Pedro Castillo é declarado presidente eleito do Peru um mês após eleições

Eleições aconteceram em 6 de junho, mas ações judiciais e pedidos de impugnação atrasaram anúncio de vencedor

Gregory Prudenciano, da CNN, em São Paulo

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Nesta segunda-feira (19), o socialista Pedro Castillo foi oficialmente declarado presidente eleito do Peru, um mês e meio após as eleições ocorridas no dia 6 de junho. A decisão foi confirmada pelo Júri Nacional de Eleições (JNE), principal corte eleitoral do país sul-americano. 

A cerimônia de posse de Castillo está marcada para ocorrer no dia 28 de julho, quando o atual presidente interino, Francisco Sagasti, deixará o poder. 

As apurações das urnas se estenderam por vários dias depois do pleito, mas com a contagem finalizada, Castillo ficou à frente da candidata da direita Keiko Fujimori por somente 44 mil votos. Keiko é filha de Alberto Fujimori, que assumiu a presidência em 1990, mas governou como ditador entre 1992 e 2000, período em que o Congresso foi fechado. 

Com o resultado, Keiko Fujimori chegou a sua terceira derrota no segundo turno. 

Quem é Pedro Castillo

Pedro Castillo Terrones, de 51 anos, nasceu na região de Cajamarca e é professor. O símbolo do partido Peru Livre, o qual é filiado, é um lápis. Tem mestrado em psicologia educacional e desde 1995 leciona na província de Chota, em Cajamarca. 

Até 2017, fez parte do partido Peru Possível, fundado pelo ex-presidente Alejandro Toledo, que é prisioneiro nos Estados Unidos por uma ordem de extradição, após o judiciário do Peru ordenar, em 2017, prisão preventiva por suposto envolvimento em subornos com a Odebrecht. Acusações que foram negadas pelo ex-presidente. 

Como sindicalista, Castillo foi um dos líderes em uma greve de professores durante o governo de Pedro Pablo Kuczynski. Castillo foi acusado de ser aliado de membros da polêmica organização Movadef, indicada pela polícia como braço político do grupo de guerrilha peruano, algo que eles negam. Pedro Castillo negou fazer parte do Movadef. 

Castillo é definido como um lutador social e diz que terminará os conflitos sociais. Segundo Vladmir Cerrón, secretário-geral do partido Peru Livre, representa a posição mais antiga da esquerda peruana. 

A parte econômica de seu plano de governo defende que seus parâmetros foram retirados da experiência governamental da República plurinacional da Bolívia e da República do Equador. 

Ele diz que prosseguirá com a nacionalização dos setores de mineração, hidroenergia, comunicações entre outros. Caso, não se aceite novas condições de negociação.

Eleição de 2021

Realizadas no dia 6 de junho, as eleições presidenciais do Peru aconteceram sem maiores incidentes. Ainda assim, a contagem dos votos e a validação das urnas se arrastou por dias, em meio a trocas de acusações entre Keiko Fujimori e Pedro Castillo. 

O Força Popular, partido de Keiko, contestou o resultado em seções eleitorais nas quais a candidata da direita não recebeu nenhum voto. Ao todo, a legenda apresentou 1.088 pedidos de impugnação de atas eleitorais, para tentar anular os votos recebidos por Castillo nas regiões rurais do país, onde o esquerdista venceu por ampla maioria. 

Parte dos processos subiu até o JNE, mas um dos quatro juízes da corte, Luis Arce, renunciou ao cargo 10 dias depois de os primeiros recursos do Força Popular terem sido negados pelo tribunal eleitoral. Nesses casos, Arce foi o único a votar pela procedência dos processos.

A saída de Arce impediu que a vitória de Castillo fosse proclamada pela corte, o que só foi possível depois que seu substituto, Raúl Rodríguez Monteza, assumiu o cargo e declarou seu voto. 

Estratégia de Keiko Fujimori

Para tentar impedir a terceira derrota no segundo turno, Keiko moderou seu discurso e tratou de ampliar sua aliança política.

Em parte, funcionou: figura de destaque no Peru e representante mundialmente conhecido do liberalismo, o escritor Mario Vargas Llosa, vencedor de um Nobel de Literatura e crítico histórico do fujimorismo acabou apoiando a candidatura de Keiko, cujo pai competiu ele pela presidência nos anos 1990. 

Em sua estratégia eleitoral, Keiko tentou fixar em Castillo as imagens dos governos da Venezuela e de Cuba, aliados de Vladimir Cerrón, secretário-geral do partido Peru Livre, pelo qual Castillo concorreu. 

Filha de Alberto Fujimori, Keiko concorreu às eleições presidenciais do Peru em
Filha de Alberto Fujimori, Keiko concorreu às eleições presidenciais do Peru em 2021 pelo partido Força Popular
Foto: Sebastian Castañeda/Getty Images

Situação do Peru

Pedro Castillo herdará um país muito afetado pela pandemia da Covid-19. A taxa de mortes por milhão de habitantes no Peru por conta da doença é a mais alta do mundo, com 5.860, mais que o dobro da taxa do Brasil, que é de 2.507 mortes por milhão, considerando os números compilados pelo site Our World in Data, ligado à Universidade de Oxford, no Reino Unido. Os dados consideram números coletados até domingo (11).

Em 2020, a pandemia levou o Produto Interno Bruto (PIB) do Peru a um recuo de 11,1%, segundo cálculos do Banco Mundial. 

Politicamente, o país latino-americano também sofre as consequências de sucessivos escândalos de corrupção de seus ex-presidentes. Todos os eleitos desde o fim do regime militar, em 1980, enfrentaram processos judiciais, incluindo Alberto Fujimori, que também foi condenado por violações de direitos humanos. 

O candidato à presidência do Peru, Pedro Castillo
O presidente eleito do Peru, Pedro Castillo
Foto: Sebastian Castañeda/Getty Images

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