Escola de Arte Bezalel ajudou judeus a escaparem do nazismo, diz pesquisa
Arquivos recém-descobertos mostram que diversos estudantes se candidataram como forma de fuga

Por semanas, meses e até anos antes da Segunda Guerra Mundial eclodir em setembro de 1939, muitos judeus na Alemanha e além temeram cada vez mais por suas vidas e buscaram freneticamente maneiras de fugir.
Agora, mais de 80 anos após o fim da guerra, um incrível conjunto de documentos de uma prestigiada escola de arte foi descoberto, contendo fotografias, cartas detalhadas e amostras de obras de arte de quase 100 candidatos que esperavam escapar do nazismo.
A aceitação na Escola de Arte Bezalel (hoje Academia Bezalel de Artes e Design), fundada inicialmente em 1906, às vezes dava aos judeus que fugiam do nazismo a possibilidade de entrar na Palestina, cuja imigração era rigidamente controlada sob o governo britânico.
Apenas uma fração daqueles que se candidatavam era aceita, e, entre esses, ainda menos conseguiam realizar a formação.
Os documentos foram descobertos nas prateleiras dos arquivos municipais de Jerusalém em 2022 por funcionários do arquivo da Bezalel que pesquisavam a história da instituição. O que eles encontraram os surpreendeu: dezenas de candidaturas detalhadas datando da década de 1930 que nunca haviam sido digitalizadas ou sequer pesquisadas.
Eles entraram em contato com o Yad Vashem, o Centro Mundial de Memória do Holocausto em Jerusalém, na esperança de preservar evidências do que, para muitos, acabou sendo uma última tentativa desesperada de encontrar um refúgio seguro.
Os pesquisadores da instituição começaram a investigar os candidatos, comparando detalhes do arquivo com informações em seus extensos bancos de dados.
"É muito, muito especial encontrar uma coleção tão grande que não foi tocada ou pesquisada antes", disse Orit Noiman, chefe da iniciativa "Reunindo os Fragmentos" do Yad Vashem, que coleta, preserva e cataloga artefatos da era do Holocausto de coleções pessoais. Embora alguns tenham sobrevivido, "a maioria dos candidatos que analisamos até agora foi morta", explicou ela em uma videochamada.
As candidaturas vieram de toda a Europa, incluindo Amsterdã, Berlim, Viena, Praga e Łódź. A maioria data dos anos 1930, embora vários tenham sido redigidos durante e até mesmo após a guerra.
Não está claro como os documentos foram parar nos arquivos, localizados na prefeitura de Jerusalém, mas Noiman acredita que eles podem ter sido acidentalmente deixados para trás quando Bezalel mudou de lugar em 1990.
Noiman acredita que os portfólios submetidos indicam que, embora alguns aspirantes a artistas tenham se candidatado, muitos o fizeram não por um desejo de seguir carreira na arte, mas por sua esperança desesperada de fugir dos nazistas.
"Eles podem ter sabido como pintar ou fazer algo com as mãos, mas não eram realmente artistas. Está claro que queriam tentar encontrar uma saída", completou ela.
Um quadro mais completo é traçado a partir de outro elemento: uma série de correspondências entre o então diretor de Bezalel, Josef Budko, a Agência Judaica e outras organizações que esperavam facilitar um resgate em larga escala de judeus perseguidos. "Há cartas de Budko que mostram que eles tentaram encontrar maneiras de ajudar esses jovens", disse Noiman.
Lital Spivak e Neta Eran-Cohen foram as duas pesquisadoras de Bezalel que fizeram a descoberta. "Ambas ficamos atônitas e profundamente comovidas", disse Spivak, agora historiadora de arte trabalhando em um doutorado na Universidade Hebraica de Jerusalém que incorporou a pesquisa, em um e-mail à CNN.
Lital detalhou as correspondências, mostrando Budko tentando obter certificados de imigração, bem como apoio financeiro para candidatos aceitos — o que em muitos casos se mostrou bem-sucedido.
Spivak disse que o arquivo continha 88 arquivos pessoais, mas que cerca de 40 outras pessoas foram mencionadas na correspondência de Budko. Um total de 49 candidatos foi aceito, disse ela, mas apenas 27 conseguiram viajar para Jerusalém para estudar na escola europeia.
"Outros emigraram para diferentes lugares, alguns nunca receberam suas cartas de aceitação devido a interrupções do tempo de guerra, e vários não conseguiram sair da Europa e foram posteriormente assassinados", disse ela.
O professor Adi Stern, atual presidente de Bezalel e filho de um sobrevivente do Holocausto, disse que a revelação o tocou em um nível pessoal. "Mesmo que esse empreendimento tenha salvado a vida de apenas algumas dezenas de pessoas, elas eventualmente cresceram para centenas e até milhares de famílias, então é muito significativo", comentou.
Com base na pesquisa recém-compartilhada, abaixo a CNN reuniu algumas das histórias dos candidatos.
Alice e Susanne Fall

Alisa Stern sempre soube que sua tia Alice tinha sido uma artista. Sua mãe, Susanne, costumava falar sobre a irmã mais velha e pendurou algumas de suas fotos na casa da família em Israel.
Mas foi apenas em 2022, após a descoberta de um conjunto de documentos e oito décadas depois de Alice Fall ter perecido no Gueto de Łódź, que Stern descobriu que ela havia se candidatado à Bezalel quando estava alocada na Tchecoslováquia ocupada pelos nazistas.
Inesperadamente, os arquivos também incluíam uma candidatura da mãe de Alisa. A dupla se candidatou de sua cidade natal, Moravská Ostrava, assinando seus formulários em 14 de julho de 1939. A inscrição de Susanne incluía pinturas de dois cães, mas ela suspeita que foram feitas, na verdade, por Alice.
"Minha mãe não sabia pintar. Yad Vashem me disse que não há possibilidade de os arquivos terem sido trocados, então provavelmente foi uma maneira de ajudar minha mãe a ser aceita", declarou.
Ambas as irmãs foram rejeitadas. Em 1941, Alice foi deportada com seu marido para Łódź. Em 1943, Susanne e a mãe delas foram deportadas para Theresienstadt, onde permaneceram até o fim da guerra. Ela chegou à Palestina em 1947, de acordo com sua filha, que se sentiu chocada ao descobrir as novas informações.
"Pensar sobre como seria a situação se elas tivessem sido aceitas é chocante — tudo teria sido diferente", lamentou ela.
Eva Israel
Eva Israel se candidatou de sua casa em Viena em agosto de 1938, quando tinha 17 anos. Sem recursos para pagar a postagem, ela enviou sua candidatura junto a um amigo que estava emigrando para a Palestina.
Bezalel enviou-lhe uma aceitação em 25 de outubro de 1938, apenas semanas antes da Kristallnacht. A Agência Judaica concordou em cobrir as taxas impostas pelas autoridades britânicas e um certificado de entrada foi enviado no início de 1939.
Mas a história não terminou feliz ali, pois ela foi forçada a deixar a capital austríaca e retornar ao lar de sua família na Hungria. Budko escreveu urgentemente ao cônsul britânico pedindo que a permissão fosse encaminhada para Budapeste. Ela chegou em 16 de março, apenas duas semanas antes de expirar.
Por um triz, ela conseguiu embarcar em um navio e chegou a Haifa em 29 de março. Embora ela tenha se matriculado na escola, não durou muito tempo, pois não tinha recursos financeiros e não conseguiu entrar em contato com sua família.
A pasta de inscrição de Israel continha documentos e cartas, mas nenhuma imagem ou obra de arte, já que estas provavelmente foram devolvidas a ela assim que o cruso começou, de acordo com o Yad Vashem.
Helmut Paskusz

O estudante de medicina e artista Helmut Paskusz se inscreveu no final de julho de 1939. Originalmente de Brno, Tchecoslováquia, ele havia trabalhado como caricaturista e ilustrador de jornal e queria estudar artes gráficas aplicadas. Seu portfólio incluía designs para anúncios de cigarros e óculos de sol.
Ele foi rejeitado em 31 de agosto de 1939, um dia antes do início do conflito mundial. Budko mencionou Paskusz pelo nome em uma carta para a Agência Judaica, dizendo que lamentava não ter conseguido ajudá-lo.
Spivak disse que isso era "altamente incomum" e acrescentou: "Acredito que algo foi imposto a Budko de cima — provavelmente uma limitação orçamentária que o impediu de conceder um certificado de imigração."
De acordo com Yad, Paskusz foi transportado de Brno para Terezin em abril de 1942 e depois para Varsóvia no mesmo mês. Quase todos daquele transporte pereceram, segundo o centro. O destino de Helmut é confirmado em mais um arquivo, no qual uma ex-namorada registra que ele foi "assassinado" em abril de 1942.
Marie Ellinger

Marie Ellinger tinha 18 anos quando se registrou no verão de 1939 em Praga. Ela incluiu uma carta manuscrita na qual descreveu sua educação, explicando que havia aprendido costura e desenho e feito alguns trabalhos como ilustradora de moda.
A adolescente anexou fotos de si mesma e alguns de seus designs, mas foi recusada porque a escola não tinha programas relacionados à alfaiataria.
A pesquisa de Vashem mostra que Ellinger foi transferida de Praga para Theresienstadt em um dos primeiros transportes de judeus da cidade. Um mês depois, ela foi transportada para Riga, onde foi assassinada.
Samuel Zimmerman
Os arquivos também incluíam inscrições de potenciais professores, como Samuel Zimmerman. Nascido na Polônia no início da década de 1880, ele se apresentou em maio de 1939 a partir de Viena. Zimmerman era um escultor experiente, e sua inscrição incluía numerosas fotos de sua arte. Ele foi rejeitado porque não havia posições disponíveis para ensinar escultura na escola.
Seu irmão registrou uma Página de Testimonio para ele em 1955, na qual afirmou que ele foi "morto pelos nazistas" enquanto estava a caminho de Israel. Pesquisadores viram ainda "dados externos" sugerindo que ele morreu no Transporte Kladova, que, de acordo com o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, foi um veículo de refugiados com destino à Palestina que foi interceptado pelos nazistas.
Zahava Rosen
Zahava Rosen foi uma das várias sobreviventes que buscaram entrada na Bezalel e incluiu um ensaio detalhado sobre suas experiências durante a guerra.
Em seus escritos, ela descreveu ter sido enviada com sua irmã mais velha para um campo de trabalho no aeroporto de Cracóvia em 1942 e disse que seus pais foram assassinados no ano seguinte. "Em um único dia, cinco membros da minha família se foram", ela escreveu. Rosen se candidatou após a guerra, em 1947, e seguiu estudando tecelagem e bordado.


