Percepção do americano sobre guerra afetou ações de Trump, diz professor
Segundo Fernando Brancoli, mais de 80% dos americanos são contra o conflito, o que cria cenário desfavorável com as midterms se aproximando
A percepção da população norte-americana sobre a guerra no Irã tem influenciado diretamente a postura do presidente Donald Trump diante do conflito no Oriente Médio. É o que avalia Fernando Brancoli, professor de Relações Internacionais da UFRJ, em entrevista ao CNN Prime Time.
Segundo ele, pesquisas de opinião recentes indicam que mais de 80% dos americanos são contrários à guerra do Irã, o que cria um cenário politicamente desfavorável para o republicano.
O especialista ressaltou que o conflito já começa a impactar a economia dos Estados Unidos, com alta no preço do diesel e perspectivas de aumento da inflação e dos alimentos.
"No final do ano tem eleição aqui nos Estados Unidos para a chamada midterm election, e os próprios republicanos estão com receio de que isso vai transbordar de alguma maneira para o processo eleitoral", afirmou Brancoli.
Declarações de Trump geram desconfiança
Brancoli também comentou sobre as seguidas declarações de Trump afirmando estar próximo de um acordo com o Irã — contabilizadas em mais de 37 ocasiões, segundo levantamento da própria CNN.
Para o especialista, as afirmações variam por horas ou até minutos, o que dificulta identificar uma política coerente dos Estados Unidos em relação ao Irã. "O Irã vem afirmando que não tem, nesse momento, uma negociação chegando a um final", destacou.
"Me parece um pouco o Trump tentando criar uma agenda positiva", acrescentou, lembrando que a expectativa inicial era de que a guerra durasse duas ou três semanas, mas o conflito já se estende por meses, com o Estreito de Ormuz ainda fechado.
Irã demonstra resiliência inesperada
Na avaliação de Brancoli, do ponto de vista humanitário, a guerra é um desastre, com mortes de civis apanhados no fogo cruzado. Além disso, o especialista destacou que o Irã demonstrou uma resiliência muito além do esperado.
"Todas as expectativas dos Estados Unidos numa guerra contra o Irã eram de que essa guerra duraria semanas", disse. "O Irã demonstrou uma capacidade de responder aos ataques de maneira bastante potente".
O professor mencionou ainda que, mesmo após a morte de sua liderança máxima em um ataque, o regime iraniano não colapsou, não houve revoltas nas ruas e o governo se manteve coeso.
"O Irã sai dessa guerra conseguindo mandar uma mensagem de que é um país resistente, de que é um país que consegue negociar", concluiu.
Israel e a complexidade das negociações
Outro ponto abordado por Brancoli foi o papel de Israel no processo de negociação.Segundo ele, uma das questões mais complexas em rodadas anteriores de negociação era justamente a situação do Hezbollah ao sul do Líbano.
Israel argumentava que eventuais ataques ao grupo não fariam parte de um possível cessar-fogo entre Irã, Israel e Estados Unidos.
O Irã, por sua vez, exige que qualquer acordo envolva necessariamente o Líbano.
"A guerra entre Israel, o Irã e os Estados Unidos envolve também gente no Líbano, no Iêmen, aliados dos norte-americanos na Jordânia, na Arábia Saudita", enumerou o especialista, ressaltando a grande quantidade de atores envolvidos no conflito.
Para Brancoli, essa complexidade torna a paz ainda distante: "Pode ser que a gente anuncie nas próximas horas o início de um acordo entre o Irã e os Estados Unidos para, horas depois, Israel atacar o Hezbollah e o acordo voltar atrás."
China adota postura ambígua diante do conflito
Ao analisar o papel da China no contexto geopolítico, Brancoli descreveu o impacto sobre Pequim como ambíguo. Por um lado, a China havia se beneficiado da compra de petróleo iraniano com grandes descontos, em razão das sanções norte-americanas ao Irã.
Com o fechamento do Estreito de Ormuz, essas relações econômicas se reduziram consideravelmente.
Por outro lado, o especialista citou um velho adágio geopolítico: "Você não deve interromper quando o seu inimigo está fazendo um erro."
Brancoli apontou ainda que a duração prolongada da guerra levou os Estados Unidos a retirar tropas e material bélico da Coreia do Sul, o que beneficiou indiretamente a China.
Houve também indícios, segundo ele, de compartilhamento de imagens de satélites chinesas com os iranianos durante o conflito.


