Covid-19: taxa de mortalidade entre indígenas é o dobro da média brasileira


Por Shasta Darlington, José Brito e Flora Charner da CNN
24 de maio de 2020 às 13:45 | Atualizado 24 de maio de 2020 às 14:05
Indígenas Amazonas

Vanderlecia Ortega dos Santos, técnica de enfermagem indígena, trabalha de forma voluntária em seu comunidade contra a Covid-19

Foto: REUTERS/Bruno Kelly (26/04/2020)

Longe dos hospitais e sem infraestrutura básica, os indígenas do Brasil estão morrendo a um ritmo alarmante vitimados por Covid-19, com pouca ajuda à vista. A taxa de mortalidade entre eles é o dobro da do resto da população do Brasil, de acordo com a associação Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), que controla o número de casos e mortes entre os 900 mil pessoas indígenas do país.

A Apib registrou mais de 980 casos oficialmente confirmados de novo coronavírus e pelo menos 125 mortes, o que sugere uma taxa de mortalidade de 12,6% — em comparação com a taxa nacional de 6,4%.

Embora a Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde tenha relatado apenas 695 casos de novo coronavírus em comunidades indígenas e 34 mortes, ela monitora um grupo menor de pessoas — apenas aquelas que vivem em aldeias tradicionais e registradas em clínicas de saúde locais, e não os indígenas que se mudaram para vilas e cidades.

Indígenas que se mudaram para cidades maiores ou áreas urbanas para estudar ou procurar trabalho podem acabar vivendo em condições precárias, com poucos serviços públicos, aumentando sua vulnerabilidade a problemas de saúde. Enquanto isso, aqueles que vivem em áreas remotas podem não ter serviços básicos de saneamento e saúde. Foi o caso do garoto Yanomami de 15 anos de uma aldeia remota na Amazônia, um dos primeiros brasileiros indígenas a morrer de Covid-19 em abril.

“O coronavírus se aproveitou de anos de negligência pública", afirmou Dinaman Tuxá, coordenador executivo da Apib e membro do povo Tuxá, no estado da Bahia, nordeste do Brasil. “Nossas comunidades estão frequentemente em regiões remotas e inóspitas, sem acesso ou infraestrutura".

De acordo com o coordenador, a comunidade Tuxá, com 1.400 pessoas, não tem hospitais e a UTI mais próxima fica a quatro horas e meia de carro. A principal forma de prevenção foi o isolamento completo. “Diante da pandemia, não tivemos muitas opções. Tivemos de nos isolar completamente. Montamos barreiras. Ninguém está autorizado a entrar e tentamos impedir que alguém saia."

Leia também:
Número de indígenas mortos por Covid-19 pode ser 4 vezes maior que dado oficial
Isolamento não é suficiente para salvar indígenas na Amazônia da Covid-19

Até agora, não houve nenhum caso confirmado na comunidade Tuxá, mas ele não sabe quanto tempo eles serão capazes de evitar o vírus. Mais de 60 comunidades indígenas confirmaram casos de Covid-19, muitos delas na região amazônica, onde as pessoas só podem chegar aos hospitais de barco ou avião.

De acordo com um estudo da organização sem fins lucrativos InfoAmazonia, a distância média entre aldeias indígenas e a unidade de terapia intensiva mais próxima (UTI) no Brasil é de 315 quilômetros. Para 10% dessas aldeias, a distância aumenta para entre 700 e 1.079 quilômetros.

“As comunidades indígenas (mesmo as que têm unidades básicas de saúde) simplesmente não estão preparadas para o coronavírus, o que significa que os infectados precisam ser removidos e frequentemente percorrem longas distâncias", disse Joenia Wapichana, a primeira congressista indígena do Brasil. “E quando chegam lá, precisam competir por hospitais, leitos de UTI, ventiladores, porque na verdade não há o suficiente para todos."

Os estados das regiões norte e nordeste estão entre os mais atingidos pelo novo coronavírus no Brasil. A maioria das mortes pela Covid-19 em povos indígenas ocorreu no Amazonas, um dos estados com as maiores taxas de infecção, onde autoridades locais alertaram que o sistema de saúde estava em colapso em março.

Ativistas de direitos indígenas alertam que a mineração ilegal e extração de madeira em terras indígenas (que aumentaram desde a posse do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, no ano passado), agora representam uma ameaça ainda maior para comunidades remotas.

O desmatamento na floresta amazônica brasileira aumentou quase 64% em abril deste ano, em comparação com o mesmo mês do ano passado, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Somente no mês passado, mais de 405,6 quilômetros quadrados de floresta foram destruídos — uma área imensa, que representa mais do que o dobro do tamanho da capital dos Estados Unidos, Washington, DC.

O primeiro trimestre de 2020 já havia registrado um aumento de mais de 50% no desmatamento em relação ao ano passado, segundo dados do Inpe.

“Os indígenas da Amazônia não têm anticorpos para as doenças que vêm de fora da floresta tropical", disse o ativista e fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado à jornalista Christiane Amanpour, da CNN, em entrevista recente. “Há um enorme perigo de que o coronavírus possa entrar no território indígena e cause um verdadeiro genocídio".

O Congresso aprovou na semana passada um plano de emergência para as comunidades indígenas que forneceria não apenas equipamentos médicos e hospitais de campo, mas também água potável e alimentos que permitissem que as tribos se isolassem. Mas o plano ainda precisa ser aprovado pelo Senado e obter um sinal verde de Bolsonaro, que minimizou o vírus e tem uma relação historicamente antagônica com as comunidades indígenas.

“Os indígenas nem sempre podem ser os últimos a serem tratados, os últimos a receber equipamentos", disse a deputada Joênia Wapichana, relatora do plano. “Não existe um único hospital de campanha apenas para povos indígenas. Eles estão sendo construídos nos lugares errados".