Vaticano devolve artefatos indígenas ao Canadá após um século

Mais de 60 peças culturais, incluindo um raro caiaque Inuit de pele de foca, retornam às comunidades indígenas

Lex Harvey, da CNN
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Lideranças indígenas aguardavam na pista nevada do Aeroporto Internacional Pierre Elliott Trudeau, em Montreal, no sábado (6), enquanto a preciosa carga era descarregada de um avião da Air Canada.

As caixas continham mais de 60 valiosos artefatos culturais, incluindo um raro caiaque Inuit feito de pele de foca, que foram retirados das comunidades First Nations, Inuit e Métis há mais de um século e permaneceram desde então nos museus e cofres do Vaticano.

O emocionante retorno, mostrado em imagens da CBC News, afiliada da CNN, representa o ápice de uma incansável campanha de três anos conduzida por líderes indígenas, que foi endossada pelo papa Francisco antes de sua morte, na esteira de seu histórico pedido de desculpas pelos abusos cometidos nas escolas residenciais religiosas do Canadá.

A repatriação dos artefatos ocorre em um momento em que museus ao redor do mundo têm devolvido cada vez mais itens de suas coleções que foram roubados ou potencialmente adquiridos de forma antiética aos seus países de origem.

A Chefe Nacional das First Nations, Cindy Woodhouse Nepinak, celebrou o retorno dos artefatos como um "momento importante e emotivo para muitas First Nations em todo o país" durante uma coletiva de imprensa no sábado (6).

Mas ela reconheceu que o longo projeto de reconciliação continua.

"Percorremos um longo caminho, e ainda temos muito a percorrer."

Origens questionadas

Não há um inventário público dos bens repatriados, que representam uma pequena parte dos milhares de objetos indígenas da era colonial mantidos no Vaticano.

Mas entre os 62 artefatos está um caiaque Inuvialuit de pele de foca do Ártico ocidental, que foi o último a ser retirado do avião em sua própria caixa de carga, segundo informou a CBC.

Os artefatos foram inicialmente levados a Roma para serem exibidos na Exposição das Missões do Vaticano de 1925, uma exposição de 13 meses que promovia a influência da Igreja ao redor do mundo e atraiu milhões de visitantes.

O Vaticano há muito tempo afirma que os itens foram presenteados ao papa Pio XI, que liderou a Igreja a partir de 1922, mas isso tem sido contestado pelos povos indígenas do Canadá.

A coleção de artefatos indígenas da igreja foi compilada em uma época em que a identidade dos povos indígenas do Canadá estava sendo apagada, através de legislação que proibia práticas culturais e impunha a frequência obrigatória em escolas residenciais religiosas projetadas para "matar o indígena dentro da criança."

Dado este contexto, "é altamente contestável que isso tenha sido uma verdadeira "doação" de itens", disse Cody Groat, Professor Assistente de História e Estudos Indígenas da Universidade Western do Canadá, em um e-mail à CNN na segunda-feira.

Os apelos pela repatriação dos artefatos começaram a ganhar força em 2022, quando um grupo de delegados First Nations, Inuit e Métis visitou Roma para conversas há muito esperadas com Francisco sobre os abusos históricos nas escolas residenciais.

Aquela viagem foi seguida pela "peregrinação penitencial" de Francisco ao Canadá, na qual ele pediu desculpas pelo "mal cometido por tantos cristãos contra os Povos Indígenas."

O falecido pontífice havia se comprometido a devolver as relíquias, mas seu destino acabou nas mãos de seu sucessor, o papa Leão XIV.

O retorno ao lar

A Santa Sé e a Conferência dos Bispos Católicos do Canadá anunciaram no mês passado que os itens, junto com sua documentação, seriam "presenteados" pelo papa Leão XIV de volta às comunidades indígenas, chamando isso de "a conclusão da jornada iniciada pelo papa Francisco."

Groat disse que é "promissor ver (Leão) tomando uma ação tão significativa no início de seu papado, esperançosamente estabelecendo as bases para relações renovadas entre a Igreja Católica e os povos indígenas, tanto no Canadá quanto globalmente."

Os artefatos serão agora examinados no Museu Canadense de História em Gatineau, Quebec, próximo a Ottawa, antes que líderes indígenas encontrem novos locais para eles, informou a CBC.

"Estamos ansiosos para poder desembalar os itens nos próximos dias e ter lideranças e especialistas Inuit para entender exatamente de onde esses itens vêm em cada uma de nossas comunidades e compartilhar esse conhecimento não apenas com os Inuit canadenses, mas também com o Canadá como um todo", disse Natan Obed, Presidente do Inuit Tapiriit Kanatami, em uma coletiva de imprensa.

O retorno dos artefatos é profundamente significativo para muitos povos indígenas no Canadá, que veem os objetos como "ancestrais culturais com sensibilidade ou vida própria", disse Groat.

"Esses ancestrais culturais agora podem se reunir às nossas comunidades e ajudar na continuidade e revitalização de nossas práticas culturais", acrescentou.

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