Roubo no Louvre: Entenda por que a ação indica uma escalada preocupante

Com roteiro cinematográfico, incidente mostrou como ladrões agora miram instituições culturais por artefatos que podem ser desmontados

Jacqui Palumbo e Caitlin Danaher, da CNN
Museu do Louvre
Museu do Louvre, na França  • Foto: Divulgação/Museu do Louvre
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O Museu do Louvre já estava aberto há 30 minutos e havia recebido centenas de visitantes quando ladrões vestindo coletes amarelos subiram por uma escada montada em um caminhão até a sacada do segundo andar da Galeria Apollo, local que abriga, entre outros tesouros, as joias da coroa francesa.

Usando uma serra elétrica para forçar uma janela, eles levaram apenas quatro minutos para entrar na sala, cortar duas vitrines que exibiam joias napoleônicas, pegar nove peças e fugir pela mesma escada.

Além de seu roteiro aparentemente cinematográfico, o roubo foi um exemplo claro de como os ladrões começaram a mirar instituições culturais não necessariamente por suas valiosas pinturas, mas por artefatos que podem ser desmontados, despedaçados ou derretidos para aproveitamento de suas partes valiosas.

Ladrões executaram um assalto igualmente ousado na histórica na Nova Abóbada Verde, em Dresden, na Alemanha, em 2019, quando quebraram uma vitrine de vidro com um machado e fugiram com 21 tesouros cravejados de diamantes, avaliados em pelo menos €113 milhões ($128 milhões).

Muitos dos tesouros foram recuperados anos depois, quando cinco homens foram condenados pelo crime, mas alguns permanecem desaparecidos até hoje.

Todos os cinco disseram aos investigadores que não sabiam o paradeiro das joias que faltavam.

Roubo de matérias-primas

"O que definitivamente observamos nos últimos cinco a sete anos é uma mudança maior em direção ao roubo de matérias-primas", explicou Remigiusz Plath, secretário do Conselho Internacional de Segurança de Museus, parte do Conselho Internacional de Museus.

A instituição mantêm o fluxo de informações sobre ameaças à segurança e melhores práticas para proteger instituições no setor museológico europeu.

A tendência, segundo o especialista, tem se afastado do roubo de arte por seu valor cultural.

Obras de Pablo Picasso, Piet Mondrian ou Willem de Kooning podem ressurgir anos, ou décadas depois, no porão de um edifício ou atrás de uma porta de quarto aparentemente comum. Mas especialistas dizem que joias, moedas ou medalhas, por outro lado, correm o risco de serem perdidas para sempre - e rapidamente.

"Minha crença cínica é que essas gemas do Louvre provavelmente já foram desmontadas em suas partes", disse Laura Evans, historiadora de crimes de arte, autora e professora.

Sua opinião é compartilhada por outros especialistas que conversaram com a CNN sobre o caso.

"Não acredito que os ladrões se importem com o significado histórico, cultural ou emocional dessas joias como elas são, e não hesitariam em cortá-las em diferentes formas e tamanhos. Existe uma alta liquidez quando essas joias são desmontadas, mas uma obra de Monet roubada, por exemplo, tem uma liquidez muito baixa, por ser instantaneamente reconhecível."

Plath classificou os museus como "alvos relativamente fáceis" em comparação com outros edifícios altamente protegidos, como bancos.

Os museus precisam equilibrar a segurança com a liberdade de ver e interagir com suas coleções.

"Você pode realmente entrar lá, quando o museu está aberto, e ver tudo bem na sua frente", disse ele.

"E se você aplicar força bruta, assim como pelo telhado, você já está lá — não há muitas barreiras para atravessar até ter acesso a esses materiais brutos."

Uma mudança nas táticas

Alguns dos roubos a museus mais notórios capturaram a imaginação do público por sua engenhosidade ou ousadia.

Em 1990, no Museu Isabella Stewart Gardner em Boston, dois homens vestidos como policiais realizaram o maior roubo de arte da história, levando 13 obras de arte, incluindo três Rembrandts e um Vermeer, que nunca foram encontradas.

Em 1911, a Mona Lisa alcançou fama internacional quando um funcionário do Louvre escondeu a pequena pintura de Leonardo da Vinci em seu casaco e a levou secretamente por dois anos.

Conforme os detalhes do roubo do Louvre vieram à tona, a sofisticação do plano ficou clara. Como o altamente orquestrado roubo do Green Vault, Evans classificou o incidente do Louvre como um caso de "terrorismo cultural, executado com precisão militar."

"Não se trata mais de explorar o elo mais fraco", disse ela. "Agora é sobre usar a força."

A polícia encontrou várias evidências quando chegou ao Louvre.

Os ladrões descartaram do caminhão duas moedoras, um maçarico, gasolina, luvas, um walkie-talkie e um cobertor.

Nas proximidades, estava um item mais chamativo: a coroa da Imperatriz Eugênia, esposa de Napoleão III, abandonada pelos ladrões durante sua fuga em scooters Yamaha T-Max ao longo do Rio Sena.

A peça ornamentada em ouro, que conta com 1.354 diamantes e 56 esmeraldas, foi danificada durante o assalto, informaram os promotores.

Plath está preocupado com o que ele acredita ser um aumento nos roubos do tipo "bate e foge", nos quais os ladrões ganham acesso aos edifícios com ferramentas industriais potentes - desta vez, surpreendentemente, durante o dia, quando o museu já estava cheio de visitantes.

Roubos em museus geralmente acontecem após o horário de funcionamento, com menos riscos para os visitantes.

Evans lembrou um caso raro em 1972, quando dois homens balearam um segurança no Museu de Arte de Worcester enquanto fugiam com quatro pinturas que foram posteriormente recuperadas.

Mas o roubo no Louvre lhe dá uma maior sensação de inquietação de que o perigo pode estar aumentando.

"Com a forma como essas coisas estão progredindo, é provavelmente apenas uma questão de tempo até que algo assim aconteça novamente. Isso é algo que definitivamente me preocupa", disse ela.

Investigação em andamento

Com uma caçada nacional, surgem questionamentos sobre como os ladrões conseguiram realizar tal façanha, quem são eles e por que as instituições francesas parecem ser consideradas alvos fáceis.

Antes do roubo no Louvre, ladrões atacaram o Museu de História Natural de Paris em setembro, roubando pepitas de ouro no valor de €600.000 ($699.000), além de porcelana chinesa antiga avaliada em €9,5 milhões ($11 milhões) de um museu em Limoges, ao sul da capital, no mesmo mês.

"Se você é um investigador na França, está trabalhando com a teoria neste momento de que estes casos estão relacionados devido à frequência, à ousadia e às semelhanças em seu modo de operação", teorizou a analista sênior de segurança nacional da CNN, Juliette Kayyem.

Plath também disse que eles podem estar conectados, ou serem imitadores que observaram a eficácia de outros roubos.

Natalie Goulet, senadora centrista francesa, disse à CNN na segunda-feira (20)  que o roubo provavelmente está ligado ao crime organizado.

No caso do roubo da Abóbada Verde em 2019, os cinco homens condenados faziam parte do clã Remmo, uma das famílias criminosas mais poderosas da Alemanha, que opera principalmente em Berlim

As autoridades francesas conduzirão a investigação, embora a unidade especializada em Crimes contra o Patrimônio Cultural da Interpol possa se envolver caso os oficiais franceses suspeitem de uma conexão internacional.

A Interpol confirmou em sua conta no X que as joias da coroa napoleônicas foram adicionadas à sua base de dados de obras de arte e artefatos roubados.

Para o Ministro da Justiça francês, Gérald Darmanin, o roubo expõe constrangedoras falhas de segurança em uma das instituições mais veneráveis da França.

"O povo francês se sente como se tivesse sido roubado", disse ele à rádio France Inter.

"É possível questionar o fato de que, por exemplo, as janelas não estavam protegidas, sobre o fato de haver um elevador de carga em uma via pública... O que é certo é que falhamos", afirmou.

Evans disse que, embora muitos sejam atraídos pelos detalhes sensacionalistas do roubo — como em qualquer thriller criminal envolvente — existe um profundo sentimento de perda nacional que não deve ser esquecido.

"Eu incentivaria as pessoas a enxergarem além do sensacionalismo do roubo e de como ele foi executado", disse ela. "Há uma verdadeira lacuna na herança cultural e na história da França como nação."

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