Sobreviventes do terremoto no Haiti lutam pela vida em hospitais sem recursos

Terremoto que atingiu o país foi seguido de uma tempestade tropical, que piorou o acesso às regiões que necessitam de ajuda

Etant Dupain, Jack Guy e Matt Rivers, da CNN

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Os hospitais no Haiti estão totalmente sobrecarregados pelos sobreviventes do terremoto de 7,2 graus de magnitude do sábado – e eles precisam urgentemente de ajuda no tratamento, dizem equipes médicas locais.

O terremoto, que atingiu o sudoeste do país, deixou pelo menos 2.189 mortos e mais de 12.268 feridos, disse a agência de proteção civil do país na quarta-feira (18). Os esforços de busca e resgate estão sendo dificultados pela falta de recursos e pelas fortes chuvas, que têm causado deslizamentos de terra e bloqueios nas estradas da região.

Em um discurso na quarta-feira, o primeiro-ministro haitiano Ariel Henry exortou seu país a “se unir para reconstruir o Haiti”, acrescentando que o governo está empenhado em fornecer ajuda às áreas afetadas.

“Lançamos um apelo solene a todos nós para demonstrarmos solidariedade às vítimas”, disse Henry. “Lançamos um apelo solene a todos nós, a mim e aos meus membros das sociedades civil, política, privada e da diáspora, para trabalharmos em uma resposta adequada às necessidades da população”.

Ele também pediu para que os cidadãos estejam conscientes da propagação da Covid-19 durante os esforços de recuperação. O Haiti, lar de cerca de 11 milhões de pessoas, registrou mais de 20.000 casos de coronavírus e mais de 570 mortes, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins. “Perdemos muitas pessoas no desastre, vamos evitar perder mais por causa da pandemia”, disse Henry.

A crise humanitária criada pelo terremoto significa que cerca de 600.000 pessoas precisam de assistência, especialmente em relação ao acesso à água – com foco na comunidade de Pestel, onde quase todos os reservatórios de água potável foram destruídos, disse o Diretor de Proteção Civil do Haiti, Dr. Claude Predtit, em uma coletiva de imprensa na quarta-feira.

Pelo menos 75.000 casas foram danificadas ou destruídas pelos tremores, afetando cerca de 135.000 famílias, disse ele, acrescentando que 34 pessoas foram resgatadas dos escombros na terça e quarta-feira.

Hospitais sobrecarregados

No principal hospital de Jeremie, uma das cidades mais duramente atingidas, havia 84 pessoas esperando tratamento em uma instalação que normalmente trata dez pessoas em um dia, observou a CNN na terça-feira.

Todas as camas estavam ocupadas, com os pacientes também deitados no chão. Sem evacuação para instalações mais bem equipadas, pelo menos um terço delas poderia perder membros ou não sobreviver, disse um médico à CNN.

Jean Yves Dorvil tirou sua filha Evenson, de 22 meses, dos escombros ele mesmo, com o fêmur da bebê comprometido. “Minha filha está sofrendo e eu não quero que ela perca a perna”, disse Dorvil à CNN. “Estou muito grato a estes médicos que trabalham apenas com as próprias mãos”.

Outros sobreviventes foram deixados para defenderem a si próprios, pois a tempestade tropical Grace trouxe chuva forte e ventos fortes para a mesma área atingida pelo terremoto.

Suas casas foram destruídas, alguns tentaram se abrigar sob barracas e lonas improvisadas. “Dormimos sentados em cadeiras”, disse Theard Andrise à Reuters. “Ninguém veio para nos ajudar”.

A ajuda tem chegado à capital Porto Príncipe, mas levá-la às áreas afetadas tem se mostrado difícil devido aos deslizamentos de lama.

“Estou com muita dor. Nos prometeram um remédio. Fui procurá-lo e me disseram para esperar”, disse Marimene Jouesil à Reuters. “Ontem eles distribuíram suprimentos, mas eu não consegui nada”. “Não temos nada para comer, não temos nada”.

A Guarda Costeira dos Estados Unidos está entre várias agências no terreno, ajudando nos esforços de recuperação.

Na terça-feira, o Departamento de Defesa dos EUA anunciou que havia formado uma força-tarefa conjunta para ajudar a USAID no socorro a desastres, enquanto as Nações Unidas e a União Europeia alocaram US$ 8 milhões e US$ 3,5 milhões, respectivamente, em ajuda ao Haiti.

Após um pedido de assistência do Departamento de Proteção Civil do Haiti, a Caribbean Disaster Emergency Management Agency (CDEMA) está se preparando para enviar membros de uma equipe de apoio operacional ao país.

Múltiplos desafios

Haiti ajuda terremoto
Haitianos recebem suprimentos após terremoto e tempestade tropical atingirem o país
Foto: Richard Pierrin/Getty Images

O Haiti, que ainda se recupera do assassinato de seu falecido presidente Jovenel Moise em julho, depende fortemente da ajuda de países e organizações doadoras para sua reconstrução.

O terremoto atingiu o Haiti às 8h30 da manhã, horário local, no sábado, a uma profundidade de aproximadamente 10 km; seu epicentro foi cerca de 12 km a nordeste de Saint-Louis-du-Sud, na parte sudoeste do país.

Cerca de 1,2 milhões de pessoas, incluindo 540.000 crianças, foram atingidas pelo terremoto, segundo a UNICEF, a agência da ONU para a infância.

A agência disse na quarta-feira que o terremoto, seguido pela Tropical Storm Grace na segunda-feira, destruiu 94 das 255 escolas da região administrativa do sul do país, semanas antes do início dos períodos escolares. “As avaliações ainda não aconteceram nos departamentos de Nippes e Grand’Anse, assim como em outras comunidades que ainda não foram atingidas”, disse a declaração da UNICEF.

A UNICEF também estima que são necessários US$ 15 milhões por um período de oito semanas “para responder às necessidades mais urgentes de pelo menos 385.000 pessoas” afetadas pelo terremoto, disse a declaração.

O terremoto é apenas o último desafio para a nação insular, que foi devastada em 2010 por um terremoto de 7,0 de magnitude que matou entre 220.000 a 300.000 pessoas.

“Pouco mais de uma década depois, o Haiti está cambaleando mais uma vez. E este desastre coincide com a instabilidade política, o aumento da violência das gangues, taxas alarmantemente altas de desnutrição entre as crianças e a pandemia COVID-19 – para a qual o Haiti recebeu apenas 500.000 doses, apesar de exigir muito mais”, disse a diretora-executiva da UNICEF, Henrietta Fore, na segunda-feira. “Agora é especialmente urgente alcançar os atingidos pelo terremoto com vacinas”.

*Com colaboração de Tara John and AnneClaire Stapleton, da CNN. Esta é uma matéria traduzida. Leia a original.

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