Trump mira agenda de campanha mais leve de Biden antes do primeiro debate

CNN Brasil transmitirá o primeiro debate entre os candidatos nas eleições dos Estados Unidos na próxima terça-feira (29), às 22 horas

Eric Bradner e Donald Judd, da CNN

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O primeiro debate entre Joe Biden e Donald Trump será moderado por Chris Wallace, da Fox News, e está marcado para a próxima terça-feira, 29 de setembro, na Universidade Case Western Reserve, na cidade de Cleveland, em Ohio. Os brasileiros poderão acompanhar o encontro entre os dois candidatos por meio da CNN Brasil. Realizado na cidade de Cleveland, em Ohio, o debate começa às 22h00, no horário de Brasília. A transmissão acontecerá pela TV, pelo site e pelo canal CNN Brasil no YouTube.

Às 9h20 da manhã de quinta-feira (24), a campanha de Joe Biden avisou que a agenda do dia estava limpa, informando aos repórteres que o candidato democrata à presidência não faria nenhuma aparição pública pelo resto do dia.

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Não foi uma surpresa: Biden disse aos jornalistas no dia anterior que iria dedicar a quinta-feira à preparação de seu primeiro debate com o presidente Donald Trump.

Mas isso significava que Biden ficaria à margem das notícias enquanto a nação irrompia em polêmica, com uma cadeira na Suprema Corte em jogo; protestos generalizados contra a polícia devido à não acusação pelos responsáveis pela morte de Breonna Taylor em Louisville, Kentucky; e Trump se recusando a se comprometer com uma transição pacífica de poder caso perca em novembro.

Foi um contraste drástico com Trump, que viajou para Charlotte, Carolina do Norte, na tarde de quinta-feira para fazer um discurso focado no sistema de saúde e depois para Jacksonville, Flórida, para um comício.

Em Jacksonville, na mesma noite, Trump zombou de Biden por limpar a agenda.

“Supondo que ele nunca faça campanha e ganhe, sabe o quanto vou me sentir mal? Estou trabalhando muito, e é preciso trabalhar muito”, disse Trump sobre Biden.

Trump e os republicanos tentaram aproveitar a programação relativamente escassa de Biden, acusando-o de se esconder em seu porão, onde sua campanha nos primeiros dias da pandemia montou uma câmera para que ele pudesse transmitir eventos ao vivo e se posicionar para entrevistas. Alguns candidatos e funcionários democratas de estados indecisos reclamaram em particular que a falta de eventos de Biden e a decisão de sua campanha de evitar a habitual campanha batendo de porta em porta colocaram o partido em desvantagem.

No entanto, os assessores de Biden argumentam que o ex-vice-presidente está sendo um modelo do comportamento que as autoridades de saúde pública aconselham na pandemia – e que os eleitores darão a ele o crédito por uma abordagem responsável.

Uma olhada em sete dias de programações de campanha para Biden e Trump (de segunda a domingo) ressalta suas abordagens divergentes: Biden está objetivando metodicamente os eleitores indecisos, mas prefere acompanhar as novas notícias silenciosamente enquanto se prepara nos bastidores para grandes momentos, como o debate. A tática de Trump de estar em todos os lugares o coloca em campanha quase todos os dias, tornando-o um personagem dominante no noticiário. Mesmo assim, muitas vezes sua mensagem acaba diluída, que ele cria e alimenta controvérsias na frente de multidões, ignorando amplamente as orientações de saúde pública em meio à pandemia de coronavírus.

Donald Trump, em Jacksonville, na Flórida
Donald Trump, em Jacksonville, na Flórida
Foto: Tom Brenner/Reuters

Nessa janela de sete dias, Biden fez duas viagens fora de seu estado, Delaware – e sua campanha ainda não disse se outras estão planejadas. Na segunda-feira (21), ele visitou Manitowoc, perto de Green Bay, Wisconsin (uma região onde a campanha de Biden espera reconquistar eleitores que apoiaram o ex-presidente Barack Obama em 2008 e 2012, mas Trump em 2016) para passar uma mensagem focada na classe trabalhadora e criticar o histórico econômico de Trump.

No dia seguinte, ele estava em casa, em Wilmington, participando de eventos virtuais de arrecadação de fundos. Na quarta-feira, Biden visitou Charlotte, na Carolina do Norte, para uma cúpula econômica com donos de pequenas empresas, educadores e trabalhadores negros. Foi um esforço para se aproximar dos eleitores de base democrata em um estado que já começou a votar pelo correio.

Tanto em Wisconsin quanto na Carolina do Norte, Biden também deu entrevistas a três estações de notícias de televisão locais, mas não respondeu a perguntas da imprensa nacional que viaja com sua campanha.

Na quinta-feira, ele disse a repórteres que estava se preparando para o debate com Trump em sua casa em Wilmington, Delaware. Depois de quinta-feira à noite, a única viagem adicional que sua campanha anunciou no fim de semana foi uma para Washington, DC, na sexta-feira (25), para o velório da juíza da Suprema Corte Ruth Bader Ginsburg.

Já faz tempo que a campanha de Biden deixou claro que está disposta a resistir às zombarias sobre sua agenda pública e não acha que o ex-vice-presidente precisa responder a todos os ataques de Trump ou se posicionar como um ator importante em todas as notícias nacionais.

Em vez disso, assessores disseram que a campanha buscou oportunidades para transmitir uma mensagem que alcance e apele a eleitores indecisos em regiões-chave (como seu discurso econômico em Wisconsin e outros eventos recentes focados na indústria automobilística em Michigan; os veteranos em Tampa; e os eleitores hispânicos em Orlando) sem diluir ou desviar a atenção dessa mensagem.
Justin Nickels, o prefeito democrata de Manitowoc, Wisconsin, que se encontrou com Biden quando ele visitou a cidade no começo da semana, disse que conhecia democratas que gostariam de comparecer a um comício de campanha pessoalmente. No entanto, eles entendiam que a pandemia havia tornado impossível a programação normal da campanha presidencial, que geralmente inclui vários grandes comícios por dia ao longo do outono.

“Eu fui a um jogo do Packer todos os anos de minha vida e este ano não posso. Estou decepcionado, mas pelo menos sei que posso assistir na TV. E essa é provavelmente a melhor analogia para Wisconsin agora”, afirmou o prefeito.

Os assessores argumentaram que modelar o comportamento recomendado por especialistas em saúde pública durante a pandemia (manter os eventos pequenos e socialmente distantes) é importante para os eleitores.

“Os eventos supercontagiantes de Donald Trump servem apenas para confirmar aos eleitores que Trump ainda se recusa a levar a pandemia a sério, mesmo depois de ela tirar 200 mil vidas de norte-americanos e destruir nossa economia”, disse o porta-voz de Biden, Michael Gwin. “Enquanto Trump brinca de política com nossa saúde, Joe Biden está mostrando ao povo norte-americano como ele lideraria como presidente: ouvindo os especialistas, agindo com responsabilidade e fazendo tudo ao seu alcance para controlar o vírus”.

A campanha de Trump respondeu observando que a viagem de campanha de Biden é uma mudança relativamente recente. Biden esteve fora dos compromissos presenciais típicos de campanha desde o início da pandemia em meados de março até a Convenção Nacional do Partido Democrata no final de agosto.

“Se se encontrar com norte-americanos em todo o país não fosse importante, por que os assessores de Joe Biden decidiram de repente que o candidato deveria de vez quando deixar seu porão para ver os eleitores?”, perguntou Courtney Parella, porta-voz da campanha de Trump.

Enquanto isso, Trump está muito mais visível. Na segunda-feira (21), ele visitou Ohio; na terça, a Pensilvânia; na quinta-feira, a Flórida e a Carolina do Norte. Ele deve passar por Virgínia, Geórgia, Flórida e Pensilvânia nos próximos três dias.

Os republicanos disseram que os comícios de campanha com a presença de Trump geram picos no registro de eleitores e no entusiasmo da base do Partido Republicano, o que pode render resultados para o presidente e os candidatos republicanos.

“Campanhas vencedoras inspiram as pessoas”, pontuou Dallas Woodhouse, ex-diretor executivo do Partido Republicano da Carolina do Norte. “Eu acho que você sente que quando Trump faz esses eventos – e ele descobriu um jeito de fazer esses eventos ao ar livre e mais curtos – há uma energia no ambiente”.
Trump usa os comícios para, frequentemente, atacar Biden. Mas o presidente também costuma gerar outras controvérsias que acabam colocando os comícios nas manchetes nacionais: na segunda-feira, em Ohio, ele continuou a minimizar o impacto do coronavírus. Na Pensilvânia, no dia seguinte, ele fez um ataque racista ao deputado de Minnesota Ilhan Omar, que nasceu na Somália. Na quarta-feira, ele se recusou a se comprometer com uma transferência pacífica do poder se perder para Biden.

O presidente parece ter como alvo um grupo de eleitores diferente do de Biden: sua própria base, que as pesquisas mostram que é predominantemente branca e consiste em grande parte de homens sem diploma universitário.

Sua abordagem atual para a campanha sugere que ele vê seu caminho para a vitória em 3 de novembro como dependente de maior participação de sua base rural e branca para compensar a erosão entre os eleitores suburbanos, mais velhos e independentes que vem acontecendo desde 2016. Além disso, acredita que a maneira de alcançar esses eleitores é demonstrando força, exibindo multidões lotadas e barulhentas e tendo o avião Air Force One como pano de fundo, apesar da pandemia.

O custo dessa abordagem é que grande parte da cobertura das notícias locais e nacionais dos comícios de Trump se concentrou na realidade de que suas multidões estão muito juntas e, em grande parte, não usam máscaras.

Após um evento em Henderson, Nevada, onde a campanha de Trump ignorou as regras de distanciamento social do estado que proíbem grandes reuniões em locais fechados, a empresa de Nevada que sediou o comício foi multada em US$ 3.000.

A campanha de Trump ignorou em grande parte as críticas de que seus comícios poderiam espalhar o coronavírus.

“O presidente Trump e eu confiamos no povo norte-americano. Nós acreditamos muito nesta nação que ama a liberdade e que o povo norte-americano sabe como cuidar de si mesmo, cuidar de suas famílias, cuidar de seus vizinhos e olhar para o futuro deste país”, disse o vice-presidente Mike Pence à rede de TV ABC na quarta-feira, quando foi questionado sobre os comícios.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

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