Pessoas sem pátria e terra: a crise mundial de migrantes e refugiados em 2021

Cenários políticos e humanitários conturbados fizeram com que milhões de pessoas saíssem de seus países em busca de melhores condições de vida

Fronteira de Belarus com a Polônia
Fronteira de Belarus com a Polônia Foto: Reuters

Da CNN em Espanhol

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Das multidões sob uma ponte na fronteira dos Estados Unidos com o México e venezuelanos caminhando pela América Latina aos campos de migrantes na Belarus e os esforços para realocar milhares de afegãos após o fim de uma guerra de 20 anos, 2021 foi um ano marcado por crises migratórias.

De acordo com o “World Migration Report 2022” da Organização Internacional para as Migrações (OIM), em 2020 havia cerca de 281 milhões de migrantes internacionais.

No entanto, nos últimos dois anos, ocorreram eventos significativos de migração e deslocamento devido a conflitos ou séria instabilidade econômica e política de diversos países. A Organização das Nações Unidas (ONU) também destaca o deslocamento causado por desastres climáticos.

Em 2020, 89,4 milhões de pessoas viviam deslocadas, estimou o OIM.

A Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), por sua vez, informou em meados de 2021 que em decorrência de conflitos, violência, violações dos direitos humanos, perseguições e desastres naturais, o número de deslocamentos forçados em todo o mundo ultrapassou 84 milhões de pessoas.

De acordo com a ACNUR, mais de 68% dos refugiados e pessoas deslocadas em todo o mundo vêm de apenas cinco países:

Síria: 6,8 milhões
Venezuela: 4,1 milhões
Afeganistão: 2,6 milhões
Sudão do Sul: 2,3 milhões
Mianmar: 1,1 milhão

Embora em 2020 a situação para refugiados e pessoas deslocadas fosse mais difícil, com um grande número de países fechando as fronteiras devido à pandemia de Covid-19, o acesso ao asilo humanitário salvou e continua salvando a vida de muitos.

No entanto, as políticas de saúde pública – como o “Título 42″ nos EUA – continuam a limitar o acesso ao asilo, de acordo com o relatório da ACNUR.

No que diz respeito à migração no Caribe, nos últimos anos aumentou a presença de pessoas da República Dominicana, Haiti e Cuba.

De acordo com o portal de dados da OIM, algumas dessas pessoas “transitam da Colômbia para o Panamá através da selva de Darien a caminho dos Estados Unidos e Canadá”.

“Mais de 100 mil migrantes até agora, em 2021, cruzaram irregularmente a perigosa selva de Darien Gap para o Panamá, vindos da Colômbia, depois de caminhar por vários países da América do Sul, disse a OIM em comunicado.

“O número nos primeiros nove meses de 2021 triplica o recorde anterior de 30 mil pessoas na mesma rota ao longo de 2016. Do Panamá, os migrantes continuam para o norte em uma jornada que é particularmente perigosa para mulheres e crianças “, completou a organização.

A UNICEF relatou com preocupação que quase 19 mil crianças migrantes cruzaram a região de Darien a pé em 2021.

Só no continente americano, o OIM registrou 1.121 mortes, incluindo as vítimas do acidente de trânsito em Chiapas, no México, que matou pelo menos 55 migrantes em dezembro.

As mortes na América do Sul também bateram recorde, com 137 mortes, 64 delas de cidadãos venezuelanos.

No final de 2021, o número de mortes de migrantes em todo o mundo ultrapassou 4.470.

A seguir, um panorama dos cinco principais focos da crise global de migração que marcou 2021.

Os milhões de deslocados na Venezuela

A Venezuela é uma das maiores crises de deslocamento do mundo. Em meados de 2021, um total de 5,1 milhões de venezuelanos deixaram o país. Isso inclui 186.800 refugiados, 952.300 pessoas que procuram asilo e 3,9 milhões que foram deslocadas para o exterior, de acordo com a ACNUR.

As razões? Segundo as Nações Unidas, as pessoas continuam deixando a Venezuela para escapar da violência, da insegurança e da falta de remédios e serviços básicos.

A Venezuela é o segundo país, depois do Haiti, com o maior índice de desnutrição, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

Imigrantes venezuelanos cruzam a pé a fronteira entre Venezuela e Brasil
Imigrantes venezuelanos cruzam a pé a fronteira entre Venezuela e Brasil, próximo ao município de Pacaraima, em Roraima. / Foto: Wherter Santana/AE (19.abr.2018)

Atualmente, mais de 5 milhões de venezuelanos vivem no exterior, muitos deles em países vizinhos, como Colômbia, Peru, Equador e Chile.

No entanto, “centenas de milhares de venezuelanos permanecem sem qualquer tipo de documentação ou permissão para permanecer regularmente nos países vizinhos e, portanto, não têm acesso garantido aos direitos básicos”, segundo a ACNUR.

A agência indica que a falta de documentos e licenças adequadas tornam esta população mais vulnerável à exploração do trabalho e sexual, tráfico, violência, discriminação e xenofobia.

Mais um ano difícil na fronteira sul dos Estados Unidos

Este ano, pelo menos 651 pessoas morreram tentando cruzar a fronteira EUA/México, mais do que em qualquer outro ano desde que um organismo internacional começou a documentar as mortes em 2014.

E, embora a OIM não tenha especificado o motivo das mortes, a travessia da fronteira sul dos Estados Unidos costuma ser uma jornada perigosa, que resultou em mortes e resgates ao longo dos anos.

A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP) disse anteriormente que a maioria dos óbitos de migrantes na fronteira está relacionada à exposição ao calor.

Por outro lado, a Patrulha de Fronteira dos EUA relatou quase 1,66 milhão de detenções por travessias ilegais da fronteira com o México no ano passado, o maior número anual de prisões já registrado, segundo dados divulgados pela agência na sexta-feira (17).

Desde que assumiu o cargo, o governo Joe Biden tem lutado para administrar o número sem precedentes de migrantes que cruzam os EUA, enfrentando desde o início um fluxo de crianças que sobrecarregou os recursos e, mais recentemente, milhares de migrantes que chegam em questão de dias ao país na despreparada região de Del Rio, no Texas.

Desde março de 2020, a CBP tem cumprido uma ordem de saúde pública conhecida como “Título 42”, que, com base em critérios de prevenção de saúde, permite a rápida expulsão de migrantes, à qual tem sido associada um aumento no número de pessoas que cruzaram repetidamente a fronteira e um elevado número de detenções.

Da mesma forma, após uma decisão judicial controversa de estados onde os republicanos governam, a administração Biden foi forçada a restabelecer o programa “Permanecer no México” ou “Remain in Mexico”, que obriga os migrantes de diferentes nacionalidades a permanecer no país enquanto resolvem os pedidos de asilo.

Defensores dos direitos dos imigrantes e alguns legisladores criticaram Biden por manter a política de pandemia da era Trump, chamando-a de violação dos direitos humanos.

O secretário de Segurança Nacional, Alejandro Mayorkas, afirmou que o governo mantém sua posição contra “Permanecer no México”. O caso ainda está pendente no Tribunal de Justiça, onde o governo defende a decisão de encerrar o programa.

Haiti à deriva

Este ano, o Haiti sofreu o assassinato do presidente Jovenel Moïse, um terremoto devastador e a passagem da tempestade tropical Grace, que gerou incertezas em um país onde a pobreza e a violência persistem.

De acordo com a ONU, em meados de 2020 havia 1.769.671 haitianos em outros países.

Em 2020, os Estados Unidos abrigavam a maior população de migrantes haitianos do mundo, de acordo com o Migration Policy Institute (MPI). Um número significativo de haitianos também vive na República Dominicana (496 mil), Chile (237 mil), Canadá (101 mil) e França (85 mil).

E embora este ano tenha registrado um grande fluxo de imigrantes haitianos, o MPI indica que esse grupo não estava exatamente escapando dos recentes acontecimentos no país, mas que faz parte de uma geração de haitianos que emigraram desde o terremoto de 2010.

Pessoas olham o corpo de uma pessoa nos escombros depois de um terremoto em Les Cayes, no Haiti / 15/08/2021 REUTERS/Estailove St-Val

O custo econômico da pandemia na região impulsionou ainda mais a migração para a fronteira sul dos Estados Unidos.

Um dos motivos pelos quais os haitianos se mudaram para a fronteira com os Estados Unidos tem a ver com o anúncio, em maio, de um status de proteção temporária de 18 meses.

O Secretário de Segurança Interna citou “preocupações de segurança, agitação social, um aumento nos abusos dos direitos humanos, pobreza mutiladora e falta de recursos básicos, que são exacerbados pela pandemia covid-19”.

Mais de 97% dos haitianos que migram para os Estados Unidos não vêm diretamente do Haiti, mas residiam em países da América do Sul, como Chile e Brasil, segundo o governo do Panamá.

Mais de 70 mil migrantes chegaram ao Panamá em 2021, mais de 30 mil dos quais são do Haiti.

A violência irrompe na fronteira entre a Polônia e a Belarus

A União Europeia (UE) culpou a Belarus a de fabricar a crise na fronteira oriental do bloco, alegando que o governo abriu portas para pessoas desesperadas para fugir de uma região assolada pelo desemprego e instabilidade.

Autoridades da UE a chamaram de “guerra híbrida”, destinada, dizem, a punir a Polônia por abrigar oponentes políticos do presidente e pressionar o bloco a suspender as sanções contra Belarus. Mas teve o efeito oposto.

A deterioração das condições na fronteira oriental da União Europeia ressalta o terrível custo humano do impasse geopolítico que está ocorrendo entre a Belarus, aliada da Rússia, a OTAN e a Polônia, membro do bloco. Nenhum dos lados está disposto a ceder, deixando os imigrantes presos no meio.

A Polônia está sob a mira de organizações de ajuda internacional, que dizem estar violando o direito internacional ao empurrar quem pede asilo de volta para a Belarus, em vez de aceitar os pedidos de proteção internacional. A Polônia defende suas ações, dizendo que elas são legais.

Migrantes tentam se aproximar de caminhão durante distribuição de ajuda humanitária na fronteira entre Belarus e Polônia
União Europeia acusa Belarus de fabricar crise em fronteira / Nasibulin/BelTA/Divulgação via REUTERS

A Organização das Nações Unidas estima que haja até 2 mil migrantes e refugiados na fronteira com a Polônia, a maioria deles curdos, vindos do Iraque, mas também sírios, iranianos e afegãos, entre outros. A ONU também estima que haja aproximadamente 7 mil migrantes e refugiados atualmente na Belarus.

Recentemente, os Estados Unidos, o Reino Unido, a União Europeia e o Canadá tomaram medidas coordenadas contra várias entidades e indivíduos bielorrussos em seu último esforço para pressionar o líder bielorrusso Alexander Lukashenko em resposta à crise migratória.

Em uma declaração conjunta, estes países exigiram que Lukashenko “imediatamente e completamente pare de orquestrar a migração irregular através de suas fronteiras para a UE”.

“Aqueles, na Belarus ou em outros países que facilitam a passagem ilegal das fronteiras externas da UE devem saber que isso tem um custo substancial”, complementaram as nações.

O ministro das Relações Exteriores da Belarus, Vladimir Makei, falando na reunião ministerial da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) em Estocolmo, disse que a Belarus foi “punida” com sanções “apenas porque revelamos o” lado obscuro “da democracia europeia” .

Afeganistão após o fim de uma guerra de 20 anos

Mesmo antes de o Talibã recuperar o poder no Afeganistão, a pobreza e a insegurança alimentar eram generalizadas, devido a secas consecutivas, declínio econômico, conflito prolongado e a pandemia. No entanto, a crise piorou rapidamente.

Atualmente, cerca de 6 milhões de afegãos foram deslocados de suas casas e de seu país devido aos conflitos, violência e pobreza, de acordo com as Nações Unidas. O porta-voz da ACNUR, Babar Baloch, disse no início de dezembro que cerca de 3,5 milhões de afegãos foram deslocados à força, incluindo quase 700 mil que foram deslocados este ano.

Os refugiados afegãos são a terceira população mais deslocada do mundo, depois dos refugiados sírios e venezuelanos.

Este ano, o governo do Talibã enfrentou uma crise econômica depois que bilhões de dólares em ajuda externa foram bloqueados, privando o país do dinheiro que alimentava a economia, serviços básicos e trabalhos humanitários.

As Nações Unidas afirmam que a crise humanitária no Afeganistão pode ser “a pior do mundo”, com mais da metade de sua população passando fome.

Miséria aumentou no Afeganistão com tomada do poder pelo Talibã
Miséria aumentou no Afeganistão com tomada do poder pelo Talibã (13.set.2021) / Reprodução / CNN

“O Afeganistão está agora entre as piores crises humanitárias do mundo – senão a pior – e a segurança alimentar está praticamente em colapso”, disse David Beasley, diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos da ONU.

“Milhões de afegãos serão forçados a escolher entre emigração e fome, a menos que possamos aumentar nossa ajuda para salvar vidas e a menos que a economia possa ser reavivada “, acrescentou.

Em um comunicado à CNN, o Talibã reconheceu os “problemas econômicos” do país, mas negou veementemente que houvesse uma crise, chamando essas alegações de “notícias falsas”.

“Ninguém vai morrer de fome, porque não há fome, e as cidades estão cheias de comida”, disse o porta-voz do grupo, Zabihullah Mujahid, contradizendo imagens perturbadoras de crianças famintas.

Anna Coren, Jessie Yeung, Abdul Basir Bina, Jadyn Sham, Amir Vera, Carma Hassan, Sol Amaya, Priscilla Alvarez, Geneva Sands, Matthew Chance, Zahra Ullah, Antonia Mortensen, Eliza Mackintosh, da CNN, contribuíram para esta reportagem

Este conteúdo foi criado originalmente em espanhol.

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