Tradutor afegão que ajudou exército dos EUA foi decapitado pelo Talibã

Outros intérpretes que atuaram com membros do exército norte-americano também estão sob ameaça; governo Biden diz que concederá vistos e realocará famílias

Sandi Sidhu, Anna Coren e Helen Regan, CNN

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Sohail Pardis estava dirigindo de sua casa em Cabul, na capital do Afeganistão, para a província vizinha de Khost, a fim de buscar sua irmã para as celebrações do feriado de Eid que marcam o fim do Ramadã.

Era para ser uma ocasião feliz em família. Mas durante a viagem de cinco horas em 12 de maio, enquanto Pardis, de 32 anos, dirigia por um trecho do deserto, seu veículo foi bloqueado em um posto de controle por militantes do Talibã.

Poucos dias antes, Pardis confidenciou a seu amigo que estava recebendo ameaças de morte do Talibã, que descobriu que ele havia trabalhado como tradutor para o Exército dos Estados Unidos por 16 meses durante o conflito de 20 anos.

“Eles estavam dizendo a ele que ‘você é um espião dos americanos, você é os olhos dos americanos e é infiel, e vamos matar você e sua família'”, disse seu amigo e colega de trabalho Abdulhaq Ayoubi à CNN.

Ao se aproximar do posto de controle, Pardis pisou no acelerador para tentar escapar da situação. No entanto, ele não foi visto vivo novamente.

Os moradores que testemunharam o incidente disseram que o Talibã atirou em seu carro antes que ele desviasse e parasse. Eles então arrastaram Pardis para fora do veículo e o decapitaram.

Pardis foi um dos milhares de intérpretes afegãos que trabalharam para os militares dos EUA e agora enfrentam perseguição pelo Talibã, à medida que o grupo ganha o controle de áreas mais amplas do país.

Em um comunicado divulgado em junho, o Talibã disse que não prejudicaria aqueles que trabalharam ao lado de forças estrangeiras. Um porta-voz do Talibã disse à CNN que eles estavam tentando verificar os detalhes do incidente, mas disse que alguns incidentes não são como o que tem sido retratado.

Mas aqueles que falaram à CNN disseram que suas vidas estão agora ameaçadas, pois o Talibã tem feitos ataques por vingança após a retirada dos EUA do Afeganistão. No auge da guerra, havia cerca de 100 mil soldados americanos no país, como parte de uma força da Otan.

“Não podemos respirar aqui. O Talibã não tem piedade de nós”, disse Ayoubi. Cerca de 18 mil afegãos que trabalharam para as forças armadas dos EUA se inscreveram para um programa de visto especial de imigrante que lhes permitiria ir para os Estados Unidos.

Em 14 de julho, a Casa Branca anunciou que estava lançando a “Operação Refúgio dos Aliados”, um esforço para realocar os milhares de intérpretes e tradutores afegãos que trabalhavam para os EUA e cujas vidas agora estão em risco. 

John Kirby, porta-voz do Pentágono
John Kirby, porta-voz do Pentágono
Foto: Yasin Ozturk/Anadolu Agency via Getty Images

A evacuação começa na última semana de julho para os candidatos ao Visto de Imigrante Especial (SIV, na sigla em inglês) que já estão em andamento, disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki.

Anteriormente, o governo Biden disse que estava em negociações com vários países para agir como “portos seguros” até que os EUA pudessem concluir o longo processo de visto, um sinal claro de que o governo está bem ciente da ameaça iminente representada pelo Talibã.

O porta-voz do Pentágono, John Kirby, disse nesta quarta-feira (21) que o Departamento de Defesa “está considerando opções” para onde cidadãos afegãos e suas famílias poderiam ir.

“Ainda estamos examinando as possibilidades de locais no exterior para incluir algumas instalações departamentais que seriam capazes de apoiar os esforços de relocação planejados com residências temporárias adequadas e infraestrutura de apoio”, disse Kirby.

Pardis deixou para trás uma filha de 9 anos, cujo futuro agora é incerto. Ela está sendo cuidada por seu irmão, Najibulla Sahak, que disse à CNN que eles tiveram que deixar sua casa em Cabul por segurança, temendo que fossem os próximos alvos.

Falando próximo ao túmulo de seu irmão, em uma encosta árida entre rochas, matagais e bandeiras, Sahak disse que eles não estão seguros. “Estou muito preocupado com a segurança da minha família. Não há muito trabalho neste país e a situação da segurança é muito ruim”, disse ele.

Os tradutores e os entrevistados na história concordaram em ser nomeados porque acreditam que suas identidades já são conhecidas pelo Talibã e estão sendo ativamente caçados. Eles acham que a exposição internacional é sua última e única opção para evitar serem mortos.

“Ainda estamos examinando as possibilidades de locais no exterior para incluir algumas instalações departamentais que seriam capazes de apoiar os esforços de relocação planejados com residências temporárias adequadas e infraestrutura de apoio”, disse Kirby.

Aqueles que ficaram para trás temem represálias

Depois de 16 meses trabalhando para os EUA, a parceria de Pardis foi encerrada em 2012 depois de não ser aprovado em um teste de polígrafo (detector de mentiras) de rotina. Ele estava procurando uma saída do Afeganistão, mas não se qualificou para o Visto Especial de Imigrante por causa de sua demissão, disse seu amigo Ayoubi.

Os tradutores com os quais a CNN falou, disseram que os testes do polígrafo eram normalmente usados para liberação de segurança para acessar bases dos EUA no Afeganistão. Eles também foram usados como parte do processo de triagem para solicitar o visto, disseram. Pardis nunca foi informado acerca dos motivos que culminaram na sua não aprovação no polígrafo.

As projeções foram conduzidas por uma empresa contratada, disseram os tradutores, e eles questionaram algumas das perguntas feitas e consideraram que não eram confiáveis.

A CNN entrou em contato com o Departamento de Defesa dos EUA, e encaminhou perguntas sobre o uso de polígrafos e o processo de visto ao departamento.

Existem centenas de tradutores afegãos que tiveram seus contratos rescindidos pelo que consideram uma causa injusta. E embora o governo dos Estados Unidos tenha afirmado que não analisará esses casos, os tradutores têm medo de que, se permanecerem no Afeganistão, tenham o mesmo destino de Pardis.

Abdul Rashid Shirzad é um deles. Ele serviu por cinco anos como intérprete trabalhando ao lado da elite militar dos Estados Unidos, traduzindo para as Forças Especiais dos EUA.

À CNN, ele mostrou fotos em missões no Vale Kejran, na província de Uruzgan, trabalhando com a equipe SEAL 10, da Marinha dos EUA. Mas, de acordo com Shirzad, seu serviço agora equivale a uma sentença de morte. O governo dos EUA rejeitou seu visto especial de imigrante, e ele disse que isso o tornava um alvo do Talibã. 

“Se eles me pegarem, vão me matar, matar meus filhos e minha esposa também. É hora de revidar para eles, você sabe”, disse ele.

Soldado afegão que foi executado por militantes do Talibã
Soldado afegão que foi executado por militantes do Talibã (14.jul.2021)
Foto: Reprodução / CNN

Shirzad é pai de três filhos disse que seu contrato com os militares dos EUA foi encerrado em 2014, depois que ele também foi reprovado no teste do polígrafo. Ele havia solicitado seu visto no ano anterior.

Mas as cartas de recomendação de Shirzad de comandantes SEAL, vistas pela CNN, refletem que o tradutor contribuiu para o exército norte-americano. Eles o descrevem como um “recurso valioso e necessário” que “enfrentou o fogo inimigo” e “sem dúvida salvou a vida de americanos e afegãos”.

Shirzad disse que estava animado para trabalhar com os americanos e se tornou o principal elemento de ligação entre as Forças Especiais dos EUA e do Afeganistão. Uma carta de recomendação para o visto, de um comandante dos EUA, descreveu que Shirzad participou de 63 “missões de combate de ação direta de alto risco” e foi “vital” para o sucesso das operações de sua equipe. 

Ele detalhou como ele ajudou na recuperação de um membro da equipe que foi pego em uma explosão e deixou ferimentos fatais.

Shirzad disse que não tem ideia do que fez de errado e nunca recebeu uma explicação para sua demissão. Sua carta de rejeição de visto da Embaixada dos Estados Unidos declarou “falta de serviço fiel e valioso”.

“Se tivéssemos paz no Afeganistão, se eu não tivesse servido aos militares dos EUA, se o Talibã não estivesse atrás de mim, eu nunca deixaria meu país”, disse ele.

Shirzad não pode voltar para sua província natal e muda de local com sua família todos os meses. Abraçando seu filho mais novo, sua esposa disse que eles têm medo de serem pegos pelo Talibã. 

“Estamos com muito medo. O futuro do meu marido e dos filhos está em perigo”, disse ela. “Meu marido estava trabalhando com eles e colocou sua vida em perigo e agora quero que os americanos salvem meu marido do perigo.”

(Esse texto é uma tradução. Para ler o original, em inglês, clique aqui)

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