Empresário japonês gasta US$ 10 milhões em uma Birkin e diz como se sente
Em sua primeira grande entrevista após o leilão histórico, Shinsuke Sakimoto detalha como arrematou a bolsa original da Hermès por US$ 10,1 milhões

A venda recorde da bolsa Birkin original da Hermès está entre os leilões mais notáveis dos tempos modernos.
No mês passado, uma disputa entre nove compradores começou com uma oferta de 1 milhão de euros (cerca de R$ 6,4 milhões), que instantaneamente a tornou a bolsa mais cara de todos os tempos. Quando os lances atingiram 6 milhões de euros (cerca de R$ 38 milhões), aplausos espontâneos ecoaram pela tradicionalmente discreta sala de vendas da Sotheby's em Paris. Após o martelo do leiloeiro bater em 7 milhões de euros (cerca de R$ 45 milhões) — significando que, após as taxas, um comprador anônimo ao telefone pagaria o equivalente a US$ 10,1 milhões (cerca de R$ 55 milhões) pela bolsa — vivas irromperam.
Do outro lado do telefone, a mais de 9.600 quilômetros de distância, o empresário japonês Shinsuke Sakimoto estava processando a audácia do que acabara de fazer.
"Foi a compra mais cara que já fiz por um único item", disse Sakimoto, CEO da empresa de revenda de luxo Valuence Holdings, em sua primeira grande entrevista desde a venda histórica. "Foi muito emocionante, mas realmente me deixou com o estômago embrulhado."
O negócio de Sakimoto é — pelo menos em parte — bolsas usadas. As que sua empresa revende podem custar consideravelmente menos que a Birkin original, mas frequentemente são vendidas por milhares de dólares. No entanto, aos 43 anos, ele é um pretendente improvável para um dos artefatos mais cobiçados da moda, um protótipo desenhado para a falecida "it-girl" inglesa Jane Birkin, que desde então se tornou um ícone do luxo.
Ex-jogador da primeira divisão do futebol japonês, Sakimoto participou de alguns jogos profissionais antes de ser dispensado por seu clube e se aposentar aos 22 anos. Ele abriu sua primeira loja de revenda de luxo em Osaka em 2004, tendo trabalhado anteriormente no negócio de artigos usados de seu pai, antes de fundar a Sou (que se tornaria Valuence) sete anos depois.
Sakimoto mantém uma competitividade que atribui ao seu passado esportivo. Relembrando os 10 minutos de leilão em seu escritório em Tóquio, ele repetidamente descreveu outros participantes como "aite" (oponente) e "teki" (inimigo). Mesmo quando os lances se aproximavam de seu limite de preço, ele orientou sua representante ao telefone a contra-atacar imediatamente as ofertas de seus rivais. "Responda em três ou cinco segundos", lembrou ter dito a ela. "Eu tinha que ser agressivo."
"Estávamos quase no limite superior, mas naqueles poucos minutos estávamos planejando como infligir danos psicológicos aos nossos oponentes e forçá-los a desistir."
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Investimento de longo prazo
Na noite anterior ao leilão, Sakimoto sonhou duas vezes que dava o lance vencedor. "Entramos nesse processo com muita fé", disse ele. "E, de certa forma, fomos escolhidos pelos deuses da moda para possuir a primeira Birkin."
Mas apesar do romantismo dos sonhos que se tornaram realidade, isso foi muito mais um investimento.
Compras de alto perfil em leilões são a mais recente estratégia milionária no manual de relações públicas corporativas (veja o empresário de criptomoedas Justin Sun comprando a infame obra de arte da banana de Maurizio Cattelan por US$ 6,2 milhões, antes de comê-la, no ano passado). Afinal, a proprietária da histórica Birkin é tecnicamente a Valuence, não seu CEO, e a avaliação da empresa é baseada em retornos.
Sakimoto estima que a publicidade resultante do leilão do mês passado gerará "vários bilhões de ienes" — ou, em dólares, uma soma de oito dígitos — em "valor publicitário" ao longo da próxima década.
"Era certo que o lance vencedor quebraria o recorde, o que significava que seria noticiado em todo o mundo", disse ele, fazendo pouca tentativa de idealizar seu motivo. "Todos concordaram e entenderam que este era um bom investimento."
Ao mesmo tempo, Sakimoto parece comprometido em conservar esta peça da história da moda. A Valuence insiste que, diferentemente do resto de seu inventário de luxo, esta Birkin não será recolocada à venda. Na verdade, provavelmente será uma despesa contínua: A empresa estima que outras taxas, como envio e impostos de importação, acrescentarão mais 300 milhões de ienes (cerca de US$ 2 milhões) ao seu investimento inicial de US$ 10,1 milhões.
Embora os planos exatos ainda não tenham sido revelados, a empresa espera colocar sua nova bolsa em exposição pública. Milhares de visitantes vieram vê-la quando foi exibida pela Sotheby's em Nova York e antes do leilão do mês passado. A peça já foi anteriormente exibida no Museu de Arte Moderna de Nova York e no Museu Victoria & Albert de Londres.
"O propósito de adquirir esta obra de arte não é torná-la propriedade pessoal dos ricos, mas criar um novo modelo de propriedade — para que empresas como a nossa e a sociedade possam compartilhar, juntas", disse Sakimoto, acrescentando: "Queremos preservá-la para o futuro e compartilhá-la com todos."
Ícone de estilo
A lenda do protótipo não se resume apenas ao ícone de luxo que originou, mas à história de sua criação.
A própria Birkin concebeu o design durante um encontro casual com o presidente da Hermès, Jean-Louis Dumas, em um voo para Londres em 1984. Depois que seus pertences caíram de sua Kelly (uma das bolsas anteriores da casa, popularizada por Grace Kelly) no chão do avião, a atriz e ícone de estilo sugeriu um design maior e menos estruturado.
"Eu disse: "Por que você não faz uma bolsa que seja mais ou menos quatro vezes a Kelly, que você possa deixar aberta?"", ela contou a Christiane Amanpour da CNN em 2020. Dumas pediu que ela desenhasse, então ela esboçou uma ideia de uma bolsa de tamanho generoso em um saco de enjoo do avião.
A Hermès atendeu ao pedido e entregou a primeira das bolsas à Birkin. Enquanto o estilo posteriormente se expandiria em cores e materiais, a dela foi construída com couro preto simples e gravada com as iniciais "J.B." Também apresentava um pequeno cortador de unhas de prata pendurado na alça de ombro, já que Birkin gostava de manter suas unhas bem aparadas, segundo a Sotheby's. A atriz, que faleceu em 2023, afirmou ter usado a bolsa quase todos os dias de 1985 a 1994, quando a vendeu em benefício da pesquisa sobre AIDS.
Sakimoto admite não ser um "fã" de longa data da Birkin. Mas o empresário disse que viu paralelos entre sua missão e a dela.
"Quanto mais eu pesquisava sobre a vida e postura de Jane Birkin, mais eu percebia como ela era fascinante", disse ele. "Senti que tenho uma conexão muito forte com essas pessoas e seu papel como embaixadores ou evangelistas, que realmente combinam com a filosofia empresarial da nossa empresa."
Essa filosofia está firmemente centrada na circularidade. A Valuence afirma que seus negócios de revenda e reutilização evitaram, apenas no último ano, 5,3 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono e mais de 70 bilhões de galões de desperdício de água ao reduzir a demanda por novas roupas, joias e artigos de luxo.
Então, que melhor talismã empresarial do que uma bolsa de 41 anos que permanece em condições de uso apesar dos anos de uso diário?


