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    “Abolição verdadeira só se iniciou com a Lei de Cotas”, diz especialista

    José Vicente disse à CNN Rádio que pela primeira vez o Brasil criou uma política pública que atende a um grupo excluído da vida nacional

    número de alunos pretos, pardos e indígenas matriculados nas universidades federais passou de 42%, em 2010, para 53%, em 2020. 
    número de alunos pretos, pardos e indígenas matriculados nas universidades federais passou de 42%, em 2010, para 53%, em 2020.  Marcos Santos/USP Imagens

    Rodrigo Tammaroda CNN*Letícia VidicaTalita Amaral

    Após dez anos de vigência, as cotas mudaram o cenário nas universidades brasileiras. Instituída em 29 de agosto, a lei 12.711/2012 prevê que os institutos federais reservem 50% das vagas para alunos que tenham feito todo o Ensino Médio em escolas públicas. Dentro desse grupo, também estão previstas vagas para pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência.

    Os dados da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), compilados a partir do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), mostram que o número de alunos pretos, pardos e indígenas matriculados nas universidades federais passou de 42%, em 2010, para 53%, em 2020.

    Em entrevista à CNN Rádio, o reitor da Universidade Zumbi dos Palmares (Fazp), José Vicente, afirma que essa é a primeira política pública brasileira que atende a um grupo excluído da vida nacional.

    “Em toda sua trajetória histórica, o que o Brasil fez foi alijar, impedir e limitar o negro do acesso, não só à vida social, como também, sobretudo, ao mercado de trabalho e educação”, avalia.

    “É a primeira vez na história do nosso país que nós construímos uma ação para incluir e valorizar o negro no espaço do ensino superior”, acrescenta.

    O reitor lembra também que, em 2006, 114 pesquisadores, artistas e professores assinaram um manifesto contra a reserva de vagas nas universidades. Segundo ele, essa foi uma atitude reativa a uma ação que atende pessoas periféricas.

    “A primeira reação foi proteger os privilégios.” Havia também, de acordo com Vicente, um preconceito de que a medida diminuiria a meritocracia e a qualidade da universidade pública.

    Para ele, esse ponto de vista está equivocado. “É impensável imaginar que um menino da periferia e um menino de classe média alta compitam em pé de igualdade para acessar a USP (Universidade de São Paulo)”, exemplifica.

    Na sua avaliação, diante dos dados e após os dez anos de vigência da Lei, alguns intelectuais e grande parte da sociedade brasileira refazem seu ponto de vista.

    “É bom porque eles estão fazendo uma mea culpa de que aqueles argumentos que eles apresentaram não tinham sustentação. Abrimos a porta para que a sociedade brasileira, agora com o apoio dessas personalidades, possa transformar esses dez anos em um projeto de consolidação para que, decisivamente, nosso país faça dessa agenda uma ferramenta importante de igualização para negros e brancos.”

    Sobre o resultado dos cotistas na universidade, Vicente disse que a maioria deles teve um desempenho excelente e superou as expectativas, o que ajudou a incentivar as políticas de inclusão também no mercado de trabalho.

    Ainda assim, ele lembra que existem diversos Projetos de Lei no Congresso Nacional para extinguir ou modificar a lei para que o aspecto racial não seja contemplado. “A gente está sempre correndo risco e próximos de sermos derrotados no nosso desejo de fazer prevalecer a lei”, conclui.