Professor avalia retomada dos ataques entre EUA e Irã: "Acordo era frágil"
Em entrevista ao Hora H, professor Carlos Gustavo Poggio avalia que acordo inicial era frágil e vê escalada gradual do conflito com pessimismo
O comando central dos Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira (8) a retomada de ataques contra o Irã após o fim do cessar-fogo entre os dois países. Na avaliação do professor de Relações Internacionais Carlos Gustavo Poggio, este cessar-fogo nunca ofereceu bases sólidas para uma paz duradoura.
"O que me surpreendia era o otimismo dos mercados com esses acordos, que claramente eram acordos muito frágeis. As condições estruturais não estavam dadas para este acordo", afirmou Paggio em entrevista ao Hora H desta quarta.
O professor destacou que Trump tende a operar predominantemente pela lógica econômica, desconsiderando os incentivos políticos e ideológicos internos do Irã.
"Quando a gente lida com país, é diferente de lidar com empresa, que é o tipo de negociação que o Donald Trump está acostumado", ressaltou o professor.
Na avaliação de Poggio, os Estados Unidos se encontram diante de um conjunto de alternativas igualmente desfavoráveis.
"Você continuar essa guerra, você aprofundar, não é uma opção boa para os Estados Unidos. Você parar a guerra e deixar o Irã com uma posição geopolítica muito mais forte do que tinha antes do início da guerra também não é uma boa opção", analisou.
Para o professor, essa situação deriva de uma "decisão equivocada, que não foi muito bem pensada, não foi muito bem planejada e não foi muito bem discutida com o público americano".
Europa sob múltiplas pressões
O professor também comentou sobre o cenário europeu, destacando que o continente enfrenta simultaneamente pressões geopolíticas, econômicas e energéticas.
Além da guerra na Ucrânia, países como a Alemanha atravessam dificuldades econômicas, e o conflito no Oriente Médio eleva os riscos relacionados ao preço do petróleo.
"Os europeus estão numa situação muito delicada, e essa situação delicada tem, em certa forma, incentivado os europeus a buscar uma nova saída estratégica", disse.
Poggio lembrou que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a Europa se acostumou a depender dos Estados Unidos como garantidor de sua segurança, o que está na base do acordo fundador da Otan, em 1949.
Agora, segundo ele, essa relação é colocada em xeque por declarações como a ameaça de Trump de cortar relações com a Espanha. "Algo absolutamente fora do normal", classificou Poggio.
Escalada gradual
A respeito de possíveis desdobramentos do conflito, Poggio traçou um paralelo com outros episódios da história norte-americana, como os conflitos com o Iraque e com o Vietnã.
"Presidentes americanos que iniciam uma guerra com bastante otimismo, achando que vai ser muito facilmente resolvido, dado o excedente de poder militar que eles têm, acabam se envolvendo em uma guerra muito mais longa do que a que anteciparam inicialmente", afirmou.
O professor concluiu observou que o cenário com o Irã apresenta "ingredientes para uma escalada gradual" do conflito, dada a imprevisibilidade dos posicionamentos de Trump.
"É um presidente que é incapaz de fazer qualquer tipo de acordo sem ir no dia seguinte na rede social dizer que ele está humilhando o seu adversário. Dadas essas condições, eu vejo a situação com bastante pessimismo", declarou Poggio.
O comunicado de anúncio da retomada dos ataques, divulgado pelas redes sociais, afirmou que as forças norte-americanas iniciaram "ataques adicionais contra o Irã para reduzir ainda mais a capacidade do país de ameaçar a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz".
Segundo o comunicado, "os Estados Unidos responsabilizam o Irã pela recente agressão injustificada contra navios comerciais e tripulações que navegavam livremente por uma via navegável internacional de importância vital".
Durante reunião da Otan, em Ancara, capital da Turquia, Trump confirmou que novos ataques seriam realizados. Autoridades iranianas responderam prontamente, prometendo ataques a bases norte-americanas.


