Saiba a diferença entre a Páscoa Cristã e a Páscoa Judaíca
Entenda como duas tradições religiosas celebram a liberdade e a renovação a partir de diferentes perspectivas de fé

Celebrada em diferentes tradições religiosas, a Páscoa costuma carregar significados profundos tanto para o cristianismo quanto para o judaísmo. Embora tenham origens conectadas, as duas datas representam experiências distintas de fé, memória e espiritualidade — unidas, sobretudo, pelo simbolismo da libertação.
A palavra “Páscoa” vem do hebraico Pessach, que significa “passagem”. Esse conceito está no centro das duas celebrações, mas ganha interpretações diferentes ao longo da história.
Para os judeus, o Pessach relembra a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito, narrada no livro bíblico do Êxodo. Já para os cristãos, a data celebra a ressurreição de Jesus Cristo, entendida como a vitória sobre a morte e o pecado.
Segundo o padre Cleiton Viana da Silva, também doutor em teologia moral, do clero da Diocese de Mogi das Cruzes (SP) e autor de vários livros, como "Preceitos da serenidade: viver um dia de cada vez", essa diferença redefine o próprio sentido da existência para os cristãos. “A ressurreição de Cristo muda o eixo da vida. A morte deixa de ser o fim e passa a ser uma passagem. A esperança cristã não é apenas emocional, mas uma certeza de que Deus já venceu o mal”, explica.
Libertação histórica x libertação espiritual
Apesar das diferenças, há um elo importante entre as duas celebrações: a libertação. No Pessach, a libertação é histórica e coletiva. A festa recorda a saída do povo hebreu do Egito e reforça valores como liberdade, fé e identidade cultural. Como destaca Eliahu Hasky, rabino da Sinagoga de Copacabana, no Rio de Janeiro, trata-se de um momento de reconexão espiritual: “Não é apenas a libertação física, mas também uma libertação moral e espiritual que cada geração precisa buscar”.
Já na Páscoa Cristã, essa ideia se amplia. De acordo com o padre, a libertação ganha um sentido universal. “Em Cristo, a passagem não é apenas da opressão para a liberdade, mas da morte para a vida, do pecado para a graça”, diz.
Como cada tradição celebra
As formas de celebração também evidenciam as diferenças entre as duas Páscoas. No judaísmo, o Pessach dura oito dias e começa com o "Seder", um jantar ritual repleto de simbolismos.
Durante a cerimônia, as famílias seguem a leitura da Hagadá (texto que narra a saída do Egito e orienta os rituais da cerimônia) e consomem alimentos específicos, como o matzá (pão sem fermento), ervas amargas e o charosset, que remetem à experiência da escravidão e da libertação. Ao longo do período, alimentos fermentados são evitados, reforçando a memória histórica.
A celebração também tem forte caráter familiar e educativo, com destaque para a participação das crianças, que fazem perguntas e ajudam a recontar a história do povo judeu.
Já no cristianismo, a Semana Santa conduz os fiéis por um caminho espiritual que culmina na Páscoa. Esse percurso inclui o Domingo de Ramos, a Quinta-feira Santa, a Sexta-feira Santa e o Sábado Santo, até chegar à Vigília Pascal — considerada a celebração mais importante, marcada por símbolos como luz, água e renovação.
Datas que já foram as mesmas
Curiosamente, as duas celebrações já chegaram a coincidir. Nos primeiros séculos do cristianismo, alguns grupos celebravam a Páscoa no mesmo dia do Pessach, seguindo o calendário hebraico (14 de Nisã).
Com o tempo, porém, a Igreja passou a fixar a data no domingo seguinte à primeira lua cheia da primavera no hemisfério norte, para destacar a ressurreição de Cristo. Essa definição foi consolidada no século IV.


