Onde estão líderes desaparecidos do Talibã? Grupo enfrenta rumores sobre 2 deles

Essas especulações ganharam tanta força, nos últimos dias, que os porta-vozes do Talibã tiveram que evitar perguntas sobre se uma das figuras mais proeminentes do grupo

Combatentes do Talibã exibem armas nas ruas de Cabul na quinta-feira (19), durante o "Dia da Independência do Afeganistão"
Combatentes do Talibã exibem armas nas ruas de Cabul na quinta-feira (19), durante o "Dia da Independência do Afeganistão" AP

Tim Listerda CNN

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Os líderes do Talibã são raramente vistos em público e não costumam conceder entrevistas. Muitos deles se movem nas sombras, com paradeiro desconhecido, o que, inevitavelmente, gera rumores sobre sua saúde e sobre possíveis desentendimentos internos.

Esses rumores ganharam tanta força, nos últimos dias, que os porta-vozes do Talibã tiveram que evitar perguntas sobre se uma das figuras mais proeminentes do grupo, Mullah Baradar, havia se ferido ou sido morto em uma disputa em Cabul na semana passada com a poderosa rede Haqqani, que detém posições-chave no governo interino.

Oficiais do Talibã disseram repetidamente que o líder supremo e chefe do movimento, Haibatullah Akhundzada, logo faria uma aparição pública. Isso não ocorreu, alimentando rumores de que ele pode estar doente ou mesmo morto.

Em outros países, um político sujeito a tais especulações convocaria uma coletiva de imprensa ou faria uma aparição na televisão para desfazer os rumores.

No caso de Baradar, uma gravação de áudio de 39 segundos, de qualidade modesta, foi divulgada na segunda-feira, com uma nota escrita à mão por seu assistente.

Nenhum vídeo ou imagem do líder. Baradar foi visto pela última vez em um hotel de Cabul, na primeira semana de setembro. Na gravação, ele supostamente diz.

“Eu tinha saído em uma viagem, e louvado seja Deus por estarmos todos bem. Algumas dessas redes de mídia contam essas mentiras vergonhosas. Rejeite essa conversa com coragem. Não há questões, sem problemas, louvado seja Deus. Estou assegurando-lhe 100%.”

Baradar é o chefe do escritório político do Talibã e liderou as negociações de Doha com o antigo governo do Afeganistão e os Estados Unidos.

Alguns esperavam que ele fosse nomeado primeiro-ministro, mas após prolongadas negociações sobre a forma do novo governo, ficou com o cargo de vice-primeiro-ministro.

Rumores de atritos internos foram alimentados pela ausência de Baradar da delegação que se encontrou com o ministro das Relações Exteriores do Catar, xeque Mohammed bin Abdulrahman Al-Thani, em Cabul, no domingo (12).

Funcionários do Talibã explicaram que ele não estava em Cabul, mas sim em Kandahar, base do líder supremo, Haibatullah Akhundzada.

A invisibilidade da liderança do Talibã não é um fenômeno novo. Esse não é um grupo que sente necessidade de se comunicar com o mundo exterior.

De muitas maneiras, o esforço de relações públicas do Talibã se tornou muito mais sofisticado nos últimos dois anos, com contas nas redes sociais em vários idiomas e porta-vozes como Zabihullah Mujahid dando entrevistas coletivas.

O grupo produziu um grande volume vídeos enquanto seus combatentes invadiam o país em agosto.

Mas essa estratégia de comunicação mais assertiva não se estende a líderes que passaram grande parte de suas vidas lutando na guerra de guerrilhas e, em alguns casos, anos na prisão. O Talibã continua sendo uma organização secreta.

Azaz Syed, jornalista paquistanês que faz reportagens sobre o grupo há anos, disse à CNN: “A maioria dos principais líderes do Talibã – particularmente da família Haqqani – evitam exposição pública, pois estão convencidos de que sua identidade ajudaria o inimigo a ‘atingi-los.”

Parece que os velhos hábitos são difíceis de morrer.

Não há melhor exemplo da atitude do Talibã em relação à publicidade e transparência do que as circunstâncias da morte por tuberculose de seu cofundador e primeiro líder, Mullah Omar.

Ele morreu em 2013, mas o grupo só divulgou o ocorrido dois anos depois. Isso, por si só, era uma indicação das profundas divisões no grupo, especialmente em relação às negociações de paz, às quais muitos dos comandantes militares do Talibã resistiram.

As divisões eram tão agudas que alguns comandantes deixaram o grupo para se juntar à afiliada emergente do ISIS no Afeganistão.

O atual líder supremo, Haibatullah Akhundzada, foi eleito em 2016 em uma reunião turbulenta do Conselho de liderança, ou shura, na cidade paquistanesa de Quetta – a sede do Talibã no exílio.

Ele não fez uma aparição pública nos cinco anos desde então. Durante grande parte de 2020, nem uma única declaração surgiu em seu nome. Um alto funcionário do Taleban Moulawi Muhammad Ali Jan Ahmed disse ao Foreign Policy, no ano passado, que Akhundzada havia sido atacado pelo coronavírus, que afetou muitos altos funcionários do Talibã.

A estrutura de poder do Talibã / CNN

“Nosso líder está doente, mas está se recuperando”, disse Ahmed ao Foreign Policy em uma entrevista em junho de 2020.

Outras fontes do grupo disseram ao Foreign Policy que pensavam que Akhundzada havia morrido de Covid-19.

Desde que o Talibã assumiu o poder em Cabul, apenas uma declaração foi emitida em nome de Akhundzada, na qual ele dizia: “Garanto a todos os compatriotas que as figuras [ministros no governo do Talibã] trabalharão arduamente para manter as regras islâmicas e Lei da Sharia no país. ”

Se houverem sérias divisões na liderança do Talibã hoje, elas podem ter suas raízes na shura de 2016.

Foi alcançado um acordo para manter o grupo unido, com dois deputados nomeados: Mullah Yaqoob, filho do primeiro líder do Talibã, Mullah Omar; e Sirajuddin Haqqani, líder da rede Haqqani.

Ambos estão no novo governo, como ministros da Defesa e do Interior, respectivamente. Pouco foi visto de qualquer um dos dois, apesar de sua importância em manter as principais frentes de segurança.

No entanto, o tio de Sirajuddin, Khalil, nomeado ministro dos refugiados, tem sido visto falando em reuniões tribais e até mesmo concedendo entrevistas a jornalistas estrangeiros selecionados.

Azaz Syed, do GeoNews, encontrou-se com ele em Cabul no mês passado.

“Entre os Haqqanis, Khalil Haqqani é de fato mais visível nas reuniões sociais”, disse Syed. “No entanto, ele também é muito cuidadoso com sua segurança – sempre que se move na cidade, um motorista e seguranças da Brigada Especial 313 lhe dão segurança”.

A proteção talvez não seja surpreendente, já que existe uma recompensa de US$ 5 milhões por sua cabeça, cortesia do governo dos Estados Unidos, enquanto a localização de seu sobrinho Sirajuddin vale US $ 10 milhões para os norte-americanos.

Nessa atmosfera febril, tudo o que surgir sobre uma disputa ou confronto entre elementos rivais será em sussurros cuidadosamente formulados. As maquinações internas e a tomada de decisões do Talibã dão uma nova definição à palavra opaco.

(Texto traduzido. Clique aqui para acessar o original em inglês)

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