Trump mira a América Latina e tarifaço amplia disputa por influência
Fora da Ordem debate como as tarifas impostas pelos EUA integram estratégia de dominância política e econômica sobre a região
As tarifas impostas pelo governo do presidente americano, Donald Trump, vão além das relações comerciais e podem integrar uma estratégia mais ampla dos EUA para ampliar sua influência política e econômica sobre a América Latina.
É o que avaliam Américo Martins, Lourival Sant'Anna e Mauricio Moura, professor da Universidade George Washington, no videocast Fora da Ordem.
Segundo os analistas, documentos oficiais do governo americano, como a nova doutrina de segurança nacional e a doutrina de defesa, deixam explícito o desejo dos Estados Unidos de exercer "ascendência total sobre a América Latina", tratando o hemisfério ocidental como área primordial de sua esfera de influência.
A Casa Branca também teria demonstrado esse interesse ao declarar apoio a candidatos em diversos países da região.
Trump e as tarifas como instrumento geopolítico
O analista de internacional da CNN Brasil, Lourival Sant'Anna, destacou que Donald Trump defende o uso de tarifas há mais de 40 anos, desde quando emergiu como figura pública nos anos 1980.
"Ele compara o mercado americano a uma loja de departamentos e diz que as marcas que querem estar presentes nessa loja precisam pagar por isso", explicou.
Para Lourival, Trump também enxerga as tarifas como um substituto da guerra, uma forma de conflito comercial que evita o confronto militar direto, algo previsto nos manuais de geopolítica.
O analista acrescentou que a visão de Trump é marcada por uma nostalgia do período pré-globalização, quando os Estados Unidos eram uma potência industrial.
A transição para uma economia de serviços e tecnologia teria beneficiado parte da sociedade, mas prejudicado o trabalhador sem ensino superior — o chamado "blue collar" —, que representa a base eleitoral de Trump. As tarifas, nesse contexto, serviriam tanto a objetivos econômicos quanto políticos internos.
Negociações do Reino Unido, Japão e União Europeia
Lourival detalhou como diferentes países reagiram ao tarifaço americano.
O Reino Unido foi o primeiro a negociar, logo após o anúncio das tarifas em 2 de abril. Apesar das críticas de Trump ao governo de Keir Starmer, o país optou por uma abordagem discreta: ofereceu zerar tarifas sobre o etanol americano e ampliar a compra de carne dos Estados Unidos — de mil para 13 mil toneladas — em troca de manter uma cota de 100 mil automóveis exportados com tarifa zero e da redução das tarifas gerais de 25% para até 15%.
"O acordo foi fechado em maio, no mês seguinte, e não teve tarifaço para o Reino Unido", afirmou.
O Japão seguiu caminho semelhante, conseguindo reduzir a tarifa de 24% para 15% e mantendo a exportação de automóveis para os Estados Unidos.
A União Europeia também obteve redução, de 25% para 15%, embora tenha sido criticada internamente por líderes como Emmanuel Macron por não ter exigido reciprocidade em alguns pontos das negociações.
Américo Martins ressaltou que países europeus carregam outras vulnerabilidades na relação com Washington, como o temor de um eventual abandono americano da Otan, o que os torna mais suscetíveis às pressões dos Estados Unidos.
Brasil diante da imprevisibilidade da Casa Branca
No caso do Brasil, Lourival apontou que os Estados Unidos elaboraram uma lista de exceções para produtos que não conseguem adquirir de outros países.
No entanto, os demais itens sujeitos à tarifa de 25%, que pode chegar a 37,5% por conta de cláusulas relativas a condições de trabalho, serão substituídos por compras de países que já negociaram com Washington.
"Ele vai trocar. E a gente vai deixar de vender", alertou.
Mauricio Moura, por sua vez, destacou a dificuldade de compreender o processo decisório da Casa Branca.
Segundo ele, as decisões são tomadas por um grupo muito pequeno, concentradas no Salão Oval, com os demais integrantes do governo sendo apenas informados posteriormente.
"O grau de imprevisibilidade que vem dessa Casa Branca é muito alto, mesmo para quem trabalha nela", afirmou.
Moura citou o caso da Venezuela como exemplo dessa dinâmica, em que Marco Rubio teria ficado de fora das decisões sobre a tentativa de captura de Nicolás Maduro.
Para o professor, conectar uma estratégia maior para a América Latina com as decisões específicas do cotidiano da Casa Branca "é um grande desafio que ninguém consegue compreender plenamente".


