Munição encontrada no caso Marielle aparece em outros 17 crimes cometidos no Rio

Entre 2013 e 2018, munições do lote UZZ18 apareceram em cenas de homicídios de PMs, de guerra entre traficantes e milicianos por territórios e outros

Leandro Resende, da CNN, no Rio de Janeiro
24 de julho de 2020 às 09:07 | Atualizado 24 de julho de 2020 às 10:25

Investigadores da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio que atuam na apuração do homicídio da vereadora Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes descobriram que munições do mesmo lote que o encontrado na cena do crime aparecem em outros 17 casos ocorridos só no Rio de Janeiro.

A CNN teve acesso ao documento que traz detalhes de episódios desde 2013 em que munições compradas pela Polícia Federal, identificadas pelo grupo UZZ-18, aparecem nas mãos de criminosos de diversas facções na capital fluminense.

Oito das nove munições encontradas no local em que Marielle Franco e Anderson Gomes foram assassinados fazem parte de um lote de 1,8 milhão comprados pela Polícia Federal (PF) junto a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) em 2006.

De acordo com informações levantadas pelos investigadores, munições do mesmo lote começaram a aparecer em cenas de crime no Rio de Janeiro em 2013, cinco anos antes da morte de Marielle. O primeiro caso ocorreu em uma apreensão de armas, na Rocinha, favela na zona sul do Rio. Na ocasião, a polícia apreendeu armas deixadas por traficantes em fuga. 

Os dados sobre as ocorrências mostram que em 53% dos casos as munições do mesmo lote que o encontrado no caso Marielle apareceram nas mãos de traficantes; 18% nas mãos de milicianos e 6% nas mãos da própria PF. No restante dos casos, não há informações mais detalhadas sobre quem estava com as armas.

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Entre 2013 e 2018, munições do lote UZZ18 apareceram em cenas de homicídios de policiais militares, guerra entre traficantes e milicianos por territórios, apreensões de drogas e armas e até em uma tentativa de roubo de carga. Adquiridas pela PF em 2006, as munições foram distribuídas a partir de Brasília para as outras superintendências do órgão em todo Brasil

Os 17 episódios descobertos após amplo levantamento coordenado pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil e pelo Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Rio somam-se a outros dois casos em que munições que foram desviadas da PF foram encontradas.

Em 2015, a PF descobriu que munições do mesmo grupo foram usadas numa chacina com 17 mortos e sete feridos em São Paulo. Além disso, meses depois do assassinato de Marielle, a PF também levantou que parte dos projéteis apareceu em um assalto em uma agência dos Correios na Paraíba, em 2017.

Nesta semana, a CNN mostrou que o Ministério Público Federal rejeitou o pedido de arquivamento do inquérito da PF que apurava como as munições do órgão foram parar nas mãos de Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, reús pela morte de Marielle e Anderson. A PF quis arquivar o caso, mas o MPF solicitou novas diligências. 

Saber como as munições foram parar nas mãos dos acusados do crime é um ponto considerado central na investigação sobre a existência de um possível mandante da morte de Marielle, e é algo que ainda não foi totalmente esclarecido.

Na opinião de investigadores que trabalham no caso, trata-se de algo que “é difícil, mas não é impossível”. Uma das pontas soltas é entender qual quantidade e como foram desviadas munições deste lote de 1,8 milhão da PF compradas em 2006 — e como foram parar em tantos casos de crime no Rio e em outros locais do Brasil.

A CNN procurou a PF, mas ainda não teve resposta.

Documento traz detalhes de episódios desde 2013 em que munições compradas pela PF aparecem nas mãos de criminosos de diversas facções no RJ
Foto: Divulgação / Secretaria de Estado de Segurança Pública do RJ