Professores indianos são enviados para linha de frente da Covid-19 sem proteção

Em 2020, pelo menos 28 mil professores foram designados para funções ligadas à Covid-19; ao menos 35 morreram

Com o avanço da pandemia, professores de Nova Delhi receberam tarefas como medir temperatura e verificar sintomas
Com o avanço da pandemia, professores de Nova Delhi receberam tarefas como medir temperatura e verificar sintomas Foto: Cortesia/Manu Gulati

Aditi Sangal, CNN

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Todas as manhãs, o professor Vikas Kumar envia videoaulas para seus alunos antes de ir para seu segundo emprego como trabalhador não treinado da linha de frente do coronavírus.

O rapaz de 27 anos normalmente ensina educação física, mas, como milhares de outros professores da rede pública de Nova Delhi, na Índia, ele foi destacado para trabalhar nos esforços da pandemia quando o vírus começou a se espalhar na Índia em março do ano passado.

Desde junho, Kumar desempenhou uma série de funções ao lado de suas obrigações de ensino. Primeiro, ele conta que distribuiu cestas de alimentos para os pobres, depois foi designado para conduzir pesquisas de porta em porta com vizinhos de casos confirmados de Covid-19. Nessa função, que envolvia medir a temperatura dos moradores, Kumar diz que contraiu o vírus e ficou doente por 17 dias em julho.

Em 2020, pelo menos 28 mil professores foram designados para funções ligadas à Covid-19, de acordo com duas associações de professores em Nova Delhi. Segundo eles, pelo menos 35 professores morreram de Covid-19 durante a pandemia e centenas mais adoeceram. A CNN entrou em contato com o Ministério da Saúde de Delhi para verificar esses números e não obteve resposta.

Vários professores na capital indiana disseram à CNN que não receberam nenhum treinamento e estão fazendo malabarismos com seus deveres de coronavírus e as funções normais de ensino. Aqueles que trabalham para as redes municipais dizem que não receberam equipamento de proteção individual (EPI) suficiente para protegê-los do vírus. Outros dizem que não recebem seus salários normais há meses.

Professores de escolas públicas indianas realizaram questionários em Nova Delhi,
Professores de escolas públicas indianas realizaram questionários em Nova Delhi, como parte de suas funções durante a pandemia
Foto: Manish Swarup/AP

“O governo central está dizendo à nação para tomar precauções de saúde e segurança, mas aqui, as Corporações Municipais de Delhi (DMCs) estão nos dizendo para nos expormos ao vírus todos os dias”, lamentou Vibha Singh, vice-presidente sênior do Nagar Nigam Shikshak Sangh (NNSS), um sindicato que representa cerca de 20 mil professores em escolas municipais.

Os professores que não se apresentarem para suas funções podem ser ameaçados com ações sob a Lei de Gerenciamento de Desastres de Delhi, de acordo com Sant Ram, um membro da associação de professores da rede pública, conhecida pela sigla GSTA. As primeiras ordens sob a lei foram feitas em março, quando o coronavírus se espalhou pelo país.

Desde então, mais de 10 mil pessoas morreram em Nova Delhi, sendo mais de 150 mil mortes em todo o país. A Índia perde apenas para os Estados Unidos em casos confirmados, com mais de 10,4 milhões, de acordo com a contagem global da Universidade John Hopkins.

Fechamento das escolas

Quando o vírus começou a se espalhar pela Índia em março, o governo central ordenou uma contenção nacional de instituições que obrigou as escolas a fecharem. Nas principais metrópoles, incluindo Nova Delhi, elas continuam fechadas desde então.

O ensino passou para a internet e as autoridades estaduais e locais da capital designaram professores para tarefas alternativas para ajudar a executar os esforços do governo para combater o vírus.

Quando algumas escolas foram transformadas em centros de combate à fome, Alka Sharma, Comissário Adicional do DMC Leste, uma autoridade administrativa do distrito, disse que envolver os professores no trabalho “fazia sentido”.

No entanto, desde então, os professores foram convocados para uma variedade mais ampla de tarefas pandêmicas. Alguns foram encarregados de emitir multas ao público por desobedecer à ordem de usar máscara, outros para facilitar a triagem de passageiros que chegavam no aeroporto internacional de Delhi e alguns para conduzir pesquisas de porta em porta para ajudar a identificar casos de Covid-19.

Muitas dessas funções eram projetos de curto prazo, mas muitos professores, incluindo Kumar, foram transferidos de uma função para outra.

Kumar disse que, depois de passar dez dias distribuindo alimentos, foi transferido e convidado a bater nas portas de 50 casas ao redor de casos confirmados de Covid.

Ele disse que anotou os nomes, idades, histórico de viagens, comorbidades e quaisquer sintomas de coronavírus das pessoas em cada família. Embora tenha recebido uma máscara, álcool em gel e uma cobertura para a cabeça, ele disse que não recebeu nenhum treinamento.

“Seria melhor se tivessem treinado a gente. Recebemos oxímetros e termômetros sem contato, mas nem todo mundo sabe como usá-los”, contou Kumar. “Precisamos de treinamento para saber até onde devemos ir, como manter a segurança das pessoas e a nossa.”

“Devíamos ser informados sobre como fazer perguntas melhores (na pesquisa). É muito difícil lidar com as pessoas e suas reações. Assim, o treinamento pode facilitar e melhorar o nosso trabalho”, acrescentou.

O diretor de Educação de Delhi, Udit Prakash Rai, e os diretores de Educação de todas as três zonas escolares do DMC (Leste, Norte e Sul) não responderam aos pedidos de comentários sobre as alegações de que os professores não receberam treinamento ou EPI suficientes.

Sharma, o comissário adicional do DMC Leste, diz que os professores podem solicitar uma isenção das obrigações da Covid-19 e as inscrições são consideradas caso a caso.

Meses sem pagamento

Sarita Yadav, 38 anos, professora primária no DMC Norte, disse que foi chamada para distribuir alimentos em maio e junho, mas não recebeu nenhum treinamento ou EPI.

“Comprei tudo do meu próprio bolso. Não me deram máscaras, nem álcool”, contou. “Comprei desinfetante, luvas, máscaras”.

Yadav disse que ela e seus colegas do departamento não recebem desde agosto. Singh, do NNSS, disse que o não pagamento era um problema para os professores em toda a área municipal do norte.

“As circunstâncias de nossa família são realmente ruins”, disse Yadav, acrescentando que a época dos festivais foi particularmente difícil “O Diwali é um grande festival e todos querem comprar roupas novas. A gente disse aos nossos filhos que não ia sair nem fazer compras por causa da pandemia”.

“As crianças queriam fazer algo bonito para o Natal. Nós os persuadimos, mas não temos respostas para eles. É tão ruim que agora estou preocupada em não conseguir pagar as taxas escolares”.

A falta de pagamento se estende aos professores do DMC Leste, de acordo com Singh, do sindicato dos professores do NNSS, que também é diretor de uma escola no DMC Leste. Segundo ela, os professores não recebem seus salários desde setembro.

Sharma, o Comissário Adicional do DMC Leste, disse que a corporação municipal não tem dinheiro suficiente para pagar os professores do distrito.

“Nossa prioridade é pagar os trabalhadores da Covid-19, mas não temos os fundos agora”, admitiu. “Se tivermos dinheiro em nossos cofres, todo mundo receberá o salário”.

Sharma não indicou quando espera que os fundos voltem a estar disponíveis.

A CNN viu cópias de várias cartas que NNSS e GSTA enviaram às autoridades locais e estaduais buscando um melhor tratamento para professores trabalhando na linha de frente e isenções para professores mais velhos.

Cartas semelhantes do NNSS exigem melhor apoio para os professores da rede municipal no desempenho de suas funções na pandemia, incluindo kits de EPIs, testes regulares e indenização para as famílias dos professores que contraíram o vírus e morreram.

As associações de professores afirmam não ter recebido uma resposta satisfatória. A CNN perguntou ao Diretor de Educação do DMC Norte sobre as alegações de que os professores não estavam sendo pagos e não recebeu resposta.

“Guerreiros do Corona”

Em junho, outro sindicato de professores nas escolas do DMC Norte levou as queixas dos professores sobre a falta de pagamento ao Supremo Tribunal de Delhi.

O sindicato de professores ADPSS, que representa 20 mil educadores primários em todos os DMCs, entrou com uma petição alegando que seus membros não haviam sido pagos desde março.

Em sua decisão, o tribunal disse que os professores encarregados da pandemia eram “guerreiros do corona”, nome que o governo indiano dá aos trabalhadores que ajudam a combater a pandemia.

“Os professores pertencem a uma das profissões nobres e, como também são feitos para cumprir as obrigações da Covid-19, podem ser comparados a guerreiros da Covid-19”, escreveram os juízes.

O tribunal ordenou que o DMC Norte pague os salários devidos aos professores, mas os professores e seus sindicatos dizem que não recebem nenhum pagamento desde julho.

O tribunal também decidiu que se algum professor morresse como guerreiro do corona em serviço, a família deveria receber uma compensação de cerca de US$ 135 mil (ou R$ 711 mil). Mas várias famílias ainda esperam por sua indenização, de acordo com sindicatos de professores.

Vários professores disseram à CNN que gostaram da decisão do Tribunal de Delhi, mas que há pouco reconhecimento do que um guerreiro da corona tem de sacrificar para manter os outros seguros.

Pessoa recebe imunizante contra Covid-19 no primeiro dia de campanha na Índia
Pessoa recebe imunizante contra Covid-19 no primeiro dia de campanha na Índia
Foto: Reprodução / CNN

Eles dizem que os professores estão trabalhando muitas horas, e meses de salários não pagos e EPIs inadequados estão tornando um trabalho difícil ainda mais desafiador.

“Ninguém leva isso a sério. Se o fizessem, pelo menos pagariam nosso salário”, disse Yadav, a professora. “Para que serve um emprego e um salário, quando não o temos na hora da necessidade?

“Paramos de comprar frutas agora para diminuir nossas despesas. Nossas economias se esgotaram completamente. Costumávamos economizar de US$ 136 a US$ 270 (cerca de R$ 716 a R$ 1.423), mas agora estamos em zero”.

Os professores não têm direito a férias remuneradas se apresentarem sintomas. O NNSS escreveu uma carta aos funcionários do DMC em junho acusando o departamento de fazer um “jogo duplo”.

“Quando alguém que trabalha em um escritório do DMC expressa suspeita de ter sintomas de Covid-19, todo o escritório é lacrado. Os funcionários também entram em quarentena domiciliar independentemente de terem entrado em contato com o indivíduo com a possível infecção”, afirma a carta.

No entanto, o mesmo procedimento não é seguido para quem trabalha nas escolas.

Em vez disso, se um professor expressar preocupação com os possíveis sintomas de Covid-19 e quiser isolar, mas não tiver os resultados do teste, a pessoa será ameaçada com um processo.

“Por que existe um padrão duplo para diretores, professores e funcionários de escolas?”, a carta pergunta.

Impacto nos alunos

Com escolas fechadas e professores gastando longas horas em tarefas pandêmicas, os sindicatos de professores dizem que a educação das crianças está sofrendo.

As escolas públicas atendem a famílias pobres e de baixa renda, onde os alunos matriculados geralmente são crianças que podem não ter o apoio de suas famílias para compensar o tempo perdido com os professores.

Os professores dizem que estão atrasados no currículo, pois os exames finais se aproximam – eles acontecem em março, o período mais crítico do ano letivo para os alunos do último ano do ensino fundamental.

“Se os professores estão cumprindo essas obrigações, quem está ensinando?”, perguntou Ram, do GSTA.

O governo “colocou o futuro dessas crianças em jogo”, disse Singh, do NNSS. “Não contam com a ajuda dos pais, que nem sempre sabem ler ou escrever. Se eles forem separados dos professores, o que farão?”

Antes da pandemia, Yadav, a professora primária, disse que repetia suas aulas várias vezes para as crianças entenderem. Com seu tempo esticado entre as tarefas da pandemia e a escolaridade, combinado com a falta de igualdade de acesso à tecnologia entre seus alunos, ficou ainda mais difícil.

“Eles não têm internet, não têm smartphones. E assim não tem como passar lição para eles. Pedimos que nos liguem se tiverem algum problema. Mas eles não conseguem entender tudo”, contou.

Desde meados de novembro, Kumar está de volta ao serviço, batendo de novo de porta em porta, e é por isso que diz ter contraído o vírus no ano passado. Desta vez, ele está entre os professores que ajudam o governo de Delhi a pesquisar zonas de contenção e pontos de acesso para identificar pessoas sintomáticas e seus contatos e garantir que façam o teste. Novamente, ele diz que não recebeu nenhum treinamento.

Todos os dias, quando Kumar termina seu trabalho na linha de frente, ele faz videochamadas online com seus alunos.

Enquanto isso, Yadav ainda espera seu salário.

“Eu só quero que paguem nosso salário, mesmo que sejam dois meses de pagamento”, implorou.

Quanto mais a pandemia se arrastar, maior será o custo para os professores – e seus alunos, disse Ram, do GSTA.

“Recebemos reclamações. Vimos professores morrerem”, disse. “Há muita pressão mental sobre os professores.”

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

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