Protestos não devem frear ações do ICE nos EUA, diz professor à CNN
Em entrevista ao Agora CNN, Alexandre Coelho, professor de Relações Internacionais da FESPSP, avalia que agentes de imigração continuarão atuando em Minneapolis enquanto tiverem apoio federal
As ações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) em Minneapolis não devem diminuir apesar dos protestos populares, desde que a agência continue recebendo apoio do governo federal. A avaliação é de Alexandre Coelho, professor de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), em entrevista ao Agora CNN.
"Trump acusa a vítima da própria morte, mas, o que podemos observar é algo até mais amplo do ponto de vista político: é uma falta de contenção, problemas nos freios e contrapesos dos Estados Unidos - acho que esse é um dos problemas de fundo que está causando a atuação livre do ICE", afirmou o professor, acrescentando: "O que dá impressão é que os agentes do ICE agem de acordo com vontade própria, sem qualquer cadeia de comando".
"E quando o líder dos Estados Unidos, Donald Trump, age assim do ponto de vista doméstico, se formos analisar do ponto de vista externo, [...] seu modus operandi se repete internamente, ficamos sem saber se começou primeiro na política internacional ou doméstica. Mas, isso se repete quando ele trata a própria população americana como subordinados, como seus súditos, digamos assim", opinou.
Coelho analisou a situação atual envolvendo os protestos contra as ações do ICE em Minneapolis. "Enquanto tiver apoio federal, o ICE não vai arrefecer as suas ações, mesmo com todos esses protestos", afirmou o professor. Segundo ele, o que se observa é uma dobra na aposta por parte das autoridades americanas: "Na medida que os protestos aumentam, aumentam também o número de agentes do ICE dentro da cidade de Minneapolis".
O especialista destacou que os protestos já começam a se espalhar para outras cidades americanas, ainda que de forma menos intensa. "Em outras cidades como Los Angeles, Chicago, Nova York e mesmo em Washington começam a ocorrer protestos no mesmo sentido, mas ainda estão muito localizados", explicou.
Falhas nos freios e contrapesos
Alexandre Coelho aponta para um problema mais profundo na política americana: a deterioração do sistema de freios e contrapesos que deveria conter excessos do poder executivo. "O que está acontecendo é uma falha nos freios e contrapesos dos Estados Unidos para poder conter a ação federal. Nem o judiciário, porque o judiciário também é reativo, nem o Congresso conseguem agir de forma efetiva", analisou.
Para o professor, os únicos contrapesos que ainda funcionam são a imprensa e os protestos da população. No entanto, ele questiona se esses mecanismos sozinhos serão suficientes para conter o que considera ações violentas do ICE. "O ideal seria o Congresso, por exemplo, agir de forma a conter o poder federal. Mas não é isso que a gente está vendo", lamentou.
Coelho também estabeleceu um paralelo entre a política doméstica e internacional dos Estados Unidos, argumentando que há um padrão de comportamento nas relações com aliados externos e com a própria população americana, tratados como "subordinados" ao invés de iguais.


