Trump elogia Lula logo após endurecer críticas contra o Brasil

Presidente americano afirmou que teve "uma química excelente" com o brasileiro e concordou com uma reunião na semana que vem

Danilo Cruz, Saulo Tiossi, da CNN, em São Paulo
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que concordou se reunir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na próxima semana durante discurso na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas).

A reunião, anunciada em meio à crescente tensão entre os dois países, foi acertada durante breve conversa nos bastidores da sede das Nações Unidas, em Nova York. Trump tornou público o combinado com Lula ao fim de seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas.

O republicano diz que a conversa foi breve e que Lula "parecia ser um homem muito legal", além de ter "gostado dele". "Mas tivemos por pelo menos 39 segundos uma química excelente, é um bom sinal.", afirmou.

Em entrevista à CNN Internacional, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, apontou que a conversa será feita por telefone ou videoconferência, devido a conflito de agendas entre os presidentes. "Não será possível se encontrarem pessoalmente, mas eles vão conversar e estou muito feliz que isso tenha acontecido."

O Palácio do Planalto mantém cautela com a situação, levando em conta a imprevisibilidade de Trump – assim como, temendo a repetição de um momento vivido por Volodymir Zelensky, presidente da Ucrânia, que foi constrangido pelo republicano e por aliados no Salão Oval em fevereiro.

Os sinais de uma possível reaproximação entre os dois países chegam cerca de um dia depois de novas retaliações da Casa Branca contra autoridades brasileiras e com o tarifação americano contra o Brasil em pleno andamento.

Nesta segunda (22), o Departamento do Tesouro aplicou a Lei Magnistisky contra a esposa do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, a advogada Viviane Barci, e holding que controla os bens da família. Além disso, vistos de autoridades brasileiras - incluindo Jorge Messias, advogado-geral da União - foram suspensos.

Instantes antes de elogiar Lula, Trump criticava a política interna brasileira, mencionando supostas afrontas à liberdades e ataques contra cidadãos americanos.

"O Brasil enfrenta agora grandes tarifas em resposta aos seus esforços sem precedentes para interferir nos direitos e na liberdade dos nossos cidadãos americanos e de outros, com censura, repressão, instrumentalização, corrupção judicial e ataques a críticos políticos nos Estados Unidos", afirmou o republicano.

Mauro Vieira argumenta que o presidente americano "é muito ocupado e não está muito bem informado" das informações. "Não sei se ele [Trump] encontrou os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro pessoalmente... mas elas estão distorcidas de forma que Trump as recebe", concluiu o ministro.

Vieira refere-se ao deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que há meses vive nos Estados Unidos. Desde sua aproximação com a Casa Branca, o deputado comemorou as tarifas e as sanções impostas a Moraes, na esperança de uma anistia que livre Jair Bolsonaro da cadeia por tentativa de golpe.

Eduardo disse que os elogios a Lula fazem parte das estratégias de negociação de Trump que, segundo ele, pressionou o brasileiro e se reposicionou com mais força na mesa de negociações.

A atuação de Eduardo em Washington contra o Estado brasileiro levou à abertura de um processo no Conselho de Ética da Câmara. O grupo acatou uma representação do PT (Partido dos Trabalhadores) contra o parlamentar por quebra de decoro – o que pode ter potencial de levar à cassação de seu mandato.

Também nesta terça-feira (23), o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), rejeitou o nome de Eduardo para líder da minoria, alegando que ele não pode exercer o cargo fora do Brasil.

A nomeação era uma tentativa da oposição de livrar Eduardo Bolsonaro das faltas no plenário. Sem essa estratégia, o acúmulo de faltas também pode significar o fim da sua legislatura.