Plumas e paetês: a ousadia de Walério Araújo com 35 anos na moda brasileira
Considerado um dos principais nomes da indústria nacional, o estilista pernambucano se destacou pela autenticidade ímpar e conversou exclusivamente com a CNN sobre sua trajetória
Em 2025, Walério Araújo completa 35 anos de uma carreira dedicada a moda. Considerado um dos nomes mais ousados na indústria brasileira, o estilista pernambucano deu o pontapé na trajetória em 1990, quando deixou Lajedo, no agreste, para viver o sonho de trabalhar com tudo aquilo que sempre o encantou: plumas, paetês, bordados e tecidos que conheceu em concursos de calouros na TV.
Sem formação acadêmica além de um curso de desenho por correspondência, o artista afirma que sua verdadeira escola foi a vida. Ao desembarcar em São Paulo, trabalhou na Rua São Caetano, mais conhecida como Rua das Noivas, e brilhou em palcos como performer - vestindo drags e travestis. Com a rotina corrida, ganhou o apelido de "mãe", principalmente por acolher e vestir aqueles que, por muitas vezes - e ainda hoje - não encontram espaço na moda tradicional e padronizada.
Após deixar o segmento de noivas de lado, estreou, em 1994, sua própria coleção, rompendo a monotonia da cena ao se firmar como uma grande "rachadura criativa" entre nomes já estabelecidos no mercado. Com mais de três décadas de história, Walério integra a programação oficial da São Paulo Fashion Week, considerada a maior semana de Moda da América Latina, tendo vestido estrelas como Elke Maravilha, Ivete Sangalo, Preta Gil, além de nomes internacionais como Paris Hilton e Hailey Bieber.
Em conversa exclusiva com a CNN, Araújo recorda os próprios passos, comenta sobre a dificuldade em se fazer moda no Brasil e quais sonhos ainda deseja tirar do papel. Confira na íntegra:
De onde vem toda a excentricidade de Walério Araújo?
Walério Araújo: Na verdade, as pessoas mais me associam a uma pessoa excêntrica do que eu mesmo. Quando estou com uma roupa chamativa, a ponto de me acharem excêntrico, é porque uso uma coisa que é na medida do meu desejo em realização. Essa coisa excêntrica vem do cultural, porque eu fui criado em um estado muito folclórico. Eu acompanhei na porta de casa o pastoreio, o Reisado, o São João, as pessoas se enfeitando nas quadrilhas. Eu fui muitos anos para Juazeiro do Padre Cícero, onde meus avós moravam. Essa coisa de enfeitar o santo, os andores cheios de flores, as igrejas, os romeiros. Eu trouxe um pouco disso para a minha vida. É uma forma de suprir essa ausência da minha infância, do meu convívio.
Quando sentiu que era a hora de deixar Lajedo e ir viver o seu sonho?
WA: Foi muito orgânico e de uma certa inocência querer deixar Lajedo. A primeira vez que vim para São Paulo, eu tinha apenas 17 anos. Completei 18 aqui, e resolvi ficar morando na minha sobrinha, que é um pouco mais velha do que eu. Bateu a curiosidade. Eu ouvi no rádio, um curso de desenho de moda no [bairro do] Bom Retiro e quis fazer. E, em outro período, eu trabalhava com decorações de festa de criança, fazendo aquelas esculturas do famoso instinto Palácio dos Enfeites. Como eu tinha acabado de completar 18 anos, juntou a realização de ter feito esse curso, de voltar para Lajedo, mostrar e praticar com as minhas clientes o que eu tinha aprendido, e também de matar saudades dos amigos e da minha família. Depois, automaticamente apareceu o convite para o meu primeiro emprego como estilista de loja de tecido, em Paulo Afonso, na Bahia.
E na Rua das Noivas, como foi a experiência?
WA: Quando eu trabalhei na Rua das Noivas foi uma experiência incrível. Chegando em São Paulo, fui dormir e trabalhar em uma dessas lojas de noivas. Foi um período curto, de apenas três meses, mas eu realmente dormia em um apartamento onde só tinha os rolos de tecido e, na madrugada, eu ouvia os ratos correndo. Eu tive que resistir mas pensei em voltar para Salvador, uma vez que eu tinha casa, comida e roupa lavada.
E por que não voltou?
Eu senti que era a hora de enraizar uma vez que eu já tinha morado São Paulo, Paulo Afonso, Salvador e voltar de novo? Não, vou ter que resistir. Aí apareceu um anjo, que é o meu amigo até hoje, o Jô, e arrumou outro lugar para eu morar. Lá, moravam dois estilistas que me conseguiram um emprego na Rua 25 de março. Para mim, já era muito melhor do que dormir com os ratos. Não tinha TV, não tinha rádio, não tinha nada. Eu assistia a novela das oito na casa da vizinha e quando acabava eu ia dormir. Então, esse lugar morando em uma kitnet me deu liberdade, desejo e força a mais para continuar em São Paulo.
E quando as coisas ganharam novos rumos?
WA: Eu fique três anos por ali, e foi quando eu pensei em criar minha marca, fazer Mercado Mundo Mix [evento multicultural vanguardista, com diversas linguagens artísticas]. Na mesma época, eu conheci a Elke Maravilha, que me conheceu fazendo show de drag queen, transformista e não parei mais. Fui fazer Mercado Mundo Mix, fazia a Elke, pedi as contas da loja e finalmente fui investir na minha marca.
Quando ganhou esse apelido de mãe?
WA: Esse apelido vem da coisa do adotar. É cultural, das travestis, principalmente, já que elas adotavam outras meninas que sonhavam de vir para São Paulo e dividir os apartamentos. E aí acabou que eu também, trazendo, incentivando outros amigos, que ficavam lá em casa. "Mamis, mãe, a Walério é minha mãe, minha mamis". As gerações novas quando chegam já são apresentadas assim, "é a mamis, a mãe de todas". A Gaby Amarantos me chama de mamis. Ela fala que ninguém queria emprestar roupa para ela e eu acabei adotando e sempre emprestei. Sempre amei a Gaby desde a época que ela era conhecida como Beyoncé do Pará. Foi nesse lugar do apoio, é uma retribuição de respeito, de carinho.
Aliás, como foi a relação com a Elke Maravilha?
WA: Também foi muito espontânea. Ela estava sempre nos juris de concursos de drag queens, transformistas, miss regional gay e por aí vai. Ela via algumas das meninas usando as minhas roupas e foi perguntar quem que fazia e me indicaram. Uma amiga em comum me ligou chamando para ir na casa dela tomar um café e me fez essa surpresa, chegando lá estava a Elke. Ela me disse "Walérinho, você é incrível e quero que você faça roupas para mim. Faça o que você acha que eu tenho que usar". Ela me deu esse desafio e super funcionou. Eu buscava tecidos diferentes para criar. Ela morava no Rio e todo final de semana vinha para São Paulo, provava a roupa e no domingo aparecia vestindo no show de calouros.
Qual memória mais bonita de vocês?
WA: Ela me deu todo esse incentivo para eu criar. Ela me apresentava na TV. Todo programa que ela ia as pessoas perguntavam de onde vinha aquelas roupas e os adereços de cabeça que combinava, porque não existia boutique que vendia aquilo. Isso foi trazendo outros artistas que estavam à procura de uma roupa diferenciada seja para um show, uma apresentação ou um red carpet. Esse legado eu recebi da Elke.
E qual a maior dificuldade em se fazer moda no Brasil?
WA: A dificuldade de fazer moda no Brasil é muito relativa. Quem está começando é muito mais difícil, porque não tem um nome conhecido para conseguir parceiros que queiram desenvolver um sapato, um acessório ou apoiar com tecelagens. É muito difícil se você não tem uma relevância.
E como foi a sua estreia?
WA: Quando eu estreei, já fazia Mercado Modo Mix, já fazia Elke, então já apareciam os convites para desenvolver umas coisas, mas ainda hoje é muito restrito e bloqueia a nossa criatividade. A dificuldade da maioria é essa, de ter acesso e abertura dessa fábrica deixar a gente criar e sair do papel. E também um apoio financeiro, porque é muito difícil esse patrocínio. Mão de obra é muito caro, costureira também, que temos que pagar a modelista, costureira, bordadeira, ou às vezes, principalmente quando está começando, pagar para desenvolver a bolsa, o sapato, que nem sempre muitos estilistas conseguem o apoio dessas empresas.
Como você acredita que a sua arte colabore com a cena da moda brasileira? *
WA: A minha arte colabora com a moda uma vez que a maioria já foi usada ou é usada por um artista. É muito rápido, com a visibilidade maior, trazendo fãs, seguidores, e culturalmente falando, pesquisar aquela roupa que ela está usando, o motivo daquele design, o que representa, acho que é nesse sentido. Eu sempre fiz os meus desfiles temáticos, como também já fiz associado a profissões, trouxe o folclore, mostrei um pouco da cultura, dos ritmos. Fiz inspirado no Mágico de Oz, trouxe a arte afro, os orixás... Enfim, é uma forma de me realizar, trazendo essa coisa cultural que é muito minha, do meu estado, do nordeste.
Seus looks são amados pelas celebridades brasileiras. Quem são as pessoas que passaram de clientes para amigas?
WA: Então, essa coisa das clientes virarem amigas, eu sou muito privilegiado. A personalidade com a criação faz com que elas sintam segurança no conjunto da obra. Além da roupa, elas gostam de eu esteja com elas, porque vira uma intimidade, essa coisa da troca de roupa, da transformação, de quando elas pedem, como é que elas estão psicologicamente, o que elas querem causar, acaba ficando mais íntimo. Elas se tornaram amigas. Foram várias que hoje são minhas amigas. Gaby Amarantos, Fafá de Belém, Maria Rita, Sabrina Sato, Vanessa da Mata, Preta Gil, minha maninha, saudade eterna.
E quais personalidade você sonha em vestir?
WA: Beyoncé, eu adoraria fazer, tem muito do meu trabalho. Lady Gaga, principalmente, ela traz essa coisa do exagero mais do que qualquer outra. Eu ia amar fazer Madonna, que foi a minha cantora dos anos 1980. O meu quarto era cheio de pôsteres. No meu estúdio tinha quadros emoldurados dela. Eu tinha toda coleção de discos. Fui em três shows. Nos anos 1990 eu estava na porta do hotel dela em São Paulo e ela apareceu na janela e acenou.
Para finalizar, entre plumas, paetês e muitas celebridades, qual sonho você ainda quer realizar?
WA: Adquirir uma casa, um apartamento, um estúdio, um lugar para ter segurança. Depois de tantos, tantos anos, agora eu me conscientizei que eu tenho que parar de ficar mudando porque quando não é da gente a gente tem que mudar por obrigação, uma vez que os proprietários pedem para vender, ou para reformar ou qualquer desculpa que seja. Adquirir bens!


