Vice dos EUA diz que o papa deveria "ter cuidado" ao falar de teologia

Comentários de Vance acontecem em meio à crise entre o presidente americano, Donald Trump, e Leão XIV

Da Reuters
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O vice-presidente dos EUA, JD Vance, enfrentou vaias durante um discurso em um evento do Turning Point USA nesta terça-feira (14), onde afirmou que o papa Leão XIV deveria "ter cuidado ao falar sobre assuntos de teologia".

Os comentários de Vance acontecem após o papa ter feito críticas à guerra entre EUA e Israel contra o Irã nas últimas semanas.

O discurso do vice-presidente americano foi interrompido por um membro da plateia que gritou: "Jesus Cristo não apoia o genocídio".

Vance defendeu os esforços do governo atual para garantir um cessar-fogo em Gaza.

"Quando chegamos, a situação humanitária em Gaza era uma catástrofe absoluta", respondeu o vice-presidente americano.

"Sabe quem conseguiu um acordo de paz em Gaza? Donald J. Trump. Então, se o senhor quer reclamar do que aconteceu em Gaza, por que não reclama de Joe Biden e do governo anterior por terem resolvido esse problema?”, afirmou.

Leão XIV disse à Reuters na segunda-feira (13) que planejava continuar criticando a guerra, apesar dos comentários do presidente Donald Trump.

Na terça-feira, o papa disse que a Igreja Católica ensina que o poder não pode ser visto como um fim em si mesmo, "mas como um meio ordenado para o bem comum".

Vance elogia papa, mas rebate críticas à guerra

O vice-presidente afirmou, durante o evento, que embora tenha ficado frustrado" ao ver alguns membros do clero católico criticarem as políticas dos EUA, ele ainda gosta e admira o pontífice.

"Eu gosto até mesmo quando há discordância. Gosto quando o papa comenta sobre questões de imigração, gosto quando o papa fala sobre aborto, gosto quando o papa fala sobre assuntos de guerra e paz, porque acho que, no mínimo, isso convida a uma conversa", disse Vance.

Ele acrescentou que "certamente há coisas que o papa disse nos últimos meses com as quais discordo".

O vice-presidente mencionou a publicação do papa Leão XIV nas redes sociais na semana passada, que fazia alusão à guerra com o Irã.

“Qualquer discípulo de Cristo, o Príncipe da Paz, jamais estará do lado daqueles que outrora empunharam a espada e hoje lançam bombas”, escreveu o papa.

“Por um lado, mais uma vez, admiro o fato de o papa ser um defensor da paz. Creio que esse seja certamente um de seus papéis”, disse Vance.

“Por outro lado, como se pode afirmar que Deus jamais está do lado daqueles que empunham a espada? Deus estava do lado dos americanos que libertaram a França dos nazistas? Deus estava do lado dos americanos que libertaram os campos de concentração e resgataram aqueles inocentes sobreviventes do Holocausto? Certamente, acredito que sim”, acrescentou o vice-presidente dos EUA.

Entenda a crise entre Tump e o papa Leão XIV

Na noite de domingo (12), Donald Trump fez uma longa publicação nas redes sociais criticando diretamente o papa Leão XIV.

O presidente começou o texto afirmando que o pontífice "é fraco no combate ao crime e péssimo em política externa".

Além disso, ele citou a pandemia de Covid-19, alegando que a Igreja Católica e outras organizações cristãs "prenderam" padres, pastores e outros indivíduos por realizarem cultos "mesmo ao ar livre, mantendo distanciamento social" -- sem apresentar provas ou dar detalhes.

Trump ainda citou Louis, irmão de Leão XIV, comentando que ele seria apoiador de seu governo e que entenderia as políticas adotadas por sua administração.

Em outro trecho da publicação, Trump diz que "não quer" um papa que "ache normal o Irã ter armas nucleares". O líder da Igreja Católica já falou contra a guerra no Irã anteriormente, pedindo pela paz e fim da violência.

A principal justificativa do governo americano para o início da guerra é a alegação de que o Irã estaria buscando construir armas nucleares, algo que as autoridades iranianas negam.

Além disso, o presidente afirmou que não quer "um papa que ache terrível que os Estados Unidos tenham atacado a Venezuela", renovando acusações de que o país latino-americano enviaria presidiários para os EUA.

Anteriormente, Leão XIV havia pedido que os Estados Unidos não usassem força militar contra Maduro. Após a operação que capturou o ditador, o pontífice pediu respeito aos direitos humanos e ao Estado de Direito "conforme consagrado" na Constituição da Venezuela.

"E eu não quero um papa que critique o presidente dos Estados Unidos, porque estou fazendo exatamente aquilo para o qual fui eleito", adicionou Trump.

O presidente dos EUA ainda alegou que Leão XIV só foi eleito papa por ser americano e que, no entendimento dos líderes católicos, essa seria "a melhor maneira de lidar" com Trump.

"Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano", disse.

Por fim, Donald Trump ainda acusou o pontífice de "ceder à esquerda radical".

"Leão deveria se comportar como papa, usar o bom senso, parar de ceder à esquerda radical e se concentrar em ser um Grande Papa, não um político", concluiu.

Após as críticas de Donald Trump, o papa afirmou à agência Reuters que vai continuar se manifestando contra a guerra e que não quer "entrar em debate" com o líder americano.

"Não acho que a mensagem do Evangelho deva ser deturpada da maneira como algumas pessoas estão fazendo", destacou o pontífice.

"Continuarei a me manifestar veementemente contra a guerra, buscando promover a paz, o diálogo e as relações multilaterais entre os Estados para encontrar soluções justas para os problemas", disse ele, falando em inglês.

Mais tarde, em um discurso na Argélia, ele pediu aos líderes do país que construam uma sociedade baseada nos princípios da justiça e da solidariedade.

"Hoje, isso é mais urgente do que nunca diante das contínuas violações do direito internacional e das tendências neocoloniais".

(Com informações de Donald Judd, da CNN)