollah

Governo libanês sofre pressão dos EUA para agir rapidamente contra o grupo mulçumano xiita, sob ameaça de ataques aéreos de Israel

Da Reuters
Escoteiros carregando bandeiras do Hezbollah enquanto marchavam em um funeral de dois soldados do grupo que foram mortos pelas Forças de Defesa de Israel no Sul do Líbano na terça-feira da semana passada
Escoteiros carregando bandeiras do Hezbollah no Líbano  • Foto de Daniel Carde/Getty Images
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O Líbano instruiu, na terça-feira (5), o exército a elaborar um plano para estabelecer um domínio exclusivo de armas no país até o final de agosto.

A ação desafia o Hezbollah, grupo apoiado pelo Irã, que rejeita os apelos para o desarmamento.

Israel atacou o Hezbollah no ano passado, em uma investida que se desencadeou por conta do conflito em Gaza. A ofensiva matou muitos integrantes de alto escalão e 5 mil combatentes do grupo, antes de uma trégua estabelecida em novembro de 2024 mediada pelos Estados Unidos.

No caso de cessar-fogo, o Líbano se comprometeu a restringir o uso de armas a seis forças de segurança estatais específicas, além de confiscar armas não autorizadas e impedir o rearmamento por grupos não estatais, como o Hezbollah.

Nos meses seguintes, sob a liderança de um novo governo, o Líbano prometeu restringir as armas em todo o país ao controle estatal.

A principal rota de armas do Hezbollah foi cortada quando Bashar al-Assad, o ex-presidente da Síria e aliado do grupo, foi deposto em dezembro de 2024. O envio do Irã também foi afetado devido ao ataque de Israel em junho.

Desde então, o governo do Líbano está sob pressão dos EUA e dos rivais domésticos do Hezbollah para agir rapidamente, em meio a temores de que Israel possa intensificar os ataques aéreos contra o país.

Apesar do cessar-fogo estabelecido em novembro, Israel continua a realizar ataques contra o que afirma serem depósitos de armas e combatentes do Hezbollah, principalmente no sul do Líbano.

Qual o envolvimento dos EUA?

Em junho, o enviado dos EUA, Thomas Barrack, propôs um roteiro às autoridades libanesas para o desarmamento total do Hezbollah em troca da interrupção dos ataques israelenses ao Líbano e da retirada de suas tropas de cinco pontos que ainda ocupam o sul do país.

Mas o Hezbollah e seu principal aliado xiita, o Movimento Amal, liderado pelo presidente do parlamento, Nabih Berri, afirmam que a sequência deve ser revertida, com Israel se retirando e interrompendo os ataques antes de qualquer negociação sobre as armas do Hezbollah.

Contudo, os EUA exigem que o governo do Líbano tome a iniciativa com um compromisso formal de desarmar o Hezbollah.

Capacidade militar do Hezbollah

Após o fim da guerra civil de 15 anos no Líbano, em 1990, o Hezbollah, fundado pela Guarda Revolucionária do Irã em 1982, foi o único grupo autorizado a manter suas armas, sob a alegação de que estava combatendo a ocupação israelense do sul do país.

Após a retirada de Israel em 2000, o grupo não entregou suas armas, argumentando que a capacidade de combate ainda era um elemento crítico da defesa nacional contra futuras agressões israelenses.

Um acordo de cessar-fogo após uma guerra entre o Hezbollah e Israel em 2006 foi apoiado por uma resolução da ONU exigindo o desarmamento de todos os grupos militantes — mas o Hezbollah novamente manteve suas armas, acusando Israel de ter violado outras partes do acordo de trégua.

O Hezbollah tomou partes de Beirute em combates em 2008, reforçando seu domínio. O grupo exerceu influência decisiva sobre os assuntos de Estado nos anos seguintes, à medida que seu poder crescia.

Riscos de conflito civil

O Hezbollah classificou a decisão do governo de solicitar ao exército planos para desarmá-lo como um "erro grave" que "serve plenamente aos interesses de Israel".

O chefe do Hezbollah, Naim Qassem, rejeitou todas as cláusulas do roteiro do enviado dos EUA Thomas Barrack.

Além disso, quando Qassem discursou na terça-feira (5), dezenas de motocicletas com homens carregando bandeiras do Hezbollah circularam nos subúrbios ao sul de Beirute, capital do Líbano — demonstrando a força do grupo.

Pairando sobre qualquer tentativa de forçar o Hezbollah a se desarmar, permanece a memória de episódios anteriores de agitação civil, incluindo os combates de 2008, desencadeados pela tentativa do governo de desligar a rede de telecomunicações militar do grupo.

Essa instalação é importante para o grupo, mas tem menos valor se comparada as armas.

Quais são as complicações políticas?

O sistema de compartilhamento de poder do Líbano distribui cargos no setor público – incluindo no parlamento, no gabinete e em outras funções – a diferentes grupos religiosos de acordo com cotas.

O sistema visa garantir que nenhum grupo seja excluído da tomada de decisões, mas os críticos dizem que isso leva à paralisia política. A representação xiita tanto no parlamento quanto no gabinete é dominada pelo Hezbollah e seu aliado político, o Movimento Amal.

Dois ministros xiitas estavam viajando durante a sessão ministerial de terça-feira (5), e os outros dois saíram nos momentos finais, enquanto a decisão era tomada.

O chefe do Hezbollah Naim Qassem afirmou que qualquer decisão governamental exigiria um consenso nacional e poderia questionar a legitimidade das decisões ministeriais tomadas sem os xiitas.

O que acontece agora?

A decisão ministerial deu ao exército um prazo para apresentar um plano de desarmamento ao governo até o final de agosto. Outra sessão agendada para quinta-feira (7) discutirá a proposta do enviado dos EUA Thomas Barrack.

Alguns partidos libaneses podem continuar tentando encontrar uma solução alternativa que evite um confronto entre o Hezbollah e o Estado, ao mesmo tempo em que evita ataques israelenses mais pesados.