Para liderar mercado de carbono, país tem de zerar desmatamento, diz economista

Para o ex-diretor de Políticas Ambientais do Ministério do Meio Ambiente, o país deve também ter transparência no cumprimento das metas anunciadas

Área desmatada na região amazônica, no Para
Área desmatada na região amazônica, no Para Foto: Ueslei Marcelino - 11.nov.2016/Reuters

Adriana Freitasda CNN

na Escócia

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A COP26 entrou na semana decisiva, e o maior desafio é regular o mercado internacional de carbono com a definição do texto final do artigo 6 do Acordo de Paris. De acordo com o economista Ronaldo Seroa, ex-diretor de Políticas Ambientais do Ministério do Meio Ambiente, que veio à Conferência do Clima, o Brasil pode liderar esse comércio, mas precisa de fato acabar o desmatamento ilegal.

“O país tem possiblidade de gerar excedente de créditos em grande escala e custos baixos. Mas é importante ter um acompanhamento com transparência dessas metas de emissões de carbono para o artigo 6 funcionar mesmo. O Brasil já domina o mercado de energia limpa, e só em reserva florestal domina 50% desse mercado. Por isso, deveria estar pensando grande e parar de pensar em receber poupanças”, disse.

Seroa enfatiza ainda que, após a regulamentação do mercado internacional, o Brasil precisa criar seu próprio mecanismo de governança climática. “A cada ano, é necessário fechar uma contabilidade e ter transparência. Não se pode sair vendendo qualquer coisa como no mercado voluntário. Temos que nos preparar para o mundo de carbono neutro, não apenas de baixo carbono. É possível fazer muito dinheiro ao se tornar uma economia de carbono neutro, mas é necessário credibilidade e cumprir as metas anunciadas”.

Semana passada, o governo brasileiro apresentou uma nova meta de redução de 50% das emissões dos gases associados ao efeito estufa até 2030 e a neutralização das emissões de carbono até 2050.

De acordo com os negociadores da COP 26, acertar as regras do mercado de carbono é de grande importância para combater as mudanças climáticas. Dependendo de como elas fiquem estruturadas, o artigo 6 pode tanto ajudar o mundo a evitar níveis perigosos de aquecimento global ou, ao contrário, deixar os países sem cobranças sobre cortes significativos nas emissões.

De maneira geral, os mercados de carbono internacionais funcionarão assim: os países com dificuldades de cumprir as metas de redução de emissões dentro dos planos climáticos nacionais (as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas ou NDCs), ou que desejam buscar reduções menos caras, podem comprar créditos (ou reduções) de outras nações que cortaram além do prometido, por meio da transição para energias renováveis ou reflorestamento, por exemplo.

“Essa compra (ou financiamento) precisa diminuir as emissões em nível mundial para evitar as mudanças climáticas catastróficas. Não apenas funcionar como um mercado, é fundamental ajudar de fato no aumento de ambição de metas globalmente”, finalizou.

A agenda da Conferência ficou pautada nesta segunda-feira na necessidade de pressionar as nações mais ricas para cumprirem a promessa de apoiar com US $ 100 bilhões anuais os países em desenvolvimento em ações de mitigação e adaptação ao clima. Esse dinheiro deveria estabelecer um fluxo constante de recursos através do Fundo Verde, o que não está sendo cumprido integralmente.

No primeiro dia útil da semana, na COP 26, foi divulgado também o projeto AmazonFACE – o maior laboratório ao ar livre do mundo sobre ciência climática. Fruto da parceria científica entre Brasil e Reino Unido, é um experimento inovador para entender como a Floresta Amazônica poderá responder às mudanças climáticas previstas para os próximos anos.

Estoques de dióxido de carbono serão bombeados em pequenas áreas de floresta para simular a resposta dela às mudanças climáticas.

Os dados coletados vão ajudar a avançar nos modelos de projeção climática. A partir daí, os cientistas serão capazes de avaliar os cenários futuros de emissões de carbono dentro das florestas.

A agenda ficou pauta no primeiro dia útil da semana na necessidade de pressionar as nações mais ricas para cumprirem a promessa de apoiar com US $ 100 bilhões anuais os países em desenvolvimento em ações de mitigação e adaptação ao clima. Esse dinheiro deve estabelecer um fluxo constante de recursos através do Fundo Verde, o que não está sendo cumprido integralmente.

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