Trump testa limites da democracia americana em 2° mandato, diz especialista

Ao Hora H, o professor Carlos Gustavo Poggio analisa vitórias e derrotas de Trump na Suprema Corte e a concentração de poder no Executivo dos EUA

Da CNN Brasil
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O presidente americano, Donald Trump, vem testando os limites da democracia americana em seu segundo mandato, buscando concentrar o máximo de poder possível no Executivo e, em diversas ocasiões, ignorando o Congresso. A avaliação é de Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais especialista em política dos Estados Unidos, ao Hora H.

O segundo mandato de Trump é marcado por uma série de embates com o Judiciário americano, com vitórias e derrotas expressivas diante da Suprema Corte.

Entre as derrotas, destacam-se a permissão para a contagem de votos pelo correio após a data da eleição, a rejeição do plano que restringia a cidadania de imigrantes por nascimento e a limitação do poder presidencial para demitir a diretora do Federal Reserve, o banco central americano.

Vitórias e derrotas na Suprema Corte

Por outro lado, Trump também acumulou vitórias importantes perante a Corte.

Segundo Poggio, a Corte atual "parece muito disposta a ceder poder para o presidente dos Estados Unidos, para o Executivo", observando que a maioria conservadora do Tribunal — composta por seis dos nove membros, muitos deles indicados pelo próprio Trump — tem favorecido uma concentração maior de poder nas mãos do Executivo.

A questão da cidadania por nascimento, no entanto, representa uma derrota particularmente sensível para Trump. "Este é um tema central para a identidade política do Donald Trump e do movimento que o Donald Trump representa, o trumpismo", afirmou Poggio.

O especialista destacou que, após a decisão contrária da Suprema Corte, a Casa Branca já sinalizou nas redes sociais que buscará algum tipo de alteração pelo Congresso — o que ele considera curioso, dado que a atuação de Trump nesse segundo mandato tem sido, em grande medida, a de ignorar o Legislativo, recorrendo frequentemente a ordens executivas que contornam o Congresso, mas que podem ser contestadas pela Suprema Corte.

Agenda conservadora e apelo ao eleitorado

Poggio também analisou a ressonância da agenda conservadora de Trump junto ao eleitorado. Para ele, há temas dessa pauta que encontram aderência para além da base conservadora tradicional.

"A questão de atletas trans em esportes é algo profundamente impopular na opinião pública norte-americana", disse o especialista, acrescentando que esse foi um dos elementos de propaganda mais eficazes da campanha de Trump contra Kamala Harris, com apelo inclusive entre eleitores democratas.

Por outro lado, Poggio alertou que quando Trump "utiliza uma linguagem que resvala muito em questões antidemocráticas, isso tudo pode causar algum tipo de reação".

Influência do trumpismo na América Latina e na Europa

Ao ser questionado sobre a influência do trumpismo na América Latina e na Europa, Poggio fez uma ressalva importante.

Segundo ele, "existe um exagero em atribuir isso a uma influência direta do Donald Trump", pois há elementos muito mais amplos e profundos em jogo. O especialista citou as eleições na Colômbia e no Peru como exemplos de disputas muito mais apertadas do que se previa, relativizando a ideia de uma "onda" conservadora na região.

Na Europa, líderes como Giorgia Meloni, na Itália, Marine Le Pen, na França, e o partido do Brexit, no Reino Unido, que antes estavam alinhados ao trumpismo, buscam agora um certo afastamento. Já na América Latina, figuras como Javier Milei e Jair Bolsonaro mantêm uma aproximação intensa com Trump e com a direita populista.

Para Poggio, esse processo de reorganização é natural à medida que o tempo de Trump no poder se esgota. "Ele vai sair do poder nas próximas eleições e não pode mais ser reeleito. Isso, por si só, cria uma reorganização dessas forças políticas", concluiu o especialista.

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