Acusados pela morte do cinegrafista Santiago Andrade vão a júri no Rio

Julgamento acontece quase dez anos após morte do repórter cinematográfico

Isabelle Saleme, da CNN
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Após quase dez anos da morte do repórter cinematográfico Santiago Andrade, durante a cobertura de uma manifestação no centro do Rio, começa na tarde nesta terça-feira (12), o julgamento de Fábio Raposo Barbosa e Caio Silva de Souza.

A dupla responde a denúncia do Ministério Público por homicídio qualificado por emprego de explosivo. A pena prevista pode chegar aos 30 anos de prisão.

A expectativa é de que sejam ouvidas testemunhas de acusação e defesa, além dos dois réus no 3º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro. Depois, o júri vai definir se eles são culpados ou inocentes.

O cinegrafista cobria uma manifestação no centro do Rio de Janeiro quando foi atingido na cabeça por um rojão, em 2014. Fotos na época mostraram o momento da explosão.

Os dois rapazes acusados de terem acendido e lançado o artefato chegaram a ficar presos por cerca de um ano mas conseguiram o direito de responder em liberdade.

"Infelizmente a justiça permite que quem responde em liberdade não volta pra cadeia sem esgotar todos os recursos. Mas a condenação pelo homicídio eles vão ter", disse à CNN a filha de Santiago, a jornalista Vanessa Andrade.

Nas redes sociais, Vanessa postou fotos do dia em que tudo aconteceu. "Dez anos em que dois criminosos, assim eu chamo, cometeram um homicídio à luz do dia, em praça pública, diante dos olhos e câmeras de tantas testemunhas. Cruéis, frios, ardilosos, assassinos. Que transportaram, acenderam e atiraram um rojão em cima de um homem honesto, que só estava fazendo seu trabalho", escreveu.

O que espera a família de Santiago

A advogada da família Andrade, Carolina Heringer, explicou à CNN que tem por objetivo comprovar que os réus assumiram o risco de ferir ou matar, ou seja, um homicídio com dolo eventual, a partir do momento que tinham como objetivo utilizar o rojão em direção aos agentes de segurança.

"Há duas pessoas que soltam o rojão. Uma que contribui pra conduta, que foi o Fábio, que passou o rojão. E o Caio, que acendeu e atirou. Pessoas que fazem isso em meio a multidão estão assumindo o risco de ferir até de matar pessoas, como ocorreu. O que é importante nessa questão é que ali era um ambiente de conflito, conflito entre os manifestantes e os policiais militares. Então, obviamente, os dois manifestantes estavam usando aquele rojão como uma arma pra atingir os policiais militares. Só que, lamentavelmente, fatalmente, eles acabaram atingindo o Santiago. Mas, juridicamente, não muda quem eles atingiram, e sim a intenção que eles tinham ao usar aquele rojão, a forma que eles estavam usando", explicou a advogada.

Isso para evitar que a Justiça entenda que houve crime de explosão com resultado morte, crime com pena mais brandas, que pode chegar no máximo a 12 anos.

"Dez anos, pai. E seguimos aqui aguardando o momento de soltar o grito de justiça, entalado por um vazio que só quem perde quem se ama é capaz de sentir. Dói tanto que fica dormente, somos uma família adormecida pela saudade. Mas somos a sua família, meu pai. E que te ama. Que estará firme diante daquele júri para fazer prevalecer a história do homem íntegro inocente, vítima de dois assassinos que merecem uma pena a altura, não uma leve pena, mas a pena merecida para quem assume o risco de ferir e até de matar, porque foi assim que eles destruíram para sempre a nossa família", concluiu a filha de Santiago nas redes sociais.

O que dizem os réus

Procurada, a defesa de Fabio e Caio, assinada pelos advogados Antônio Pedro Melchior, Leonardo Rivera e Rodrigo Faucz, se manifestou lamentando a morte de Santiago e alegando que os acusados não tinham intenção de matar o repórter cinematográfico.

Os defensores afirmam, ainda, que as imagens que o cinegrafista gravou foram destruídas pela Rede Bandeirantes, empresa em que Santiago trabalhava na época, e que isso impediria que todas as circunstâncias do crime fossem analisadas.

"Espera-se que os jurados reconheçam que, obviamente, os acusados não tiveram qualquer intenção ou anuíram com a triste morte de Santiago de Andrade.
De qualquer maneira, Caio Silva de Souza, como já se manifestou inúmeras vezes, sente muito pelo ocorrido e se solidariza com a família do cinegrafista que perdeu a vida enquanto exercia seu ofício", disseram em nota.