OMS diz a Bolsonaro que faltam dados sobre segurança de vacinas para crianças

Presidente brasileiro divulgou vídeo de conversa com Tedros Adhanom, diretor da OMS, em que eles discutem imunização de crianças e passaporte de vacina

Camila Neumam, da CNN, São Paulo
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O presidente Jair Bolsonaro se reuniu com o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em Roma, na Itália, e falou sobre vacinação, passaporte da vacina e medidas de contenção contra a Covid-19. O presidente publicou um vídeo com trechos do encontro em sua página nas redes sociais.

Bolsonaro, que participava da Cúpula do G20, onde se reuniram os líderes dos países mais ricos do mundo, questionou a posição da organização sobre o lockdown, ressaltou que não se vacinou e afirmou que a OMS deveria emitir uma nota afirmando ser contrária à vacinação de crianças.

Isso porque durante a conversa, Tedros reafirmou que a OMS não indica a vacinação de crianças, no momento, por falta de dados de segurança.

Em sua página na internet, a OMS afirma que “mais evidências são necessárias sobre o uso das diferentes vacinas contra Covid-19 em crianças para poder fazer recomendações gerais sobre a vacinação de crianças contra Covid-19”. (Leia mais abaixo sobre como a ciência avalia a vacinação em crianças).

Por enquanto, com os dados que dispomos no momento, os dados não indicam que crianças devam ser vacinadas. Precisamos de dados sobretudo sobre a segurança da vacina. Mas há estudos em andamento no momento (...) Quando os dados estiverem prontos e concluídos, é claro que podemos emitir uma nota sobre isso”, disse Tedros.

Bolsonaro afirmou que no Brasil “tem governador e prefeito exigindo a vacinação de crianças”. E, em contrapartida, Tedros respondeu: “É importante seguir a Ciência, mas compartilharemos com o Brasil assim que tivermos mais dados”.

Bolsonaro insistiu no assunto e sugeriu ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que participava da conversa, que ele faça um comunicado a respeito. “Nós temos que ter uma nota neste sentido dizendo que a OMS não recomenda vacina para crianças porque tem prefeito e governador que receberam poder do judiciário para decidir”, disse Bolsonaro.

O presidente brasileiro questionou Queiroga sobre o assunto, mas o ministro foi interrompido pelo próprio presidente ao tentar explicar tecnicamente a questão. Bolsonaro disse que “tem que ter uma nota sua baseada na OMS”, e Queiroga responde: “Com certeza”.

Apesar da recomendação da OMS, o FDA (Food and Drug Administration, a agência do Departamento Federal de Saúde dos Estados Unidos) autorizou a vacinação contra Covid-19 em crianças de cinco a 11 anos nos Estados Unidos.

A decisão veio dias depois que um comitê consultivo da agência revisou os dados de um ensaio clínico testando uma versão de baixa dosagem da vacina Pfizer-BioNTech em crianças nessa faixa etária  e votou quase unanimemente para recomendar que o FDA conceda a aprovação de emergência.

O CDC, a agência reguladora de medicamentos e vacinas dos EUA, também deve aprovar a aplicação das doses nesta faixa etária no país. O Comitê Consultivo em Práticas de Imunização, do CDC, se reunirá na terça-feira (2) para discutir uma recomendação para essa faixa etária.

Durante a conversa, Bolsonaro enfatizou ao diretor-geral da OMS que não se vacinou, e disse que o Brasil produziu vacinas suficientes para quem quisesse se vacinar.

“O Brasil já produziu mais de 320 milhões de vacinas. Praticamente, só não tomou quem não quis. Eu respeito quem não quer tomar vacina”, diz apontando para si mesmo.

Passaporte da vacina

Bolsonaro também questionou a OMS sobre o passaporte da vacina, se dizendo contra a medida. Tedros afirmou que a OMS não é favorável à obrigatoriedade, considerando que a medida pode soar discriminatória em países com baixas taxas de imunização.

“Por enquanto ainda não estamos recomendando [o passaporte da vacina] porque a taxa de vacinação em vários países está baixa. Então, quando o acesso à vacinação é baixo, ter o certificado poderia ser discriminação. Na África, por exemplo, só tem 5% da taxa atual de vacinação”, afirmou.

Medidas de restrição

Bolsonaro também questionou Tedros sobre lockdown, ressaltando que foi contra a medida no Brasil, por questões econômicas.

O diretor da OMS respondeu dizendo que o atual status da vacinação no Brasil pode indicar que o país não precisará mais adotar a medida de restrição.

O acesso ao campo de vacinação no Brasil está bem avançado e se o Brasil continuar trabalhando com as medidas públicas como máscaras, distanciamento social não há necessidade do lockdown realmente. Se houver um lockdown, pode ser que ele seja muito localizado, em uma área de altíssimo risco. Mas depende da avaliação de risco. Certamente não seria o caso de todo o país”, afirmou.

Entenda por que a OMS se diz contra vacinação de crianças

No site da OMS, a organização afirma que o Grupo Consultivo Estratégico de Especialistas da OMS (SAGE) concluiu que a vacina Pfizer / BionTech é adequada para uso por pessoas com 12 anos ou mais. Na página, afirma que "crianças com idade entre 12 e 15 anos que estão em alto risco podem receber esta vacina juntamente com outros grupos prioritários para vacinação".

“Os ensaios de vacinas para crianças estão em andamento e a OMS atualizará suas recomendações quando a evidência ou a situação epidemiológica justificar uma mudança na política. É importante que as crianças continuem a tomar as vacinas infantis recomendadas”, escreveu.

Soumya Swaminathan, cientista-chefe da OMS, disse em um vídeo publicado pela OMS em 11 de julho, que a vacinação de crianças não era prioridade no momento porque apesar de elas poderem se infectar ou transmitir a infecção, raramente desenvolviam a doença de forma grave, comparadas aos adultos.

“E por isso começamos a priorizar quem deve ser vacinado onde há suporte limitado de vacinas, nós recomendamos começar a vacinação com profissionais de saúde que estão em alto risco de exposição, idosos, imunossuprimidos, começar com estes grupos, protegê-los primeiro, porque queremos reduzir os óbitos no mundo até chegar nas crianças”, disse no episódio 42 da série “WHO´s Science in 5: vaccines and children”.

Em agosto, a diretora-geral assistente para medicamentos e vacinação da OMS, Mariângela Simão, recomendou a vacinação de adolescentes com comorbidades, mas continuou afirmando que faltavam dados sobre a segurança da vacinação nas crianças de 5 a 11 anos, em uma entrevista para Agência ONU.

“Qualquer estudo clínico para colocar um medicamento ou uma vacina no mercado, em geral não são feitos primeiro com criança, são feitos com adultos e com crianças, adolescentes ou mulheres grávidas. Tem que levar com cuidado, principalmente por questão de segurança. A relação de benefício em aplicar a vacina nas crianças ainda não está comprovada. Então você precisa ter mais dados, precisa ter mais estudos sobre a segurança dessas vacinas na faixa etária menor. Então vamos ter que esperar um pouco.”

O que a Ciência diz sobre vacinação contra Covid-19 em crianças?

Os estudos com crianças de 5 a 11 anos foram acelerados nos EUA, após um aumento significativo de infecções e internações por Covid-19 em crianças desta faixa etária no país.

Das 6,3 milhões de crianças americanas com teste positivo para Covid-19 desde o início da pandemia, quase um terço foi diagnosticado nas 11 semanas até 21 de outubro, de acordo com um relatório da Academia Americana de Pediatria.

Embora as evidências científicas mostram que o SARS-CoV-2 não seja tão letal em pessoas mais jovens quanto em pessoas mais velhas - cerca de 440 crianças de 5 a 18 anos morreram de Covid-19 nos Estados Unidos, em comparação com cerca de 724.000 em todas as faixas etárias, de acordo com o CDC.

O painel consultivo da FDA votou a favor da aprovação da vacina para crianças em 26 de outubro, com base em dados de ensaios clínicos que mostram que a vacina Pfizer - BioNTech é cerca de 91% eficaz na prevenção da infecção sintomática por SARS-CoV-2 em crianças de 5 a 11 anos.

Cerca de 4.650 crianças participaram do ensaio; quase dois terços receberam doses de vacina que eram um terço da vacina de um adulto (os outros receberam um placebo).

Em um procedimento semelhante ao usado para vacinar adultos com a vacina de RNA mensageiro nos Estados Unidos, as crianças receberam duas doses, com três semanas de intervalo. Para as crianças testadas, os dados mostraram que a vacina é segura, segundo o FDA.

As vacinas baseadas em mRNA foram associadas a um risco muito pequeno de miocardite, uma inflamação do músculo cardíaco e pericardite, uma inflamação do revestimento ao redor do coração, particularmente em homens jovens.

Mas não houve relatos de nenhuma dessas condições em crianças de 5 a 11 anos envolvidas no estudo, o que é um sinal muito encorajador, disse Andrew Pavia, chefe da divisão de doenças infecciosas pediátricas da University of Utah Health em Salt Lake City, para artigo publicado na revista Nature na sexta-feira (29).

“Se a injeção fosse distribuída para uma população maior, no entanto, os reguladores precisariam estar atentos a qualquer sinal dos efeitos colaterais”, observa Pavia.

Antes da reunião do painel consultivo, uma revisão independente da FDA dos dados da Pfizer avaliou seis cenários fictícios dos EUA, com níveis variáveis ​​de vírus na comunidade, e descobriu que, na maior parte, os benefícios da vacina “claramente superavam os riscos” nas crianças.

[A vacinação contra Covid-19] salvará vidas nessa faixa etária”, diz Emma McBryde, modeladora de doenças infecciosas do Instituto Australiano de Saúde e Medicina Tropical em Townsville para a Nature.

“Mas também poderia ter um impacto mais amplo, visto que muitas crianças americanas de 5 a 11 anos voltaram à escola não vacinadas nos últimos meses, e o grupo agora é responsável por uma parcela significativa de novos casos de COVID-19, capazes de transmitir o coronavírus SARS-CoV-2 para outros. Para cada vida de criança que você salva, você pode muito bem salvar muitas, muitas outras vidas adultas”, diz ela.