Análise: Renúncia de Liz Truss deixa partido em farrapos e a nação preocupada

Partido Conservador escolherá novo líder, e primeiro-ministro do Reino Unido, até o fim da próxima semana

Luke McGee, da CNN
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Mesmo para os padrões atuais, a quinta-feira foi um dia de cair o queixo na política britânica.

Liz Truss, uma defensora do Brexit que assumiu o posto de Boris Johnson há apenas seis semanas, anunciou que estava renunciando ao cargo. Em sua saída, ela deixa uma crise econômica precipitada por um "plano de crescimento" cheio de cortes de impostos não financiados, e um Partido Conservador que pode estar no cargo, mas certamente não exerce muito poder.

É difícil afirmar o impacto que a ascensão de Truss ao cargo teve na política britânica em tão pouco tempo. Suas propostas radicais de política econômica — mesmo antes de serem promulgadas — fizeram com que a libra despencasse para o menor valor em relação ao dólar em décadas.

A turbulência fez com que os títulos públicos subissem, o que teve um impacto negativo nos empréstimos do governo e, pior ainda, nos fundos de pensão dos cidadãos. O aumento das taxas de juros forçou a quitação de hipotecas, e os credores correram para retirar seus produtos do mercado, frustrando as esperanças de possíveis donos da casa própria da noite para o dia.

Diante da fúria de seu próprio partido — para o qual a disciplina fiscal foi, por muito tempo, uma palavra de ordem — Truss se rendeu. Ela demitiu seu ministro da Fazenda, perdeu seu ministro do Interior e criou ainda mais divisões em um partido que vem se despedaçando desde o referendo do Brexit em 2016.

Era só uma questão de tempo até ela ser forçada a sair. Políticos de todas as vertentes estão fazendo a mesma pergunta que grande parte do país: e agora? 

O que sabemos com certeza é que o Reino Unido terá um novo primeiro-ministro até o fim da próxima semana. Esta pessoa será escolhida, mais uma vez, pelo Partido Conservador —seus membros do parlamento e seus membros de base — em vez de pelo público em geral. É uma realidade que enfureceu o Partido Trabalhista de oposição, que exige eleições gerais.

Isso não vai acontecer. As pesquisas sobre o Partido Conservador estão em um recorde de baixa, e como a data da eleição é definida pelo governo, ele não vai arrumar mais problemas para si mesmo.

Desta forma, o partido vai se arrastar por outra eleição para escolher seu líder e um segundo primeiro-ministro em poucos meses. Pelo menos será rápido: os dirigentes do partido querem tudo concluído até o fim da próxima semana.

Agora, quem vai ser é um mistério. Aliados do ex-premiê Boris Johnson informaram à CNN que ele está considerando o que seria um retorno surpreendente, apesar de ter renunciado vergonhosamente apenas alguns meses atrás.

Embora pessoas próximas Johnson afirmem que ele é o único candidato capaz de unir um partido amargamente dividido, outras retrucam dizendo que havia motivos para ele ter sido forçado a deixar o cargo.

Para quem não se lembra, esses motivos foram os diversos escândalos (desde a quebra das regras de isolamento social por conta da Covid-19 até a promoção dada a aliado acusado de abuso sexual) que fizeram sua posição como líder do Reino Unido ficar simplesmente insustentável.

Candidatos de consenso?

Antigos aliados que deixaram de apoiar Johnson depois que as coisas foram longe demais dizem que nomeá-lo deixaria os conservadores expostos a uma franca linha de ataque: por que essa pessoa que se mostrou totalmente incapaz para o cargo de repente é considerada a melhor para liderar o país?

Tanto conservadores que temem um retorno de Johnson quanto representantes do Partido Trabalhista de oposição enfatizaram à CNN que Johnson também está sob investigação sobre se ele mentiu para o Parlamento sobre o chamado escândalo Partygate. 

Há outras opções para candidatos de consenso. Acredita-se que Penny Mordaunt, uma das ministras de Truss, esteja considerando concorrer ao cargo. Ela é uma defensora do Brexit, popular em todo o partido, e considerada uma moderada sensata que adotaria uma abordagem mais calma na liderança.

Ela criticou Truss abertamente enquanto estava em seu governo, dizendo que queria ver os pagamentos da previdência aumentarem de acordo com a inflação em um momento de alta tensão no partido, o que teria rendido elogios dos críticos de Truss.

Há também Rishi Sunak, o ex-ministro da Fazenda, cuja demissão foi considerada o catalisador da queda de Johnson. Ele foi o último rival de Truss na disputa pela liderança e é detestado pelos apoiadores de Johnson, então sua alçada seria pouco popular em grande parte do partido.

E ser popular com o partido — tanto para membros do parlamento quanto de base – vai ser fundamental para quem assumir o cargo. Divergências sobre tudo, do Brexit à política fiscal, transformaram o partido com grande maioria parlamentar em praticamente ingovernável.

Deixando de lado a antipatia pessoal que as pessoas podem sentir por Johnson, Truss ou Sunak, a sensação de que o Partido Conservador é um animal indomável marchando de crise em crise criou a impressão de que ele está em declínio terminal.

Os membros do parlamento e representantes conservadores estão totalmente desanimados. Se compararmos a renúncia de Truss com a de Johnson, apenas algumas semanas antes, não havia deputados nas ruas, ou fileiras de apoiadores sorrindo. Foi um discurso frio para uma Downing Street vazia.

Um grande número de deputados conservadores acha que o partido não tem nenhuma esperança de vencer as próximas eleições gerais. E como convocar uma eleição geral está nas mãos do governo, isso significa se apegar ao poder o máximo possível, na vaga esperança de que as coisas melhorem.

Em poucas semanas, o Partido Trabalhista passou de crer em si mesmo como um futuro governo otimista, para ficar furioso, pois os conservadores estão dispostos a nomear outro líder sem mandato, privando o público de um governo estável. 

Esse é o estado da política britânica hoje. O governo atual não convocará uma eleição geral. Uma análise generosa poderia dizer que isso acontece porque o governo acredita que o país precisa de estabilidade em um momento difícil.

Uma outra, mais cínica, poderia dizer que eles estão apavorados com a perspectiva do tamanho de sua derrota eleitoral.

A situação ficará mais clara nas próximas 48 horas, à medida que os candidatos se apresentarem e o processo para uma transição suave for delineado. Contudo, se o último ano da política britânica for alguma referência, a eleição de um novo primeiro-ministro será acompanhada por declarações repugnantes e políticas sujas, algo a que acabamos nos habituando.

A verdade é que os animais da política britânica provavelmente continuarão a mirar a jugular dos rivais no futuro próximo. E, dado o estado do país, isso é uma péssima notícia para seus cidadãos. 

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