Guarda compartilhada de pets após separação pode ser benéfica? Entenda

Projeto aprovado no Senado prevê divisão de cuidados após separação; especialistas alertam para impactos em animais e tutores

Nicoly Bastos, da CNN Brasil
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O Senado Federal aprovou um projeto de lei que autoriza a guarda compartilhada de animais de estimação em casos de separação de casais. A proposta estabelece regras e critérios para esse tipo de arranjo, mas ainda depende da sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para entrar em vigor. A medida acompanha a mudança social em que ocorre o reconhecimento dos pets como parte importante da estrutura afetiva das famílias.

Em conversa com a CNN, especialistas apontam que a divisão da convivência com o pet envolve impactos emocionais tanto para os bichinhos quanto para os tutores envolvidos, e exige cuidado para evitar prejuízo à saúde de todos.

Segundo a médica veterinária Vanessa Mesquita, os animais podem, sim, sentir a ausência de pelo menos um dos tutores. “Eles criam vínculos fortes, especialmente quando há uma rotina estabelecida com determinada pessoa”, afirma. Ainda assim, o apego não é necessariamente ao espaço físico. “O animal não se apega à casa em si, mas aos cheiros e às referências afetivas que estão ali.”

Adaptação do animal depende de rotina e vínculo

O especialista em comportamento animal Cleber Santos reforça que os pets constroem vínculos principalmente com quem está mais presente no dia a dia. “O animal aprende por repetição. Ele tende a se apegar mais a quem alimenta, passeia e interage com frequência”, explicou o profissional. Por isso, definir a guarda pode ser mais complexo do que parece. “Quem vai julgar o que o animal quer?”, questionou.

A adaptação à guarda compartilhada varia entre espécies. Cães, de modo geral, lidam melhor com mudanças, enquanto gatos tendem a sofrer mais com alterações no ambiente. “Por serem mais territorialistas, mudanças frequentes podem gerar estresse significativo nos gatos”, diz Vanessa Mesquita.

Para minimizar os impactos, especialistas recomendam manter o máximo de consistência possível entre as duas casas. Isso inclui horários, alimentação, regras e até objetos como cama e brinquedos. A transição também deve ser gradual, com reforço positivo e estabilidade.

Ainda, filhotes costumam se adaptar com mais facilidade, enquanto animais idosos demandam mais cautela. “Pets mais velhos já têm uma rotina muito consolidada, e mudanças podem afetar não só o comportamento, mas também a saúde física”, explica a veterinária.

Impacto emocional também atinge os tutores

Para os humanos, a separação envolvendo um pet também pode ser emocionalmente desafiadora. A psicóloga Juliana Sato explica que o afastamento do animal pode intensificar o sofrimento do término.

“Não é apenas o fim da relação conjugal. Há também a ruptura da convivência com o pet, que muitas vezes fazia parte da rotina e da organização afetiva”, afirma. Entre os efeitos mais comuns estão tristeza persistente, sensação de vazio e dificuldade de reorganizar o cotidiano.

A especialista chama atenção ainda para o chamado “luto sobreposto”, quando múltiplas perdas -- relacionamento, rotina e convivência com o animal -- acontecem ao mesmo tempo, tornando o processo mais difícil.

A guarda compartilhada pode, em alguns casos, ajudar na adaptação emocional, ao evitar uma ruptura abrupta. No entanto, é fundamental não confundir o vínculo com o animal, para manter vínculos com ex-parceiro para além do necessário.

“O pet pode se tornar um elo entre duas pessoas que já se separaram. Isso não é um problema em si, desde que haja limites claros e foco no bem-estar do animal”, explica Sato.

A psicóloga destaca que o sucesso do modelo depende de fatores como comunicação, acordo entre as partes e ausência de conflitos constantes. “Quando há instabilidade, o animal pode acabar inserido em uma dinâmica que atende mais às necessidades emocionais dos tutores do que ao cuidado em si.”

Embora o projeto represente um avanço no reconhecimento dos animais como membros da família, os especialistas alertam que a aplicação prática exige análise individualizada. "Questões como condições financeiras, disponibilidade de tempo e capacidade de fornecer cuidado adequado devem ser consideradas", ressalta Cleber Santos.

Especialista avalia PL Sobre Guarda Compartilhada De Pets