Por que algumas pessoas voltam a ter COVID-19?
Cientistas sul-coreanos investigam 141 pacientes que voltaram a dar positivo para a doença; uma das hipóteses é a reativação do vírus que não estava curado

No final de fevereiro, médicos sul-coreanos começaram a notar algo estranho, em se tratando de coronavírus: depois de receber alta, alguns pacientes estavam testando positivo de novo da COVID-19. Isso não acontece com a Sars e a Mers, que também são coronavírus. Até quinta-feira, havia ocorrido com 141 pacientes na Coreia do Sul.
Não é um número enorme, no universo de mais de 7.500 que tiveram alta da doença. Mas é muito revelador, no momento em que os cientistas tentam compreender esse novo vírus, e o mundo, e certamente tanto você quanto eu, estamos nos perguntando quanto tempo vai durar isso, e se e quando a vida voltará ao “normal”.
Mais alguns dados, antes de entrar nas hipóteses dos especialistas: 55 dos 141 têm idade acima de 20 e abaixo de 40 anos. Mais da metade tem menos de 60 anos. Até agora, não há informação de que esses pacientes tenham voltado a ter os sintomas ou transmitido o vírus a outras pessoas. Se isso vier a acontecer, aí realmente vamos para um outro patamar de preocupações.
Depois de haver passado pelo pico, achatado a curva e diminuído os casos novos drasticamente (não é o caso do Brasil e dos Estados Unidos, bem entendido), vários governos, incluindo o da Coreia do Sul, estudam relaxar as medidas de isolamento e distanciamento social. Como levar esses planos adiante, se o vírus pode contaminar e adoecer de novo os curados?
As hipóteses de cientistas entrevistados pela agência Reuters e pelo jornal South China Morning Post vão de erros nos testes até reinfecção, passando pela reativação de uma doença que estava “escondida”, mas não curada.
Na Coreia do Sul, os pacientes da COVID-19 recebem alta depois de testarem negativo duas vezes no período de 48 horas. Os exames aplicados no país têm precisão de 95%. Até 5% podem dar falsos positivos e negativos.
Pode acontecer de o vírus continuar no sangue num nível muito baixo para ser detectado. O contrário também é verdadeiro: os testes podem ser tão sensíveis que estão detectando níveis inofensivos do vírus, dando positivo de novo em pacientes que efetivamente estão curados. Por fim, os resultados podem estar adulterados se a coleta não foi feita de forma adequada.
A reinfecção não é descartada pelos cientistas, mas eles a consideram muito improvável, considerando que ela não acontece nas outras formas conhecidas de coronavírus. Seria mais plausível, na visão deles, a reativação do vírus dentro do organismo do paciente.
A ciência já conhece casos de vírus que “hibernam" no paciente por um tempo prolongado, ou que permanecem ativos em algumas partes do corpo, e em outras, não. O ebola pode continuar sendo sexualmente transmitido mesmo depois da cura. O sarampo contraído na infância pode reaparecer na fase adulta na forma de herpes.
Segundo o infectologista Kim Woo-joo, do Hospital Universitário da Coreia, a grande preocupação dos cientistas diante da reinfecção dos pacientes é com a possibilidade de ele ser mutante. O médico observa que um quinto dos pacientes reinfectados "é saudável, com um bom sistema imunológico”.
“Os pesquisadores estão testando amostras de sangue para descobrir se os pacientes são reinfectados porque têm problemas no seu sistema imunológico ou se o vírus sofreu mutação para driblar o sistema de defesa do corpo”, explica o médico.
Para o infectologista americano William Schaffner, será particularmente preocupante se a reativação do vírus for acompanhada de sintomas. “Isso levanta a questão se os chamados tratamentos podem fazer o paciente se sentir melhor mas não são capazes de eliminar o vírus do corpo”, explicou Schaffner, professor da Escola de Medicina de Vanderbilt, em Nashville, Tennessee.
Ele observa que os médicos estão lidando com a fase aguda da doença mas ainda não fizeram o acompanhamento dos pacientes. Uma descoberta dessa natureza “mudaria radicalmente o que estamos fazendo”, acrescentou.
Segundo as autoridades sul-coreanas, os intervalos entre a alta e o novo teste positivo têm sido curtos. Isso indicaria que não se trata de reinfecção, afirma Ian Frazer, imunologista da Universidade de Queensland, na Austrália.
Por enquanto, há mais perguntas do que respostas. Mas ninguém discordaria do desabafo de Kwon Jun-wook, vice-diretor dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças da Coreia (KCDC): “Esse novo coronavírus parece ser muito mau e esperto”.