RJ: Milícia cria associação de moradores e avança sobre prefeituras, diz estudo

De acordo com os pesquisadores, há indícios de uma ‘parceria orgânica sem precedentes entre polícia e milícia’

Leandro Resende
Por Leandro Resende, CNN  
26 de outubro de 2020 às 07:49 | Atualizado 26 de outubro de 2020 às 08:32

 

Com novas configurações e mudanças nos métodos de atuação, a milícia avança no Rio de Janeiro e expande suas influências para prefeituras e câmaras de vereadores, além de buscarem formas de “legalizar” suas ações. Para se ter uma ideia, os criminosos chegaram a criar uma associação de moradores para acionar a Defensoria Pública da União e assegurar o acesso de moradores de comunidades a habitações do programa Minha Casa Minha Vida. A mudança no padrão de atuação dos criminosos no estado está em nota técnica elaborada pela Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos. O grupo, que reúne pesquisadores de diversas universidades do estado, além de organizações da sociedade civil, investigou a mudança no padrão de atuação da milícia no Rio durante um ano. O documento será lançado nesta segunda-feira (26).

A criação de uma associação de moradores para conseguir manipular o cadastro de pessoas no programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, é um exemplo objetivo do que os pesquisadores chamam de uma habilidade da milícia de “transitar entre o legal e o ilegal”, o que torna os grupos de criminosos cada vez mais inseridos no estado.

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“Este exemplo que colhemos mostra que a milícia está em um novo estágio. Há, hoje, um foco desses grupos criminosos para lucrar com habitação, por exemplo. Para além do que já sabemos, da relação com a polícia, observamos um novo momento, perturbador”, explica o pesquisador João Trajano Sento-Sé, um dos responsáveis pelo estudo.

Na semana passada, a CNN mostrou estudo que calculou a presença da milícia em territórios da capital fluminense - levantamento mostrou que atualmente 57,5% do território da capital fluminense é controlado por milicianos. Em vinte anos, este grupo superou o domínio de três facções de traficantes de drogas.

O estudo alerta para “conexões” entre milicianos, prefeituras e Câmaras de Vereadores em todo o estado do Rio. “Os relatos que colhemos nos mostram que há conexões que ameaçam o estado de direito no Rio de Janeiro”, afirmou João Trajano Santo-Sé.

A nota técnica também destaca que a relação entre milícias e a polícia não se dá mais de forma “pontual”, através da figura de policiais que desviam suas funções.  De acordo com os pesquisadores, há indícios de uma “parceria orgânica sem precedentes entre polícia e milícia”. “É difícil estimar a extensão dessas práticas, mas há indícios de que elas acontecem, sugerindo um perigoso processo de consolidação de uma parceria orgânica entre polícia e milícia, sem precedentes na história do estado. Sendo assim, já não faria mais sentido lidar com os problemas envolvendo as conexões da polícia com crime em termos dualistas. Tratá-los, por exemplo, pelo binômio banda podre/banda saudável, como foi consagrado até recentemente, encobre a dimensão estrutural do problema que enfrentamos presentemente”, diz trecho do estudo.