'A única pessoa que foi calada nessa história foi o Henry', diz delegado

Advogados da professora cobravam que titular da 16ª DP a ouvisse novamente, antes de finalizar inquérito

Stéfano Salles e Marcela Monteiro, da CNN no Rio de Janeiro
04 de maio de 2021 às 14:04 | Atualizado 04 de maio de 2021 às 14:38
Henry Borel em comemoração ao seu aniversário de 4 anos, em maio de 2020
Henry Borel em comemoração ao seu aniversário de 4 anos, em maio de 2020
Foto: Arquivo Pessoal

Nesta terça-feira (4), a Polícia Civil detalhou a conclusão do inquérito que investiga a morte do menino Henry Borel de Medeiros, de quatro anos, ocorrida em oito de março, e o indiciamento da mãe, Monique Medeiros, e do padrasto, o vereador Dr. Jairinho, que tiveram a prisão preventiva solicitada ao Ministério Público e ao Poder Judiciário.

Durante entrevista nesta terça-feira, o delegado titular da 16ª DP (Barra da Tijuca), Henrique Damasceno, comentou o pedido da defesa de Monique, que cobrava que a cliente fosse novamente ouvida pela investigação, antes da conclusão do inquérito, para apresentar uma nova versão.

Quando foi ouvido, na condição de testemunha, o casal sustentou a versão de acidente doméstico.

“O argumento de calar Monique é absolutamente descabido. Temos que considerar que ela foi devidamente ouvida em sede policial, como testemunha, por horas. E terá pelo menos duas oportunidades para se manifestar em juízo. A única pessoa que foi calada nessa história toda foi o Henry. Ele foi calado, pediu ajuda e não foi ouvido. Ela, não. Teve a oportunidade de se manifestar”, afirmou o delegado.

Damasceno destacou ainda que a professora pediu que a babá apagasse as mensagens de seu celular e não dissesse o que sabia sobre o assunto às autoridades. E enfatizou: “Não há provas nos autos de que ele foi subjugada”.

O delegado lembrou ainda que, na primeira ação de busca e apreensão na casa de Monique, ela estava apenas com a família. Damasceno diz que os agentes se colocaram à disposição para o caso de ela querer prestar declarações, aproveitando que não estava na companhia de Jairinho, mas ela não quis se manifestar. A prisão do casal ocorreu em um endereço não informado nos autos, o que, segundo o titular da 16ª DP, significa que foi necessária uma ação de vigilância para efetuar a prisão. E que, no momento da prisão, os dois dormiam juntos.

O casal Monique e Jairinho foi indiciado por homicídio duplamente qualificado. Jairinho também foi indiciado por dois supostos episódios de tortura a Henry em fevereiro desse ano. Um deles, no dia 12 de fevereiro, em que as mensagens e uma chamada de vídeo mostram que a babá comunicou o ocorrido a Monique, que estava em um salão de beleza e demorou para retornar ao apartamento. Por esse motivo, ela responde por uma figura jurídica pouco comum: tortura por omissão.

Diretor-geral da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Antenor Lopes explicou que responsabilizar Monique foi a parte mais delicada da investigação.

“Muito mais difícil do que prender um médico, vereador, liderança política do Rio, foi pedir a prisão e responsabilizar uma mãe que perdeu o filho de quatro anos de idade. A investigação começou como se tivesse havido um acidente doméstico. No entanto, com provas documentais, testemunhais, periciais, a investigação está tecnicamente convencida da responsabilidade pela morte do menino Henry, do vereador Jairinho, e da mãe, Monique Medeiros”, avalia Lopes.

Jairinho foi indiciado na sexta-feira passada (30), pela Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (DCAV), acusado de torturar a filha de uma ex-namorada enquanto no período em que ela tinha de três a cinco anos.

Procurada, a defesa de Monique Medeiros criticou a conclusão do processo apuratório. “O inquérito policial foi finalizado prematuramente com erros investigativos. Foram reinquiridas várias pessoas e admitida mudança de seus relatos. Monique não teve igual direito, em ‘dois pesos e duas medidas’.  Mesmo a reconstituição dos fatos, baseada em versão irreal de Monique sob coação e dissimulação, é imprestável”, diz um trecho do posicionamento.

Em outro, os advogados Thiago Minagé, Hugo Novais e Thaise Mattar Assad diz que o inquérito não aprofundou investigação sobre receitas médicas, obtenção e uso de medicamentos descritos, embora isso tenha sido solicitado pela defesa. E concluiu: “A defesa vai trabalhar com o objetivo de fazer prevalecer a verdade na justiça. Tratar Monique como coautora do crime é erro injustificável! Monique é erro injustificável”.

Advogado de Jairinho, Braz Sant’Anna prefere aguardar a acusação do Ministério Público para se manifestar quando for formalizada uma denúncia. A defesa da babá não retornou aos contatos feitos pela CNN até o momento. (Com informações de Elis Barreto e Lucas Janone).