Trump irrita aliados da Otan com fala sobre luta no Afeganistão; entenda
Premiê britânico e príncipe Harry rebateram presidente dos Estados Unidos; Starmer falou em insulto

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, questionou mais uma vez se a Otan, a aliança militar ocidental, protegeria os EUA se fosse preciso, alegando, sem provas, que as tropas do grupo "ficaram um pouco afastadas" das linhas de frente em batalhas no Afeganistão.
"Eu sempre disse: 'Eles estarão lá, se algum dia precisarmos deles?' E esse é realmente o teste final. E eu não tenho certeza disso. Sei que nós estaríamos lá, ou estaríamos lá, mas eles estarão lá?", questionou Trump na quinta-feira, em entrevista à Fox News em Davos, na Suíça.
Após os ataques terroristas de 11 de setembro, os EUA se tornaram o primeiro e, até agora, o único integrante da Otan a invocar o Artigo 5, que afirma que um ataque contra um dos países que integram o grupo é um ataque contra todos.
Por 20 anos, os aliados da Otan e outros países parceiros lutaram ao lado das tropas americanas no Afeganistão – algo que Trump tem minimizado sistematicamente.
"Nunca precisamos deles. Nunca realmente pedimos nada a eles. Sabe, eles dizem que enviaram algumas tropas para o Afeganistão, ou isso ou aquilo. E enviaram mesmo – ficaram um pouco para trás, um pouco afastados da linha de frente”, alegou.
Os comentários do presidente irritaram os aliados dos EUA na Otan, logo após as repetidas ameaças de assumir o controle da Groenlândia, uma região autônoma da Dinamarca, outro integrante da aliança.
Embora, em termos absolutos, os EUA tenham perdido de longe o maior número de soldados entre os países da Otan no Afeganistão, alguns países europeus – com populações muito menores que a do – perderam quase o mesmo número de soldados em termos relativos.
Cerca de 3.500 soldados aliados morreram no conflito, dos quais 2.456 eram americanos e 457 eram britânicos. A Dinamarca, com uma população de cerca de 5 milhões de habitantes quando a invasão começou, perdeu mais de 40 militares.
Por exemplo, a força enviada para a província de Helmand, no sul do país – um reduto do Talibã e um centro de produção de ópio – era inicialmente composta principalmente por tropas britânicas e dinamarquesas, antes de os EUA enviarem reforços em 2008. O Reino Unido a Dinamarca sofreram a maior parte de suas baixas em Helmand.
Premiê britânico diz que fala de Trump é "insulto"
Nesta sexta-feira (23), o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, criticou duramente os comentários "insultuosos e francamente deploráveis" de Trump e sugeriu que o presidente americano se desculpasse por suas declarações.
“Não me surpreende que tenham causado tanta dor aos entes queridos daqueles que foram mortos ou feridos”, disse Starmer.
“Se eu tivesse me expressado mal ou dito aquelas palavras, certamente pediria desculpas", comentou.

O príncipe Harry, que serviu duas vezes no Afeganistão, afirmou em um comunicado divulgado por seu porta-voz que os sacrifícios das tropas da Otan merecem respeito.
“Esses sacrifícios merecem ser mencionados com sinceridade e respeito, enquanto permanecemos unidos e leais à defesa da diplomacia e da paz”, pontuou.
Chefe da Otan já havia rebatido Trump sobre Afeganistão
Desde o início do ano, Trump tem questionado a disposição da Otan em apoiar os EUA.
"Duvido que a Otan estaria lá por nós se realmente precisássemos dela. Sempre estaremos lá pela Otan, mesmo que eles não estejam lá por nós", disparou ele na Truth Social em 7 de janeiro.
Antes dos comentários de Trump à Fox News, o secretário-geral da aliança, Mark Rutte, já havia refutado as tentativas anteriores do presidente de diminuir a disposição do bloco em apoiar os EUA.
“Houve uma coisa que ouvi você dizer ontem e hoje: que não tinha certeza absoluta de que os europeus viriam em socorro dos EUA caso vocês fossem atacados”, disse Rutte na quarta-feira (21) em Davos, sentado ao lado de Trump.
“Deixe-me dizer-lhe: eles virão. E vieram no Afeganistão, como você sabe", comentou.
“Para cada dois americanos que pagaram o preço máximo, houve um soldado de outro país da Otan que não voltou para sua família. Isso é importante. Me dói saber que você pensa o contrário", destacou Rutte.
Parlamentares britânicos criticam Trump
Parlamentares britânicos de todo o espectro político também se indignaram com os comentários de Trump.
“O Artigo 5 da Otan só foi acionado uma vez. O Reino Unido e seus aliados da Otan atenderam ao chamado dos EUA. E mais de 450 militares britânicos perderam a vida no Afeganistão”, disse o secretário de Defesa do país, John Healey.
“Esses soldados britânicos devem ser lembrados por quem foram: heróis que deram suas vidas a serviço da nossa nação", adicionou.
Emily Thornberry, presidente da Comissão de Relações Exteriores, afirmou que os comentários de Trump foram um "insulto absoluto", enquanto Kemi Badenoch, líder do Partido Conservador, da oposição, os chamou de "um completo absurdo", destacando que o sacrifício dos aliados "merece respeito, não descrédito".



